O DC-3 de JK , No Posto Ipiranga

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Histórico– C-47 B (c/n 25588). Ex USAAF matrícula 43-48327 (09/08/1944). RAF matrícula KJ-804 (14/08/1944). BOAC matrícula cívil G-AGKB (1944), tendo sido adquirido pela VARIG, em 0 2/06/1950 recebendo o prefixo PP-XEM. Ganhou novo prefixo (PP-VBT) em 05/03/1951.

Texto: José Flávio “Marques” Motta

No ano em que completou-se 40 anos da morte do ex-Presidente Juscelino Kubitschek, muitas histórias são apresentadas em diversos meios de comunicação. Livros, revistas, minisséries e reportagens especiais contam a vida deste ilustre brasileiro, que viveu intensamente e pereceu tragicamente. Aqui está mais uma colaboração para este que foi um dos principais personagens da história moderna do Brasil. Quem escreve também acompanhou e participou dos bastidores, a bordo de um DC-3 configurado especialmente para transportar o então Senador JK nos anos 60. Acompanhe o jovem Comissário Marques e seus colegas no dia-a-dia no DC-3 “VIP” da Varig pelos confins do nosso país.

Pelo interior do Rio Grande do Sul

Em meados de 1962 o Sr. Ruben Berta enviou uma ordem expressa para os funcionários da VARIG adaptassem uma aeronave Douglas DC-3 em configuração VIP. O lendário bimotor e seus tripulantes deveriam permanecer à disposição do então Senador goiano Juscelino Kubitschek (JK), durante a campanha pelo “SIM” no plebiscito pelo parlamentarismo/presidencialismo a se registrar em 03 de janeiro de 1963. A vitória do presidencialismo era fundamental para que JK pudesse voltar a presidência em 1965.      O jovem Comissário de Bordo “Marques” foi escalado para atender os especiais passageiros a bordo do Douglas DC-3 “VIP”, prefixo PP-VBT (c/n 25588), e nos conta alguns momentos da história da aviação (e do Brasil), quando voou com o ex-presidente e sua comitiva nas suas peregrinações pelos confins do Brasil entre 1962 e 1963!     Lembro que antes mesmo de JK receber a aeronave para a campanha do “Sim”, os vôos políticos começaram no Rio Grande do Sul, quando a direção da VARIG (na verdade o Sr. Ruben Berta), decidiu colocar uma aeronave Douglas DC-3 a disposição de cada candidato a governador do estado. Assim o Sr. Ildo Meneghetti (UDN), o Sr. Egydio Michaelsen (PTB) e o Sr. Fernando Ferrari (MTR) fizeram o “rush final” das suas campanhas nas asas da companhia gaúcha.      Conforme minhas cadernetas de vôo, fui escalado junto com o Comandante “Braga”, o Co-piloto “Edney” e o Rádio Operador de Vôo (ROV) “Rasquim” para assumir o PP-VBT em um vôo com o candidato Ildo Meneghetti. Decolamos com a comitiva no dia 27/09/1962 de Porto Alegre (POA) com destino a Bagé. No dia seguinte fizemos as “pernas” Bagé – Livramento – Quaraí – Uruguaiana e no dia 29 fomos de Uruguaiana para Passo Fundo com uma escala em Santiago. No dia 30 saímos de Passo Fundo para Ijuí e Carazinho. Já no dia 01/10 decolamos de Carazinho para Santa Maria e na madrugada do dia 02 retornamos para a Capital Gaúcha, sob o comando do Cmte. “Emílio” que assumiu o “Victor-Bravo-Tango” dia 29.      Sem dúvida o Sr. Ruben Berta foi demonstrou ser um homem de muita visão e um administrador de estilo arrojado para sua época, pois qualquer candidato que se sagrasse vitorioso no pleito eleitoral, a maior vencedora seria a VARIG!

