Casal abandona projeto de casa convencional, passa seis meses reunindo 1.100 pneus que seriam descartados, preenche cada unidade com terra e ergue na Nova Zelândia uma surpreendente residência sustentável de quatro quartos, com paredes de barro, garrafas recicladas, jardim interno, energia solar e sistema capaz de reaproveitar a própria água usada pelos moradores.
Batizado de Te Timatanga, expressão que significa “o começo”, o imóvel também incorporou garrafas de vidro, tijolos de barro reaproveitados e conchas de mexilhão.
O resultado foi uma residência do tipo Earthship, projetada para aproveitar energia solar, controlar naturalmente a temperatura e reduzir a dependência das redes convencionais.
Trabalhadores utilizam pneus preenchidos com terra para formar as paredes da Earthship Te Timatanga, residência sustentável de quatro quartos construída na Nova Zelândia
Residência criada por Gus Anning e Sarah Rowe aproveitou pneus, garrafas, tijolos usados e até conchas de mexilhão para produzir energia, reutilizar água e manter a temperatura interna estável
Durante seis meses, Gus Anning e Sarah Rowe reuniram pneus que seguiriam para o descarte. O material, porém, não terminou em um aterro sanitário.
O casal utilizou cerca de 1.100 pneus usados para erguer as paredes de uma casa sustentável com quatro quartos na Península de Coromandel, na Nova Zelândia.
Cada unidade recebeu terra compactada antes de ser empilhada. Dessa maneira, algo normalmente tratado como resíduo passou a funcionar como parte estrutural e térmica da residência.
Caminhão carregado revelou a solução para conseguir 1.100 pneus
O casal conheceu o conceito de Earthship ao assistir ao documentário Garbage Warrior. A produção apresenta o trabalho do arquiteto norte-americano Michael Reynolds, responsável por desenvolver esse tipo de construção a partir da década de 1970.
Gus e Sarah chegaram a avaliar a possibilidade de instalar uma casa pré-fabricada no terreno. Contudo, o modelo não atendia ao nível de sustentabilidade e integração ambiental desejado pela família.
O próximo desafio envolvia encontrar os materiais necessários. Durante semanas, os moradores observaram um caminhão carregado de pneus passando perto da propriedade.
Posteriormente, conseguiram encontrar o motorista em um café da região. Os pneus transportados seriam levados para descarte, mas o casal negociou a entrega do material no terreno.
O processo de reunir unidades suficientes demorou aproximadamente seis meses. Além da quantidade, os responsáveis pela obra precisaram organizar pneus de diferentes tamanhos.
Cada peça foi preenchida com argila retirada do próprio terreno. Em seguida, os trabalhadores compactaram o material e empilharam os pneus, formando paredes extremamente espessas.
A massa térmica dessas estruturas absorve calor durante o dia e o libera lentamente. Assim, a técnica ajuda a manter o ambiente aquecido no inverno e fresco durante os períodos mais quentes.
Casa sustentável de quatro quartos surgiu integrada a uma encosta
A residência ocupa aproximadamente 240 metros quadrados em uma propriedade de cerca de um hectare. O terreno fica no vale de Puketui, na Península de Coromandel.
ardim interno da residência aproveita a luz solar e integra plantas ao sistema natural de controle térmico e reaproveitamento de recursos.
O local possui um significado particular para Sarah. A área pertencia à sua família e integrava um antigo pomar de kiwis onde ela costumava andar a cavalo durante a infância.
O projeto colocou parte da casa contra uma encosta. No lado sul, uma membrana impermeável separa o solo das paredes feitas com pneus, reduzindo o risco de infiltrações.
Sob o piso, os construtores espalharam conchas de mexilhão, um resíduo disponível na região. Elas funcionam como uma camada natural de isolamento.
A fachada possui grandes superfícies de vidro orientadas para aproveitar a incidência solar. Um átrio semelhante a uma estufa percorre a parte frontal e abriga plantas, ervas e alimentos.
As janelas inclinadas, a ventilação natural e as paredes de elevada massa térmica trabalham juntas. Esse conjunto reduz a necessidade de equipamentos convencionais para aquecer ou resfriar os ambientes.
A casa oferece quatro quartos, dois banheiros, cozinha, sala de estar e amplas áreas de convivência. Um terraço coberto também permite contemplar a paisagem e permanecer protegido nos dias chuvosos.
Garrafas, barro e tijolos usados mudaram o interior da residência
Os pneus ficam escondidos sob camadas de revestimento natural. Por isso, quem observa os ambientes internos encontra paredes curvas e acabamento feito principalmente com barro e palha.
Garrafas de vidro coletadas por Sarah e seus amigos foram cortadas e incorporadas às paredes. A luz atravessa os fundos coloridos e cria pontos luminosos no interior da casa.
Garrafas reaproveitadas foram incorporadas às paredes de barro e formaram desenhos coloridos iluminados naturalmente.
O casal também conseguiu tijolos de barro que haviam sobrado de outro projeto. Até os pedaços quebrados ganharam utilidade, pois foram misturados à massa empregada no revestimento.
A madeira utilizada na cobertura veio de fornecedores locais. Já o telhado recebeu painéis estruturais isolantes, formados por metal, núcleo térmico e acabamento interno.
Apesar de toda a eficiência térmica, os moradores instalaram uma lareira. Segundo os relatos sobre o projeto, ela atua principalmente como elemento de conforto visual, pois a casa mantém uma temperatura estável durante o ano.
A cozinha também possui um fogão conectado ao sistema de aquecimento de água. O gás engarrafado utilizado no forno representa uma das poucas fontes de energia externas da residência.
Energia solar e reúso de água reduziram a dependência externa
Painéis solares instalados no telhado fornecem eletricidade para o imóvel. Em determinados períodos, a residência chegou a produzir mais energia do que consumia.
Inicialmente, o sistema não armazenava o excedente em baterias. A energia restante retornava à rede, compensando parte dos custos de conexão.
O projeto também capta e reaproveita água. Depois do uso, parte do volume passa por áreas internas cultivadas com plantas, recebe tratamento e pode seguir para outras funções, como as descargas sanitárias.
A estufa frontal também favorece a produção de alimentos durante diferentes épocas do ano. Dessa forma, o conceito reúne moradia, geração de energia, controle térmico, tratamento de água e cultivo no mesmo espaço.
Segundo um estudo de caso da plataforma neozelandesa Nature-based Urban design for Wellbeing and Adaptation, a casa consegue atender internamente às suas necessidades hídricas e produzir mais eletricidade do que utiliza.
