Eça, o “Aviador Maluco”

Eça Taveiros voou na época da aviação romântica e fazia do humor seu estilo de vida

Foto de 1940 mostra Eça (com uniforme da Vasp) e o filho Edvaldo no RJweb-aviação-1-1890-678x381

Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

web-aviação-2-1890Edvaldo Lorenzetti Taveiros lembra com muita alegria do pai e ainda ri muito de suas peripécias. Aos 74 anos, o desenhista aposentado é filho de Eça Taveiros, um dos mais extraordinários pilotos da aviação civil que fez carreira na Vasp. Quando era chamado de “maluco”, Eça lembrava que o adjetivo também era direcionado a Santos Dumont. “Meu pai era muito gozador, mas também muito bom”, garante Edvaldo, hoje morador em São Paulo e que uma ou duas vezes por ano ainda visita Santa Cruz do Rio Pardo para rever parentes e a cidade onde morou com os pais muitos anos.
Eça voou nos tempos românticos da aviação brasileira. Em 1939, já pilotava os chamados “paulistinhas” ou “teco-tecos” nos aeroclubes do interior. No início dos anos 1940, Eça Taveiros era instrutor de voos em Assis e no aeroclube de Santa Cruz, onde foi um dos diretores da Associação Operária Santacruzense. Daí para um curso de aviação comercial e o ingresso na Vasp foi um “pulinho”.
Primeiro santa-cruzense na aviação profissional brasileira, Eça Taveiros pilotou os lendários Douglas DC-3, na Vasp, e os C-46 “Curtiss Commando” na Sadia Transportes Aéreos. Foi na Vasp que ele exercitou seus dons humorísticos, a tal ponto de ser várias vezes advertido pela empresa.
Antes de ingressar na Vasp, o filho Edvaldo lembra que, certa vez, quando jogava bola no campo do antigo “Colégio dos Padres”, ao lado do Santuário Nossa Senhora de Fátima, um avião de pequeno porte deu um voo tão rasante que arrancou folhas dos eucaliptos. “Sabia que era meu pai”, lembra, rindo.
Mas Eça Taveiros fazia o mesmo com os DC-3 da Vasp, aeronave que transportava até 32 passageiros. Passava rente à casa da família e ainda balançava as asas. Os passageiros tremiam, o piloto ria e a família sabia que Eça estava perto.
Edvaldo disse que voou muito na infância com o pai. “Mas ele não me contava estas peripécias. Na verdade, ficava sabendo das artes dele pelos parentes, como o primo Célio Soret”, lembra. Célio, aliás, também fez história como radio-operador da Vasp. “Foi meu pai quem o incentivou a estudar e a ingressar na aviação civil”, disse .
Eça chegou a levar o filho para Santa Catarina na época em que Edvaldo estava no Exército. “Fiquei o dia inteiro de pé na cabine, olhando os pilotos e o horizonte. Meu pai, inclusive, me deixou pegar no manche por alguns minutos”, lembra.
Edvaldo talvez tenha herdado a coragem do pai, pois garante que nunca teve medo de avião. Aos quatro anos, por exemplo, Eça deixou Assis, onde era instrutor, para voltar a Santa Cruz do Rio Pardo com a família. Claro que veio num avião. “E com a mudança toda”, lembra Edvaldo. “Mas teve uma tempestade no meio do caminho, que fazia o avião balançar para todos os lados. Minha mãe e minha irmã choravam desesperadas, mas meu pai ria. E eu, criança, dava risada junto com ele”, afirmou.
Eça sofreu poucos acidentes na carreira, a maioria como passageiro. Certa vez, quebrou o braço na queda de um “teco-teco” na época do aeroclube. “Segundo me contaram, ele teve problemas na aterrisagem e bateu com a roda numa cerca, capotando em seguida”, disse. “Mas não quebrou a cabeça”, brincou Edvaldo.
Em outra ocasião, Eça e o filho eram passageiros de um avião que estava taxiando para decolar, quando a roda afundou num buraco, já que as pistas eram de terra. “Tinha chovido muito e houve um solavanco muito forte, com a asa ficando estatelada no chão. Eu estava de pé no corredor e cheguei a cair. Ninguém se feriu, mas todos desembarcaram. Então, como era moleque, corri pela asa, levando uma bronca dos comissários”, lembrou. O pai, claro, riu.
Mas houve uma vez em que Eça ficou triste. Foi em 1951, quando deveria fazer o voo da Vasp para Rancharia, com escala no aeroporto de Santa Cruz do Rio Pardo. Ele iria trazer no avião a sobrinha Ondina Taveiros. Em Congonhas, porém, um piloto amigo pediu para trocar o voo, já que tinha compromissos no interior, dizendo que traria a sobrinha do companheiro. Eça, então, pilotou outro DC-3 para o Rio de Janeiro. Ondina, a sobrinha, desembarcou em Santa Cruz e o piloto amigo de Eça decolou para Rancharia. O avião caiu minutos depois, matando todos os tripulantes e passageiros.