Ilustre passageiro

th_ppvbt_rj   O Douglas DC-3 PP-VBT normalmente era configurado com 28 assentos, mas após a decisão do Sr. Berta no dia ele foi totalmente remodelado internamente e no dia 10 de outubro de 1962, iniciávamos o vôo extra 910/21 rumo ao Rio de Janeiro com a seguinte tripulação: Cmte. Peixoto, Co-piloto Belhe, Rádio Operador Miranda e eu. A aeronave originalmente um C-47 de portas de carga, agora era um VIP de configuração totalmente diferente do restante da frota, pois tinha somente 12 poltronas na parte dianteira, uma cabine com a lateral encortinada e quatro poltronas de Constellation, que se transformavam em cama de casal. Por ordem expressa do Sr. Ruben Berta toda a louça do avião era chinesa, os copos de cristal e não podia faltar nada, sempre solicitando ao pessoal da companhia o que fosse necessário para o bem-estar de JK. O presidente raramente bebia e quando não tinha muitos acompanhantes, passava a maior parte do tempo de vôo lendo deitado.      O rack (porta bagagem acima das poltronas) entre a cabine e o banheiro, servia de cabide para as fatiotas (os trajes) de JK, pois só usava terno com suspensórios. No porão interno dianteiro, era a sapataria e, ali estavam mais de 20 pares de calçados, todos de marcas italianas, talvez feitas sob encomenda, pois o presidente tinha um problema no pé direito, fruto de um acidente quando criança. Voávamos para diversas cidades no país, mas os aeroportos que mais recebiam nossas escaladas eram Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Nos vôos, o Sr. Juscelino sempre era acompanhado por políticos e, raramente voava na companhia de Dona Sara e suas filhas. Passei muitos meses servindo ao ex-presidente, e certamente fui o tripulante que mais voou com ele. Mas devido às escalas de trabalho alteradas, passávamos muitos dias longe de nossas casas, sendo necessária a troca de tripulantes.      Um fato interessante ocorrido nestas operações foi no carnaval de 1963 quando JK foi passar na casa de praia do Governador do Espírito Santo, em Guarapari. Levamos o presidente, Dona Sara, suas filhas e sua equipe de segurança, Após o pouso ele nos liberou para passarmos os dias de folia no Rio de Janeiro, se assim quisessemos. No mesmo dia voltamos para o Rio com o PP-VBT vazio, mas como não nos sentimos bem naquele burburinho da Cidade Maravilhosa (isso naqueles tempos !!), acreditem, voltamos para Guarapari, novamente com o “VBT” vazio! Ali passamos o resto do carnaval de 63, quando num desses dias tive uma queda de um cavalo. Como na época não havia médico plantonista no balneário de Guarapari, fui atendido nada mais, nada menos, que o Doutor Juscelino Kubitschek, que prestou os primeiros atendimentos e me encaminhou para Vitória a fim de realizar um raio X.

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A vida do DC-3

A vida operacional do C-47B PP-VBT terminou com pouco mais de 26 anos, quando em meados de 1970 a VARIG vendeu a aeronave sem motores e trens de pouso por CR$8.000,00 para a empresa de móveis Barzenski que logo o transformou no “BarZenski”, na cidade de Garibaldi/RS. A empresa gastou mais CR$5.000,00 no aluguel de quatro carretas para o transporte desmontagem do avião. Desde 1978 a aeronave sofreu diversas alterações na pintura, passando de bar, display de posto de combustíveis, de aviário e atualmente propaganda de danceteria.      Interessante ressaltar que, além das diversas cores aplicadas no PP-VBT as margens da rodovia, quando em operação na VARIG ele utilizou três esquemas de pinturas diferentes. A primeira na década de 50 quando a aeronave tinha a fuselagem em metal polido, faixas escuras nas laterais, sem o títulos da empresa, apenas o logotipo do Ícaro e o nome VARIG pequeno no leme. Posteriormente no final dos anos 50 a empresa gaúcha modificou a pintura para a fuselagem branca, faixa azul até o nariz, o nome da empresa em ambos lados e o Ícaro na cauda (foto). Finalmente após 1964 o Ícaro foi substituído pela clássica rosa-dos-ventos na cauda, pintura que utilizou até o final das operações na pioneira. Infelizmente a aeronave está totalmente descaracterizada externamente, mas ostenta a matrícula original. No posto de combustíveis existente ao lado, as paredes estão ornamentadas com fotos da aeronave em operação na empresa gaúcha.      Um passeio pela serra gaúcha certamente pode se tornar diferenciado quando os detalhes são observados. Neste caso o DC-3 PP-VBT e sua história é um destes detalhes que fazem a diferença, não só por ser uma carcaça de avião ao lado de uma rodovia, mas por ser uma aeronave que fez parte da vida política do Brasil.

O autor

O Comissário José Flávio “Marques” Motta (75) passou parte de sua vida em Bagé/RS, onde em 1958 concluiu o curso de piloto privado no aeroclube da cidade, tendo como instrutor Homero Soares. Ingressou na VARIG em 1959 onde fez o curso de comissario, que ensinava de tudo desde “pintar pães até lustrar maçãs”, brinca o comissário. O seu primeiro vôo em um DC-3 foi realizado na rota Pelotas (PET) – Rio Grande (RGE), tendo como instrutor o Cmro. “Jonas”. No decorrer do tempo o Cmro. “Marques” foi baseado no Rio de Janeiro onde além de voar na glamurosa ponte aérea RJ-SP, fazia os ditos “pinga-pinga” por todo o norte e nordeste, a bordo dos saudosos Convair 340 e Curtiss C-46. Na seqüência passou a voar em rotas internacionais nos elegantes Super Constellation e Sud Caravelle SE-210, diga-se de passagem, “o jato mais confortável e silencioso até os dias de hoje”, na visão do experiente tripulante. Após solicitar seu desligamento da Varig por motivos pessoais, residiu em Dom Pedrito (RS) até 1980 e posteriormente mudou-se para a cidade do Alegrete (RS).

Local: Às margens da Rodovia RS-470 entre as cidades de Garibaldi e Bento Gonçalves/RS (Serra Gaúcha), junto ao Posto/Churrascaria do Avião e da DC-3 Danceteria.

Fonte-AeroEntusiasta

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