Voluntários transformaram a construção em uma escola prática
Gus e Sarah sabiam que preencher e empilhar 1.100 pneus exigiria enorme esforço físico. Para tornar o projeto viável, eles transformaram o canteiro em uma experiência de aprendizado.
Durante o verão de 2015, dezenas de pessoas participaram de oficinas realizadas na propriedade. Os voluntários aprenderam a compactar terra, construir paredes, trabalhar com barro e aproveitar garrafas.
Em alguns momentos, o local recebeu até 60 participantes simultaneamente. Ao longo de toda a obra, mais de uma centena de pessoas de diferentes países teria colaborado com alguma etapa.
Profissionais experientes orientaram o grupo e acompanharam os trabalhos. Em troca da participação, os aprendizes encontraram hospedagem, alimentação e contato direto com técnicas alternativas de construção.
A residência ainda precisou cumprir as regras do Código de Construção da Nova Zelândia. Arquitetos, projetistas e engenheiros adaptaram o conceito original das Earthships às características climáticas e às exigências locais.
De acordo com a organização Earthship New Zealand, a família concluiu a residência em menos de um ano após o início da obra principal.
A história mostra que os pneus não serviram apenas como substitutos de materiais convencionais. Eles se tornaram a base de uma casa espaçosa, eficiente e conectada à paisagem.
Além disso, o projeto evitou que 1.100 unidades usadas fossem descartadas, reaproveitou resíduos disponíveis na região e disseminou conhecimento entre os participantes.
No final da década de 90 estava eu muito descansado no hotel Intercontinental do Rio de Janeiro quando chegou uma mensagem da TAP. A minha tripulação iria seguir de imediato para São Paulo Guarulhos onde nos esperava um Airbus A340 para levarmos para Lisboa. Iríamos todos fardados. Assim foi. Apanhámos um Boeing 737 da falecida VASP e seguimos viagem. O problema surgiu quando respeitosamente fui ao cockpit apresentar cumprimentos aos colegas brasileiros. Já não me deixaram sair. Conversa puxa conversa, mais um cafezinho e outro cafezinho, foi um “samba” como não podia deixar de ser. Quando o avião começou a descer tentei voltar para o meu lugar “para não perturbar o trabalho” mas não me deixaram:
– Nonô, traz mais um cafezinho aqui pró Zé.
A conversa continuava animada mas a partir de determinada altura começo a perceber que o copiloto, que era quem pilotava em modo visual, estava apontado ao taxiway (a amarelo) e não à pista 27R (a vermelho) como devia e estava autorizado. Fiquei numa angústia. Digo? Não digo? Era muito chato o convidado dar palpite mas…
Fui salvo pelo controlador da torre de Guarulhos que deu pelo erro e chamou a atenção do VASP. O copiloto largou um sonoro p… q.. p…..!!! e corrigiu a aproximação.
Depois, à despedida lá me disseram algo como:
– Zé, não fica mal impressionado, isto acontece a todos.
– Compreendo, disse eu. Fiquem descansados. Comigo é boca de siri (calado).
Claro que ao chegar ao nosso avião comecei logo a contar a toda a gente o sucedido para gozação geral. Fui castigado. Meses depois um Airbus A340 da TAP aterrou mesmo no tal taxiway. Juro que não fui eu mas lembrei-me logo daqueles colegas da VASP que seguramente se rebolaram de gozo quando souberam…
Meu caríssimo Comandante, saudações! Eu era comandante de F100 na TAM Linhas Aereas e acabara de pousar na pista 27R que de fato era fácil de confundir-se com a TAXYWAY B. O referido TAP estava, se não falha-me a memória como número 3 na aproximação. Quando desembarquei ouvi o que havia acontecido. Dizem que a torre de controle havia instruído o TAP a “arremeter” e como os irmãos lusos usam o termo “borregar”, o mesmo não “percebeu” e seguiu para um belo pouso na taxyway. Facto é que, deixado de lado esse pequeno infortúnio, todos nos divertimos e aprendemos muito também. Saudações!
P.S ;-Lembro que tivemos que pousar na pista de taxi no aeroporto internacional de Brasilia durante um reparo na pista principal ,alguns pousos foram um pouco duros …
Em 1989, DC-10 da United sofreu a explosão de um motor em pleno ar, com 296 ocupantes, incluindo dezenas de crianças. Danos provocaram uma pane hidráulica total, fazendo com que a aeronave não respondesse a nenhum comando. United Airlines 232: Pilotos realizam ‘pouso impossível’ e salvam dezenas de vidasEra pra ser um voo curto, de rotina e com céu claro. Duas horas após sair do chão, porém, ele se tornou uma das histórias mais dramáticas da aviação comercial, a ponto de os membros da tripulação serem até hoje considerados heróis por seus colegas.
O voo 232 da United Airlines, de 19 de julho de 1989, ficou conhecido como “o pouso impossível”. A maneira encontrada para levar os 296 ocupantes de volta até o solo não estava escrita em nenhum manual da aeronave e não era treinada por nenhum piloto – e não é até hoje, já que os investigadores consideraram a situação complexa demais para ser exigida em simulador.Esse acidente tem início cerca de 18 anos antes da decolagem, em meados de 1971, quando um pedaço de liga de titânio defeituoso foi usado para a fabricação de uma palheta- disco da hélice de um motor -de aviação pela empresa GE. O material é conhecido por sua extrema resistência, mas, no momento em que é fundido, ele não pode ter contato com o ar, sob o risco de ficar enfraquecido e estar sujeito à fadiga.Curiosamente, a GE aprimorou já no ano seguinte o manejo do material. A palheta fabricada, porém, já estava instalada no motor central da aeronave, um McDonnell Douglas DC-10 entregue para a United Airlines.O modelo foi um dos trijatos (aviões de três motores) de fuselagem larga mais bem-sucedidos da história, fazendo voos de passageiros de 1971 até 2014. Os DC-10 fizeram voos de passageiros no Brasil entre os anos 1970 e o início dos anos 1990 —as companhias aéreas Varig e Vasp, já extintas, operaram essa aeronave.O motor 2 ficava montado na cauda, enquanto os motores 1 e 3 ficavam nas asas da aeronave.A FAA, agência que regula a aviação nos EUA, estipulava que a hélice do motor GE deveria ser trocada a cada 18 mil ciclos de pouso e decolagem, uma margem considerada segura para uma peça que, segundo a fabricante, poderia funcionar por mais de 50 mil ciclos.Em sua última manutenção, em 1988, os mecânicos não haviam visto nada de errado, mas investigadores concluíram que o local defeituoso apresentava uma fissura de 1,2 cm na parte interna da palheta, o que determinaria sua troca imediata.