Piloto da Vasp, Eça Taveiros posa no aeroporto de Congonhas com a sobrinha Ondina, tendo ao fundo um dos clássicos aviões Douglas DC-3web-aviação-3-1890
Bom humor era marca registrada

Eça ficou famoso na aviação brasileira pelas brincadeiras que aprontava. Certa vez, na Vasp, fingiu que o avião não “pegava”, já que os antigos Douglas DC-3 tinham motor a pistão. Os passageiros eram todos “engomadinhos”, com seus ternos brancos impecáveis. Então, o comandante pediu que desembarcassem para ajudar a “empurrar” a aeronave na pista de terra. “Os ternos ficaram marrons de tanta poeira”, lembra o filho Edvaldo.
Eça também gostava de “batizar” novos funcionários da Vasp pregando peças. Para aquelas aeromoças que tremiam nos primeiros voos, Eça fingia que estava passando mal e simulava vômitos com guaraná e bolacha esmagada. Muitas precisavam ser atendidas de verdade.
Uma história das mais saborosas foi uma aterrisagem que Eça fez um pequeno aeroporto no Norte do Brasil. As instalações eram rudimentares e os sanitários, construídos com fossas. O piloto estava no banheiro e escutou dois homens conversando sobre uma arma rara, dizendo que fariam de tudo para conseguir um exemplar. Os dois não perceberam que Eça estava no sanitário, ouvindo todo o diálogo.
Mais tarde, o trio se encontrou no restaurante e Eça fingiu estar irritado, contando que sua arma havia caído na fossa. Disse que era exatamente o modelo que os dois cobiçavam. “Mas paciência. Agora eu a perdi para sempre”, disse, pouco antes de levantar voo. Pois semanas depois ele voltou ao mesmo local e encontrou os sanitários totalmente destruídos. Alguém tinha escavado toda a fossa, talvez procurando alguma arma…
O santa-cruzense Eça fez história na aviação, mais pelo bom humor do que propriamente pelo excelente piloto que sempre foi. Chegou a ser demitido da Vasp pelas inúmeras brincadeiras, mas já tinha emprego garantido na Sadia Transportes. Ele ainda foi piloto de uma empresa contratada pela hidrelétrica de Paulo Afonso na Bahia. Com o avião, fazia inspeção de cabos elétricos, já em 1965.
Antes da década de 1970, Eça foi aconselhado pelo médico a deixar a aviação, já que começou a ter problemas cardíacos. Morreu em 1978, deixando para trás uma história de profissionalismo e muito bom humor na fase romântica da aviação brasileira.

AEROCLUBE — Políticos posam para foto no antigo aeroclube de Santa Cruz do Rio Pardo, na década de 1940web-aviação-4-1890

Família de Taveiros teve nomes ligados à aviação

Célio Soret, primo de Eça Taveiros, além da sobrinha Ondina, escaparam da morte por mudanças do destino

AEROPORTO — Sede do aeroporto de Santa Cruz nos anos 1960, onde ficava a agência da Vasp; pista era de terra

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Sérgio Fleury Moraes
Da Reportagem Local