Crianças a bordo
Nada disso era sabido quando o voo 232 decolou de Denver, no Colorado, em direção a Chicago e com destino final à Filadélfia com 285 passageiros e 11 tripulantes. Por causa de uma promoção da United para o dia das crianças, as passagens para menores de idade tinham preços promocionais, muito baixos. Cinquenta e duas crianças estavam a bordo, muitas delas viajando sozinhas.
No comando, estava Alfred Haynes, 57, piloto experiente com mais de 7 mil horas de voo em DC-10. A seu lado estava o copiloto Bill Records, 48, e o engenheiro de voo (profissão hoje praticamente extinta na aviação comercial) Dudley Dvorak, 51.
O voo, curto para a autonomia do DC-10, tinha previsão de cerca de duas horas em tempo aberto, sem ventos fortes e céu azul.
A aeronave atingiu a altitude de cruzeiro e estava a 11 mil metros de altitude cerca de uma hora após sair do solo quando, sem aviso, o disco da hélice do motor 2 explodiu em milhares de pedaços.
Caixas pretas do voo United 232 em 20 de julho de 1989, apresentadas pelo órgão investigador americano, o NTSB
Reuters
Barulho alto e trepidação intensa
Passageiros e tripulantes perceberam na hora um forte barulho alto e uma trepidação intensa que durou cerca de 30 segundos. A um programa de TV, um dos sobreviventes disse ter pensado se tratar de uma bomba. O comandante Haynes precisou aproximar o rosto do painel para ler os instrumentos.
A primeira atitude tomada pelos pilotos foi desligar o motor central, um procedimento normal na aviação, já que toda aeronave deve ser capaz de voar com um motor (ou, no caso do trimotor DC-10, até dois) a menos. A trepidação diminuiu, e o próximo passo era decidir se era possível levar o voo até Chicago ou declarar emergência e pousar em um aeroporto alternativo.
No entanto, logo ficou claro que o problema era bem mais grave do que parecia.
United Airlines 232: Pilotos realizam ‘pouso impossível’ e salvam dezenas de vidas
‘Sangrou até a morte’
Quando o motor 2 foi desligado, o avião inclinou-se para a direita e para baixo. O copiloto Records rapidamente desligou o piloto automático e girou o manche para corrigir a rota, mas nada aconteceu. O comandante Haynes assumiu então o comando, mas a aeronave também não o obedeceu. Pouco depois, o engenheiro de voo confirmou que o equipamento estava com pane hidráulica total.
Mas como? Aviões comerciais de passageiros são projetados com diversos sistemas de redundância, para que, caso um componente sofra algum defeito, outro possa servir de alternativa. O sistema hidráulico do DC-10 tinha tripla redundância. Ou seja, existiam três sistemas independentes, cada um ligado a um dos motores, mas também ligados a todos os componentes hidráulicos da aeronave.
Todas as superfícies de controle – flaps, estabilizadores, elevadores, leme, ailerons etc – funcionam com acionamento hidráulico no DC-10, e podem ser controlados mesmo com a perda de dois sistemas hidráulicos.
Sem os três, no entanto, os pilotos se tornam passageiros, meros espectadores, sem qualquer poder de controlar a direção e a altitude da aeronave. Os engenheiros calcularam a chance de isso acontecer em um DC-10 de 1 em um bilhão.
Acontece que, ao explodir, o motor lançou detritos para todos os lados. A 11 km de altitude e a uma altíssima velocidade, alguns deles atingiram como projéteis os estabilizadores traseiros da aeronave, onde os três sistemas hidráulicos corriam próximos um do outro. Os fluídos vazaram e, em apenas dois minutos, o avião “sangrou até a morte”.
‘Manobra não treinável’
(Após esse acidente, válvulas foram instaladas em todos os DC-10 para impedir que os fluídos de todos os sistemas vazem em caso de rompimento dos tubos. Novas aeronaves também são projetadas de forma a evitar um incidente semelhante.)
Em uma rápida consulta ao manual do DC-10, a tripulação percebeu que não havia nenhuma instrução sobre o que fazer em uma situação do tipo. Depois do acidente, o NTSB, órgão que investiga acidentes nos EUA, desenvolveu um cenário semelhante em simuladores para treinar os pilotos caso isso acontecesse no futuro, mas concluiu que “uma manobra do tipo envolve tantas variáveis desconhecidas que ela não é treinável”.
Um último recurso
Sem comandos, Haynes e Records usaram um último recurso para estabilizar o avião: controlar a potência dos dois motores restantes. Eles aumentaram o empuxo para levantar o nariz da aeronave, para que ele deixasse de apontar para o chão, e aceleraram mais um lado do que o outro, para contrabalançar a tendência de girar à direita.
Pouco depois da estabilização do avião, a tripulação recebeu o que talvez tenha sido a única boa notícia daquele voo. Um dos passageiros, Dennis Fitch, 46, não apenas era piloto da United como era instrutor do modelo DC-10. Ao notar a emergência, ele se colocou à disposição por meio de uma comissária, e Haynes aceitou que ele fosse à cabine de comando para prestar auxílio.
Fitch, um dos heróis do dia, assumiu as manetes de empuxo e, com seu conhecimento do equipamento e as instruções do comandante, manteve a aeronave estável durante o restante do voo.
Trajetória em espiral
Os agora quatro tripulantes sabiam, porém que o pior estava por vir: além de cada segundo do avião no ar ser um risco, o pouso seria inevitavelmente um impacto violento.
Numa situação normal, um avião prestes a aterrissar é colocado em configuração de descida, com o uso de flaps e outras superfícies que aumentam o arrasto e a sustentação a baixa velocidade. Só que voo 232 não teria nenhum desses auxílio, talvez nem mesmo freios. A única forma de controle que havia sobrado era a velocidade e a assimetria de potência dos motores. A esperança era que o reverso dos motores fosse capaz de parar a aeronave.
A tripulação decidiu pousar o mais rápido possível, declarando emergência. A torre de Minneapolis orientou o DC-10 para o aeroporto de Sioux City, no estado de Iowa. As duas pistas foram colocadas à disposição.
Sioux City estava à esquerda, mas seria arriscado demais tentar fazer uma curva para o lado contrário à tendência do avião, de forma que os pilotos giraram à direita, fazendo várias voltas descendentes em espiral.
Houve uma discussão sobre aterrissar de barriga (sem usar os trens de pouso), mas ficou decidido baixar os trens para absorver parte do impacto. Em um voo normal, eles são acionados pelo sistema hidráulico; em caso de emergência, contudo, os mesmos podem baixar e travar somente com a gravidade.
Os pilotos receberam orientações para se alinhar à pista 31 do aeroporto, a maior do aeroporto de Sioux Gateway, mas, com as condições precárias de controle, a aproximação se deu pela pista 22, de apenas 2.099 metros, fechada permanentemente um ano antes. Equipes de resgate posicionadas na 22 tiveram que se deslocar de última hora.
Imagem do relatório final mostra trajetória errática da descida do voo United Airlines 232
NTSB/Reprodução
‘Esquerda, esquerda, esquerda’
A pista se aproximava rapidamente. Um pouso normal de um DC-10 ocorre a cerca de 260 km/h a uma razão de descida de um metro por segundo, mas o voo 232 estava a impressionantes 460 km/h e descendo 9,4 metros a cada segundo.
Se Fitch desacelerasse, porém, eles perderiam sustentação, e a aeronave cairia.
Quarenta e quatro minutos haviam se passaram a explosão do motor 2 e o pouso. Em uma última comunicação com os passageiros, o comandante Haynes havia informado que eles fariam um pouso de emergência e que todos deveriam se preparar para um forte impacto.
Faltavam segundos para o toque com o solo quando um vento cruzado inclinou a aeronave para a direita. Preocupado com uma queda de nariz no chão, Fitch acelerou a aeronave. Uma breve discussão ocorreu na cabine, registrada pela caixa-preta:
Copiloto Records, referindo-se aos motores: “Fecha eles.”
Comandante Haynes: “Vire à esquerda, feche-os.”
Records: “Desligue-os.”
Dennis Fitch: “Não, eu não posso desligar ou vou perder o controle, é isso o que está virando eles.”
(O alarme de proximidade com o solo começa a soar.)
Haynes: “Todo mundo, se segura! Deus!”
Finalmente, um impacto é ouvido, e a gravação é interrompida.
Segundo o relatório de investigação do NTSB, a asa e o motor direitos tocaram o solo antes do trem de pouso. A fuselagem girou à direita e capotou, quebrando-se em cinco grandes pedaços, espalhados por um enorme milharal ao lado do aeroporto. Os passageiros estavam em três grandes seções. Quase todos os ocupantes da primeira classe morreram, assim como a maioria dos que estavam nos assentos do fundo.
Dos 296 ocupantes, 112 morreram (incluindo uma pessoa após mais de 30 dias de internação), 35 dos quais pela inalação de fumaça. Onze dos mortos eram crianças. Outros 47 tiveram ferimentos graves.
No total, foram 184 pessoas que saíram vivas de um voo que tinha chances mínimas de deixar qualquer sobrevivente.
O impacto foi tamanho que a cabine de comando só foi encontrada após 45 minutos de buscas. Hayes, Records, Fitch e Dvorak foram encontrados na seção frontal, junto com quatro comissários. Todos estavam vivos.
Hayes e Records relataram ter desmaiado e têm memórias limitadas do pouso. Fitch, que estava em uma posição mais precária, agachado entre os dois pilotos, permaneceu consciente durante todo o tempo. Ele bateu a cabeça no painel, teve vários ossos quebrados e uma de suas costelas perfurou o pulmão. Quase morreu em sua primeira noite no hospital.
Dos quatro tripulantes, todos gravemente feridos, Fitch foi o que mais tempo demorou a se recuperar, e o último a voltar a voar. Ao fim, porém, os quatro retomaram suas carreiras.
Fitch, que estava no controle das manetes, expressava remorso em entrevistas ao falar sobre as vidas que ele não conseguiu salvar. “Saber que 112 pessoas não conseguiram sair de lá, isso me destruiu”, disse ele certa vez, segundo seu obituário publicado no site americano NPR. O piloto instrutor morreu aos 69 anos, em 2012, devido a um câncer no cérebro.
Assim como Fitch, o comandante Al Haynes também rejeitou o título de herói. Em uma palestra à Nasa, ele atribuiu o sucesso do “pouso impossível” a cinco fatores: sorte, comunicação, preparação, boa execução e cooperação. Ele se aposentou em 1991, depois de quase 40 anos como piloto. Quando falava sobre o episódio, exaltava o papel dos comissários e do chefe do serviço de emergência que realizou o resgate, Gary Brown, de quem se tornou um grande amigo.
“Ele foi o homem mais humilde que conheci na vida”, disse Brown, após a morte de Haynes em 2019, aos 87 anos.
Em um artigo publicado pela Nasa, um piloto de DC-10 disse em tom de brincadeira, ao comentar o voo United 232 e as ações dos pilotos naquele 19 de julho: “A gente até poderia adicionar uma página ao manual sobre o que fazer naquela situação, mas iria dar no mesmo que escrever ‘boa sorte'”.
Mais de 2.500 anos depois de seus ensinamentos atravessarem gerações, Confúcio continua inspirando debates sobre a forma como encaramos a vida. Uma das frases mais conhecidas atribuídas ao filósofo chinês voltou a repercutir recentemente após ser destacada pelo portal espanhol Cuerpomente, que reuniu diferentes interpretações sobre o significado da reflexão: “Temos duas vidas, e a segunda começa quando compreendemos que só temos uma”.
Embora seja curta, a frase carrega uma mudança profunda de perspectiva.Embora seja curta, a frase carrega uma mudança profunda de perspectiva. A ideia central não está relacionada a uma segunda existência literal, mas ao momento em que uma pessoa percebe que o tempo é limitado e, justamente por isso, passa a rever escolhas, prioridades e o sentido da própria trajetória.
‘Segunda vida’ não é um recomeço, mas um despertar Segundo a análise publicada pelo Cuerpomente, Confúcio propõe uma distinção simbólica entre duas formas de viver.
A primeira seria marcada pelo piloto automático: uma rotina conduzida por hábitos, convenções sociais e expectativas construídas ao longo da vida. Muitas vezes, seguimos um caminho determinado pela família, pela educação, pela cultura ou pela busca constante por aprovação, sem parar para refletir se aquelas decisões realmente representam quem somos.
Já a chamada “segunda vida” começaria quando esse ciclo é interrompido por um despertar de consciência. Não significa abandonar tudo ou começar do zero, mas enxergar a própria existência sob uma nova perspectiva, reconhecendo que o tempo não é infinito e que cada escolha passa a ter um peso diferente. A ideia central não está relacionada a uma segunda existência literal, mas ao momento em que uma pessoa percebe que o tempo é limitado e, justamente por isso, passa a rever escolhas, prioridades e o sentido da própria trajetória.