Eça Taveiros ficou conhecido como o grande aventureiro da aviação civil nas décadas de 1940 a 1960. Mas a família dele, de uma forma ou de outra, sempre foi ligada à aviação. Eça foi instrutor do antigo Aeroclube de Santa Cruz do Rio Pardo no final da década de 1930 e início dos anos 1940, quando Assis Chateubriand lançou a campanha nacional da aviação e doou aeronaves para o interior paulista.
O aeroclube da cidade surgiu em 1937, com a doação de aviões dos empresários Plácido Lorenzetti e Nagib Queiroz, dois milionários santa-cruzenses da época. As aeronaves, destinadas à formação de pilotos, foram batizadas de “Pata Choca” e “Pedro Camarinha”, este último em homenagem ao saudoso advogado e ex-prefeito de Santa Cruz do Rio Pardo.
Mais tarde, a campanha do jornalista Assis Chateaubriand incorporou o avião “Victor Konder” ao aeroclube, batizado em homenagem ao ex-ministro da Viação e Obras Públicas no governo de Washington Luís.
Num precário campo construído no bairro da Estação, o movimento de aviões do aeroclube era frenético, bem como os conhecidos “batismos de óleo” dos pilotos novatos. A instituição era considerada uma das melhores do interior paulista. Formou muitos pilotos, embora poucos prosseguissem na aviação comercial. Em 1942, por exemplo, Sebastiana de Bem se tornou a primeira mulher santa-cruzense a realizar um voo solo no “Pedro Camarinha”.
O aeroclube contagiou tanto a população que uma campanha resultou na construção do aeroporto de Santa Cruz do Rio Pardo nos anos 1950. Foi quando a cidade começou a ter linha aérea da Vasp para São Paulo e Presidente Prudente. Os lendários Douglas DC-3 desciam diariamente na pista de terra batida.

Religiosos dominicanos desembarcam no aeroporto de Santa Cruz do Rio Pardo nos anos 1960, quando a cidade era servida por linhas aéreas regulares da antiga Vaspweb-aviação-6-1890

 

 

A sorte do primo

Eça Taveiros viveu esta época e fazia as escalas de voos para Santa Cruz. Seu primo, o saudoso Célio Soret, foi aeronauta da Vasp por insistência de Eça. Virou rádio-operador, voando nos DC-3 e nos “Scandia” da empresa. E, de forma surpreendente, escapou da morte em duas ocasiões.
Numa delas, estava no plantão da Vasp no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e o titular do voo não apareceu. Soret, então, foi convocado. Vestiu o uniforme, pegou os manuais de voo e entrou na pista a caminho do avião. Foi quando o rádio-operador titular apareceu correndo, esbaforido, justificando seu atraso. O superior de Soret alegou que o voo já era dele, mas o santa-cruzense ficou com pena do amigo — que poderia ter problemas ao justificar o atraso à empresa — e desistiu de substituí-lo.
O Scandia decolou e, minutos depois, chocou-se contra um Cessna e espatifou-se na região de São José dos Campos. Não houve sobreviventes.
Muitos anos depois, já como comissário de bordo, Soret sentiu-se mal pouco antes de embarcar no Boeing com destino a Fortaleza, com escala no Rio de Janeiro. O médico da empresa diagnosticou pressão alta e retirou Soret do voo. A Vasp, então, convocou a comissária Mirian Cocato Lima para substituir o santa-cruzense. O Boeing 727 bateu numa montanha perto de Fortaleza e se desintegrou em milhares de pedaços, num dos maiores acidentes aéreos no Brasil. A tragédia matou 137 pessoas no dia 8 de junho de 1982. Ao saber da notícia, Célio Soret — cujo nome figurou na primeira lista das vítimas do desastre — entrou em choque.

Aviador aprovado nos exames recebe “banho de óleo” no campo de pouso de Santa Cruz do Rio Pardoweb-aviação-8-1890 (1)web-aviação-7-1890

Sobrinha de Eça, Ondina Taveiros escapou de terrível acidente em 1951

Ondina desembarcou e escapou do desastre

Em 1951, quando Eça trocou um voo na última hora e escapou de um terrível desastre, o destino também salvou a sobrinha, Ondina Taveiros, que morreu no ano passado, aos 92 anos de idade. Os dois estavam no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, prestes a embarcar num DC-3 com destino a Presidente Prudente, com escala em Santa Cruz do Rio Pardo. Eça era o piloto e Ondina viajaria como convidada dele, já que morava em Santa Cruz.
Foi, então, que um piloto amigo de Eça pediu para ambos trocarem o voo, já que ele tinha compromissos no interior paulista. Eça só concordou porque o companheiro concordou em levar Ondina até Santa Cruz.
De fato, a professora desembarcou no aeroporto de Santa Cruz na manhã de 18 de maio de 1951 e o avião seguiu viagem. Caiu minutos depois em Rancharia, matando todos os passageiros e tripulantes.
Eça soube mais tarde do acidente e ficou em choque durante vários dias. Foi consolado por Ondina. “Eu disse que não era a hora dele”, lembrou a aposentada no ano passado, em entrevista ao jornal.

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