‘Segunda vida’ não é um recomeço, mas um despertar
Segundo a análise publicada pelo Cuerpomente, Confúcio propõe uma distinção simbólica entre duas formas de viver.
A primeira seria marcada pelo piloto automático: uma rotina conduzida por hábitos, convenções sociais e expectativas construídas ao longo da vida. Muitas vezes, seguimos um caminho determinado pela família, pela educação, pela cultura ou pela busca constante por aprovação, sem parar para refletir se aquelas decisões realmente representam quem somos.
Já a chamada “segunda vida” começaria quando esse ciclo é interrompido por um despertar de consciência. Não significa abandonar tudo ou começar do zero, mas enxergar a própria existência sob uma nova perspectiva, reconhecendo que o tempo não é infinito e que cada escolha passa a ter um peso diferente.
História de Buda ajuda a ilustrar essa transformação
Para explicar essa mudança de olhar, o portal espanhol recupera um episódio marcante da trajetória de Siddhartha Gautama, que mais tarde ficaria conhecido como Buda.
Criado dentro de um palácio e protegido de qualquer contato com o sofrimento, ele viveu os primeiros anos acreditando que a realidade era composta apenas por conforto e estabilidade. Essa percepção mudou completamente ao sair pela primeira vez do palácio e encontrar um idoso, um homem doente e um cadáver.
O choque diante da velhice, da doença e da morte transformou sua maneira de enxergar o mundo. A realidade não havia mudado – quem mudou foi o observador. Para o Cuerpomente, esse episódio representa exatamente o tipo de despertar ao qual a frase atribuída a Confúcio faz referência: compreender que a vida é finita pode ser o ponto de partida para vivê-la de maneira mais consciente…
Peso das expectativas também entra na discussão
A publicação amplia essa reflexão ao citar o linguista e filósofo norte-americano Noam Chomsky, conhecido por suas críticas aos mecanismos sociais e econômicos que moldam o comportamento das pessoas.
Segundo o artigo, Chomsky argumenta que muitos indivíduos acabam dedicando décadas a carreiras, estilos de vida e objetivos que nunca escolheram de forma totalmente livre, mas que foram influenciados por pressões sociais, modelos de sucesso e necessidades de aprovação.
Nesse contexto, a percepção da própria finitude funcionaria como um convite para reavaliar decisões tomadas apenas por hábito ou conveniência, abrindo espaço para escolhas mais alinhadas aos próprios valores.
Quem somos além dos rótulos?
Outro ponto destacado pelo Cuerpomente envolve a identidade. O escritor catalão Gaspar Hernández defende que parte do sofrimento humano nasce da tendência de definir quem somos apenas por características externas, como profissão, idade, condição financeira ou reconhecimento social.
Ao abandonar essas classificações como única referência de identidade, seria possível desenvolver uma relação mais autêntica consigo mesmo – um processo que dialoga diretamente com a ideia da “segunda vida” proposta por Confúcio.
Você já ouviu falar do iídiche? Uma língua que entrou em forte declínio na Europa, mas ressurgiu cheia de vida nos bairros de Nova York! Descubra essa história incrível, cheia de reviravoltas, culturas e curiosidades que vão te surpreender…
Era início da tarde do dia 16 de agosto de 2000. O voo VASP 280 estava programado para decolar de Foz do Iguaçu e pousar em Curitiba, uma viagem rápida e tranquila para os 61 passageiros e seis tripulantes da aeronave. Pouco mais de 10 minutos depois de deixar a cidade turística, cinco criminosos deixaram os assentos e anunciaram o sequestro.
Segundo as testemunhas, o crime começou quando um dos sequestradores entrou na cabine de comando do Boeing 737, colocou uma arma na cabeça do piloto e ordenou: “Põe o avião no piloto automático, desligue o transponder e vamos voar visual até Porecatu”.
O homem por trás da arma, segundo as investigações, era Gerson Palermo. O narcotraficante voltou a ser notícia nesta terça-feira (26), ao ser preso na Bolívia após seis anos foragido, graças a uma decisão supostamente comprada no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul.
Em 2000, Palermo também era piloto e, por isso, tinha pleno conhecimento sobre as rotas do Paraná e os equipamentos da aeronave. Conforme as vítimas daquele dia, ele guiou o voo até o pequeno aeroporto de Porecatu utilizando um GPS.
Enquanto isso, os comparsas avisaram aos passageiros que a intenção era apenas roubar os malotes de dinheiro que estavam no porão da aeronave; cerca de R$ 5,4 milhões, na época, pertencentes ao Banco do Brasil.
Quando pousaram na pista do interior do Paraná, foram recebidos por uma caminhonete. O veículo foi abandonado em um canavial e encontrado na manhã seguinte. Já Gerson Palermo acabou sendo preso e condenado a 66 anos e 9 meses de prisão pelo crime. Em março de 2017, Palermo voltou a ser alvo da Polícia Federal como um dos chefes de um esquema de tráfico internacional de drogas descoberto pela Operação All In.
Conforme a investigação, a cocaína enviada pelo bando saía da Bolívia, chegava a Corumbá e, de lá, era levada em caminhões para outros estados. A operação ocorreu em seis estados e apreendeu 810 quilos da droga. Pelos crimes de tráfico e associação para o tráfico, Palermo foi condenado a mais 59 anos de prisão. Ao todo, as penas somam quase 126 anos.
Palermo começou a cumprir a pena em Campo Grande, mas, em abril de 2020, ganhou o benefício da prisão domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica, e, em menos de cinco horas “na rua”, rompeu o equipamento e fugiu.
O benefício foi concedido pelo então desembargador Divoncir Maran, que acabou punido com aposentadoria compulsória diante da soltura suspeita do megatraficante.
Desde então, Palermo era procurado e, recentemente, foi incluído na lista dos principais criminosos do país, o Programa Captura.
Prisão após 6 anos de fuga
Nesta terça-feira (26), ele enfim foi preso nas proximidades de Santa Cruz de La Sierra, em uma cooperação entre a Polícia Federal e a polícia boliviana especializada no combate ao narcotráfico.
Conforme apurado pela reportagem, foi montado um comboio para trazer o chefe do PCC por terra, mas, devido a bloqueios em rodovias causados por protestos, as equipes retornaram para Santa Cruz.
Por isso, um avião da Polícia Federal deverá sair de Brasília com destino a Santa Cruz de La Sierra, onde o brasileiro está detido. De lá, Palermo será expulso para o Brasil.
‘Um dos lugares mais inóspitos da Terra’: a ‘utopia’ verde dos anos 1960 que tentou reinventar o mundo
Por Sofia Quaglia
03/05/2026 14h16 Atualizado há uma hora
Em meio às vastas, remotas e pouco povoadas planícies do leste da Colômbia, uma área de 80 km² de floresta exuberante criada pelo homem floresce.
Ali, há mais de meio século, uma pequena comunidade autossustentável chamada Gaviotas vem desafiando todas as probabilidades, prosperando em um terreno inóspito com a ajuda de uma série de invenções peculiares e futuristas.
As tecnologias pioneiras vão de aquecedores solares de água de baixo custo a uma gangorra infantil que também funciona como bomba d.
Antes consideradas excêntricas e extravagantes, muitas das invenções do vilarejo resistiram ao teste do tempo. Inicialmente desenvolvidas para atender às necessidades muito específicas da comunidade, elas foram reproduzidas com sucesso em outras regiões da Colômbia e além.
Nas instalações da Gaviotas, a aprendizagem acontece através de uma abordagem do tipo “traga seu filho para o trabalho”, com coordenadores de grupo ensinando informalmente às crianças sobre silvicultura, agricultura, energia renovável e biocombustíveis — Foto: Gaviotas
Em meio às vastas, remotas e pouco povoadas planícies do leste da Colômbia, conhecidas como Los Llanos, a cerca de um dia de viagem da capital Bogotá, uma área de 80 km² de floresta exuberante criada pelo homem floresce. Ali, há mais de meio século, uma pequena comunidade autossustentável chamada Gaviotas vem desafiando todas as probabilidades, prosperando em um terreno inóspito com a ajuda de uma série de invenções peculiares e futuristas.
As tecnologias pioneiras vão de aquecedores solares de água de baixo custo a uma gangorra infantil que também funciona como bomba d’água, passando pelo cultivo de florestas comestíveis e biocombustíveis. Algumas foram inspiradas em métodos tradicionais usados por comunidades indígenas locais, enquanto outras surgiram de experimentações engenhosas e incansáveis com os poucos recursos disponíveis.
Antes consideradas excêntricas e extravagantes, muitas das invenções do vilarejo resistiram ao teste do tempo. Inicialmente desenvolvidas para atender às necessidades muito específicas da comunidade, elas foram reproduzidas com sucesso em outras regiões da Colômbia e além. As filosofias surgidas desses experimentos inspiraram projetos semelhantes e mostraram ao mundo uma outra forma de abordar a sustentabilidade.
Ainda assim, o próprio vilarejo, com sua abordagem idiossincrática de viver em um ambiente hostil, permanece quase único.
“Não entendo por que algo tão simples — tão simples que Gaviotas conseguiu realizar em um dos lugares mais difíceis da Terra — não está sendo feito em outros lugares”, diz Paolo Lugari, que fundou a comunidade na década de 1960.
À medida que Gaviotas continua a se adaptar a um mundo em transformação, também levanta questões fundamentais. Como manter uma comunidade sustentável em um mundo que muda tão rapidamente? O que a comunidade — e seu ethos — ganha, e o que perde, ao se transformar?
Crianças de Gaviotas brincando perto de uma das invenções ecológicas — Foto: Gaviotas
Era 1966 quando Paolo Lugari, então um jovem ítalo-colombiano na casa dos 20 anos, vindo de uma família política influente, sobrevoou a região de Los Llanos e foi tomado por uma visão intensa: criar ali um assentamento verdejante e próspero.
Nos anos seguintes à primeira viagem, ele desenvolveu a ideia e reuniu pessoas próximas que ajudariam a construir essa comunidade.
Finalmente, em 1971, Lugari comprou um terreno na província de Vichada, sob a posse de uma fundação sem fins lucrativos, e um grupo heterogêneo de cerca de 20 pessoas fundou um novo assentamento. Eles o chamaram de Gaviotas — “gaivotas”, em espanhol — em homenagem às aves brancas que sobrevoavam o local enquanto erguiam suas novas casas.
Desde o início, eles enfrentaram enormes desafios.
O clima de Los Llanos é notoriamente severo, alternando entre chuvas intensas que inundam a terra e um sol escaldante. Nos anos seguintes à fundação, a região também passou a ser marcada pela violência política, com diferentes grupos armados disputando o controle do território e lucrando com o tráfico de drogas e a produção de coca.
Mas Lugari reuniu pessoas de diferentes partes de sua vida. Viajou até Bogotá para recrutar cientistas e engenheiros e convenceu jovens pesquisadores a desenvolver suas teses criando projetos de sustentabilidade na savana.
Também se aproximou de comunidades indígenas locais, de perfil nômade, e dos llaneros — agricultores da região — oferecendo-lhes trabalho. E, no fim da década de 1970, a comunidade já havia crescido para mais de 200 habitantes autossuficientes, segundo Lugari.
Viver em ‘harmonia’ com o lugar
Uma casa energeticamente eficiente, alimentada por energia solar, projetada e construída pela comunidade de Gaviotas, replicada na região de Guajira, na Colômbia — Foto: Gaviotas
Para construir uma vida nessas condições inóspitas, os habitantes de Gaviotas, incluindo vários engenheiros recém-formados, criaram uma série de soluções ecológicas, de baixo custo e enraizadas no contexto local.
Algumas ideias — como malocas ancestrais e moradias com telhados feitos de espessas folhas de palmeira moriche trançadas, capazes de resistir à chuva e ao sol — vieram das tradições do povo indígena Guahibo, que vivia de forma nômade em Los Llanos muito antes da chegada dos moradores de Gaviotas. Com os Guahibo, os moradores aprenderam a fazer redes e redes de descanso usando as nervuras das folhas de moriche, a extrair um óleo nutritivo do fruto e a fabricar canoas escavando troncos de árvores.
Para gerar eletricidade, os habitantes de Gaviotas passaram a aproveitar o sol escaldante das planícies. Para obter água potável, desenvolveram diferentes tipos de bombas d’água — incluindo uma capaz de alcançar até 40 metros de profundidade, acoplada a uma gangorra infantil para aproveitar o tempo de brincadeira. Turbinas eólicas leves, capazes de captar as rajadas suaves e passageiras dos ventos tropicais característicos das planícies colombianas, foram projetadas por engenheiros locais após 57 tentativas de protótipos e erros.
“Parecia um lugar muito seguro, muito acolhedor. Era como viver em uma comunidade onde há um enorme senso de pertencimento e a sensação de que você conhece todo mundo ao seu redor”, diz Natalia Gutierrez, que nasceu na comunidade em 1996. Sua mãe era professora da comunidade, e seu pai, engenheiro hidráulico. “Eu definitivamente aproveitei para viver minha melhor vida ao ar livre, pegando sapos”, conta.
Bombas de água movidas a energia eólica, projetadas e construídas pela comunidade de Gaviotas — Foto: Gaviotas
Natalia Gutierrez hoje estuda em uma universidade no Canadá e faz um período acadêmico na Itália, mas mantém contato com a comunidade e relembra com carinho o tempo que passou lá: “Era tudo muito perto: da minha casa até o escritório da minha mãe, do escritório até o restaurante comunitário, do restaurante até o rio”, conta Gutierrez, que frequentou uma pequena escola administrada por sua mãe, com cerca de 10 outras crianças.
Ela lembra de estudar o currículo nacional padrão, incluindo Matemática, Biologia e Artes, mas também de ter aulas específicas de Gaviotas, focadas em como plantar árvores e como purificar e engarrafar água. Na fábrica de engarrafamento da comunidade, a água era armazenada em recipientes que se encaixavam perfeitamente uns nos outros — ideais para empilhar, armazenar e até brincar, como se fossem peças improvisadas de “Lego”.
A abordagem desenvolvida em Gaviotas é um exemplo típico do que se conhece como “movimento de tecnologias apropriadas”, segundo Chelsea Schelly, professora de estudos ambientais da University of Wisconsin-Madison, nos EUA.
“Nenhuma tecnologia atende a todas as necessidades em todos os lugares, então devemos desenvolver soluções que sejam adaptadas e responsivas ao contexto local”, afirma Schelly, que estuda comunidades sustentáveis e ecovilas nos Estados Unidos com princípios semelhantes aos de Gaviotas. “Viver em harmonia com o lugar onde você está é provavelmente uma lição que todos podemos aprender — e que pode ser incorporada ao design, independentemente do que você esteja projetando, certo?”
Aquecedores solares projetados em Gaviotas para telhados de um bairro em Bogotá — Foto: Gaviotas
Como em qualquer iniciativa experimental, também houve invenções que nunca deram certo de fato — como uma geladeira movida a energia solar, que os engenheiros não conseguiram fazer funcionar adequadamente, e trituradores de mandioca acionados por pedais, pensados para famílias locais. Segundo membros da comunidade, os moradores de Los Llanos não adotaram os trituradores porque moer mandioca era tradicionalmente uma tarefa feminina, enquanto pedalar era visto como um passatempo masculino.
Mas até os fracassos trouxeram aprendizados valiosos, de acordo com o livro de 1998 sobre Gaviotas, intitulado A Village to Reinvent The World (“Um Vilarejo para Reinventar o Mundo”, em tradução livre), do jornalista Alan Weisman. “Aprendi a levar a sério qualquer ideia apresentada em Gaviotas, por mais improvável que parecesse”, escreve Weisman. “Mesmo aquelas que falhavam frequentemente levavam a algo que funcionava.”
Muitas das invenções de Gaviotas ultrapassaram os limites da comunidade autossustentável. Mais de 5 mil turbinas eólicas tropicais foram instaladas em toda a região de Los Llanos, segundo Paolo Lugari, e cerca de 12 mil de suas bombas d’água especiais foram implementadas em outras áreas da Colômbia.
Milhares de réplicas de um aquecedor solar de água esférico, projetado em Gaviotas e equipado com painéis capazes de captar energia mesmo a partir da luz difusa, foram instaladas em um conjunto habitacional de baixo custo com 5.500 unidades chamado Ciudad Tunal, na frequentemente nublada Bogotá. Outras 30 mil unidades foram distribuídas pelo resto do mundo — da residência do ex-presidente colombiano até países na África, segundo Lugari.
Essa transferência de tecnologia para outros lugares ambientalmente semelhantes, afirma Schelly, pode ser vista como uma das medidas do sucesso de Gaviotas.
Nada do que é produzido em Gaviotas é patenteado, diz Lugari — uma decisão alinhada com muitas ecoaldeias ao redor do mundo que defendem a inovação de código aberto para incentivar a replicação.
“Assim, as pessoas, felizmente, podem nos imitar e nos copiar o quanto quiserem”, afirma Lugari. “E se alguém quiser patentear um de nossos projetos e paralisá-lo, bem, a imaginação de Gaviotas — disso temos certeza — vai trabalhar para fazer mudanças e criar algo novo novamente.”
Combustível de pinheiros e uma floresta comestível
Um morador de Gaviotas planta mudas de pinheiro com uma máquina projetada para minimizar o impacto no solo. — Foto: Gaviotas
Na década de 1980, depois de fracassarem ao tentar cultivar diferentes lavouras, os moradores de Gaviotas começaram a plantar uma variedade de pinheiro caribenho, sugestão que Paolo Lugari recebeu durante uma viagem à Venezuela. Com financiamentos dos governos colombiano e japonês, eles plantaram milhões de mudas, inoculando as raízes com fungos especiais para ajudá-las a se estabelecer no solo pobre e ácido da região. Aos poucos, os pinheiros altos passaram a oferecer sombra e umidade, permitindo o plantio de outras espécies e culturas — algo que antes era praticamente impossível.
Com o tempo, mais de 250 espécies de plantas passaram a crescer nesse solo revitalizado, e dezenas de espécies de mamíferos — como veados, capivaras e antas — voltaram a habitar a área.
Hoje, cerca de 30% dos alimentos consumidos pela comunidade vêm dessa floresta, segundo Lugari. Eles cultivam limões, laranjas, lichias, tamarindo, café, bananas, goiabas e muito mais. “É comestível, e a floresta comestível tem uma vantagem extraordinária, porque as espécies que temos são permanentes, estão aqui o ano todo — comemos as árvores, as plantas, os arbustos”, afirma. “Há um ditado que resume isso: ‘Plante uma vez e colha para sempre’.”
Cientistas e botânicos de Gaviotas também passaram a extrair resina dos pinheiros, fazendo incisões no tronco e processando o material em uma biofábrica movida a vapor. Hoje, a comunidade produz derivados como terebintina — usada como desinfetante e na fabricação de perfumes — e colofónia, utilizada em tintas, vernizes e alguns tipos de maquiagem.
Os moradores utilizam ainda biocombustíveis produzidos a partir do óleo de pinheiro cultivado em Gaviotas, misturado com óleo de palma, para abastecer tratores e motocicletas que circulam pela floresta artificial — e também exportam esse combustível para outras regiões do país. (Pesquisas indicam que o óleo de pinheiro e outros biocombustíveis são alternativas mais limpas do que combustíveis derivados de petróleo, embora ainda gerem emissões.)
‘Reinventando o mundo’
A resina de pinheiro ajuda a criar o biocombustível que Gaviotas exporta — Foto: Gaviotas
“Visitamos muitas comunidades em diversos lugares, mas não encontramos um exemplo tão extraordinário quanto o de Gaviotas”, afirma Gonzalo Bernal Leongomez, que foi administrador da comunidade nas décadas de 1980 e 1990. Depois de sonhar por muitos anos em construir uma comunidade sustentável e ecológica, ele viu uma reportagem sobre Gaviotas na televisão e decidiu imediatamente se mudar para lá com a esposa, Cecilia Parodi, e a filha, em 1978. Eles permaneceram por mais de uma década.
“Era muito dinâmico, muito dinâmico. Lembro de cerca de 150 projetos muito interessantes em Gaviotas, propostos por estudantes, engenheiros e especialistas florestais”, diz Bernal Leongomez. “Mas, claro, a maioria deles era, como costumamos dizer, 1% inspiração e 99% transpiração. É preciso suar, falhar e tentar de novo — é preciso viver o processo.”
Hoje, a comunidade conta com cerca de 50 famílias, e quatro moradores atualmente recebem aposentadoria pelos anos de trabalho dedicados ao vilarejo, segundo Paolo Lugari.
Gaviotas algum dia será replicada?
Uma horta comunitária na capital da Colômbia, Bogotá, plantada utilizando métodos de Gaviotas — Foto: Gaviotas
Centenas de cientistas, artistas, arquitetos e engenheiros passaram pelo vilarejo ao longo das décadas, cada um deixando sua marca. Da mesma forma, pessoas de toda a América Latina e de outras partes do mundo visitaram Gaviotas para aprender a reproduzir suas invenções. No fim da década de 1970, o Banco Mundial financiou o governo colombiano para criar uma comunidade semelhante, chamada Tropicalia, no interior de Los Llanos — mas o orçamento acabou. Outras tentativas, ao longo dos anos, esbarraram em dificuldades logísticas ou sequer saíram do papel.
“Para duplicar esse tipo de iniciativa, é preciso ter uma abordagem. Não basta uma lista de princípios — é necessário saber como atuar no terreno, como trabalhar de fato”, afirma Pliny Fisk III, que não está envolvido diretamente com Gaviotas. Ele é cofundador do Center for Maximum Potential Building Systems, nos Estados Unidos, onde estuda ecovilas e comunidades sustentáveis ao redor do mundo. “Sempre me perguntei: como replicar Gaviotas? É preciso uma técnica.”
Fisk diz ver paralelos entre Gaviotas e outras comunidades sustentáveis, como Auroville, conhecida como a “Cidade do Amanhecer”, e Curitiba. No entanto, para se tornar realmente replicável, Gaviotas precisaria padronizar suas invenções e descrever formalmente suas abordagens e políticas — o que, segundo ele, poderia reduzir a flexibilidade e a capacidade de adaptação às condições locais.
Muita coisa mudou desde os primeiros anos da comunidade, segundo seus moradores.
Hoje, Gaviotas não tem mais escola própria, e as crianças frequentam colégios em vilarejos próximos. Dentro da comunidade, elas aprendem em um modelo semelhante ao de “levar o filho ao trabalho”, conta Paolo Lugari. Além disso, seis coordenadores — que atuam nas áreas de silvicultura, agricultura, energias renováveis e biocombustíveis — também ensinam de forma informal. O hospital de Gaviotas chegou a ser fechado temporariamente após sua inauguração, por dificuldades em atender aos padrões exigidos pelo Estado. Hoje, cerca de metade dos trabalhadores da fábrica vem de comunidades indígenas próximas: eles passam a semana na vila, trabalhando com resina e plantio de árvores, e retornam às suas famílias nos fins de semana.
Natalia Gutierrez, que guarda lembranças afetivas da infância na comunidade, deixou Gaviotas aos nove anos e se mudou para Villavicencio — a cerca de oito horas de carro — para viver com um parente e estudar em uma escola local. Seus pais queriam que ela tivesse uma educação mais ampla e contato com o mundo exterior, na expectativa de que valorizasse ainda mais a vida em Gaviotas depois dessa experiência. Seu pai também se afastou da comunidade por um período, retornando à sua aldeia de origem em outra parte de Los Llanos após o sequestro e assassinato de seu próprio pai. Hoje, ele voltou a Gaviotas, onde a mãe de Natalia ainda vive, 45 anos depois de ter se mudado para lá.
Mesmo assim, diz Natalia, seu coração continua ligado à comunidade. Atualmente, ela faz um MBA com foco em sustentabilidade no Canadá e pretende dividir o futuro entre o país e a Colômbia.
“Como qualquer outra comunidade, não há estagnação. Comunidades mudam e evoluem”, afirma Schelly. “Isso é verdade para todas, mas talvez seja mais evidente em comunidades intencionais, porque elas buscam essa transformação de forma alinhada a valores, e não apenas guiadas pelas forças do mercado.”
Para Gutierrez, o legado de Gaviotas vai além do território físico: “Alguns foram embora, outros ficaram”, diz, sobre amigos de infância. “Mas acredito que os valores de Gaviotas permanecem onde quer que eles estejam.”
“Lugares como este não podem desaparecer”, afirma Teresa Valencia, mãe de Natalia.
Hoje com 81 anos, Lugari já não vive em Gaviotas em tempo integral. Ele mora em Bogotá, onde dirige o escritório da Fundação Gaviotas. Circula pela cidade em um carro movido a combustível derivado de resina, que solta fumaça pelo escapamento. Segundo ele, já há planos definidos para sua sucessão como porta-voz e líder da comunidade, embora não tenha dado detalhes.
Sobre sua lápide, diz que gostaria que trouxesse algo como: “Desculpem por não poder me levantar para cumprimentá-los, mas aqui estou, ainda sonhando em dar vida permanente a Gaviotas”.
* Esta reportagem foi atualizada em 14 de abril de 2026 para corrigir a data de publicação do livro de Alan Weisman sobre Gaviotas.
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