Morar fora: onde os fracos não tem vez

O resumo do resumo: nem todo mundo tem condições emocionais de bater asas e voar.

dscn1362É muito bonito, e até fácil, olhar a vida de alguém que resolveu morar fora e concluir: “esse tá bem” ou “essa aí ia se dar bem de qualquer jeito, em qualquer lugar”. Não é bem assim que as coisas são, infelizmente. Quem mora ou já morou fora sabe que o glamour e a beleza estão reservados para poucos momentos e acontecimentos.No geral, é ralação, é perrengue, é falta de grana, é instabilidade no trampo, é concorrência com gente de todo o mundo, é conviver com a ansiedade de ser um estrangeiro e não saber o que vai acontecer amanhã, é apertar o olho e se concentrar para entender o que nos dizem.
Não somos melhores do que ninguém
cimg0138Entenda que nós que optamos por morar fora não somos melhores do que ninguém, mas somos diferentes da maioria das pessoas. Parece que a gente consegue olhar a vida de cima, como num tabuleiro. Temos mais facilidade na resolução de problemas, somos desapegados ao que é material, não damos bola para o carro do ano, nossa vida cabe numa mala. Fomos forçados a aprender a aguentar a porrada, nosso coração criou uma espécie de capa protetora que nos permite viver longe de quem amamos e seguirmos em frente.

Falando até parece fácil, mas imagine que nós não temos um almoço de domingo feito pela nossa mãe há muito tempo e que, geralmente, sentam-se à mesa conosco pessoas que nunca curta-fanpage havíamos visto antes e que nem sempre falam o nosso idioma. É aqui que entra o subtítulo desse texto: “nem todo mundo tem condições emocionais de bater asas e voar”.

Nem todo mundo aguenta
odaiba-tokyo-japan-763Tudo é diferente. TUDO. Desde o vizinho ucraniano que parece que só fala consoantes até comprar um simples pedaço de carne no mercado que não tem o mesmo nome que tinha no Brasil. O sabonete não tem o mesmo cheiro, a chuva tem outro peso, o frio é seco, o calor é diferente. Saímos do nosso ninho, lá de cima da colina, e mergulhamos no vazio.

Parece besteira, mas nem todo mundo está preparado para voar e viver longe do ninho, de sair de casa, de sair debaixo da asa dos que nos amam, de quem nos protege. É duro depender só de você, é difícil (re)aprender a lidar com os seus sentimentos. Não é fácil, mas é possível. Tanto que nós continuamos aqui.

Abrir mão da comodidade para realizar sonhos

st-3Quando resolvemos que o que temos não serve mais, que aquele emprego não satisfaz e que queremos alçar voo, poucas coisas serão capazes de nos fazer desistir. Acredite se quiser, mas para realizar os nossos sonhos (e foi por isso que nós optamos por morar fora), nós precisamos abrir mão de toda a comodidade que tínhamos. Nós não temos o almoço em família, não temos uma festa de aniversário com os amigos de infância, o Natal é dolorido e machuca muito.

São pequenas coisas, aquele encontro na casa da sogra aos domingos, o salário garantido que o emprego ruim lhe dá, a facilidade de conhecer muita gente na sua cidade e, quem sabe, até sair sem carteira e comer fiado por aí. Quando optamos em deixar o nosso país, nos tornamos estranhos automaticamente, não falamos a mesma língua dos outros, somos, na melhor das hipóteses, apenas mais um estrangeiro tentando sobreviver e encontrar um lugarzinho ao sol.

Sobra lugar e falta sol

14681784_10207829337276959_5286766475737296127_nSonhar, sonhar, sonhar e resolver realizar. Sim, não basta apenas ficar sonhando se nunca partirmos para realizar os nossos sonhos. Sonhar é bom (e importante), mas realizar é divino. Para nós que decidimos viver fora, encontrar um lugar é até fácil, difícil mesmo é encontrar o sol. É muita gente boa e você precisa ser melhor ainda, o seu inglês ainda é capenga e não ajuda, o seu francês parece o de uma criança, a grana curta enche a sua cabeça, a entrevista de emprego furada desanima, a vida demora para entrar nos eixos.

Para além disso, ainda temos na nossa retaguarda uma quantidade infinita de pessoas as quais não queremos desapontar. São os nossos pais e irmãos que deram a maior força para que nós viéssemos, são os amigos que lhe encheram de rótulos e lhe acham louco, são os conhecidos que teimam em dizer que o que você fez foi burrice.

Haja preparo

sakura-023Como disse antes, nós que decidimos morar fora não somos melhores do que ninguém, mas somos totalmente diferentes da maioria das pessoas. Somos diferentes porque somos corajosos, porque partimos para realizar os nossos sonhos, porque não temos medo do novo, porque não ficamos esperando que tudo se ajeite sem nada fazer. Não somos acomodados, queremos mais.

Nós que dividimos apartamento com estranhos, que enfrentamos de frente uma língua diferente da nossa, que recebemos em outra moeda, que dirigimos o carro com volante na direita, que nos viramos até dentro de uma garrafa, somos diferentes. Somos diferentes e ponto final.

Porém, saiba que nós não somos de ferro, mas estamos num preparo diário forçado que começa ao abrir os olhos pela manhã e nunca termina. Tivemos que dar um jeito e aprendemos a lidar com a saudade, temos profundo respeito por ela, mas não deixamos que ela dite as regras das nossas vidas. Não nos entregamos. Lutamos de sol a sol para provar, para tudo e para todos, que somos capazes e que o sol ainda vai brilhar sobre a nossa cabeça.

Morar fora é para os fortes

cimg2403Os fracos não tem vez no exterior. Se a saudade lhe pegar, já era. É muita pressão, são muitos medos, são angústias capazes de fazer qualquer cabelo cair, qualquer unha quebrar. Não temos tempo para lamentos, nós recebemos por hora e o aluguel é caro. Precisamos correr e sequer nos damos ao luxo de chorar. São choramingos que umidificam alguns momentos de fraqueza, mas que logo são deixados de lado. Trabalhamos muito e quando dá, nós aproveitamos, mas nem sempre dá.

O nosso mundo, muitas vezes, está resumido na tela do celular e no fone de ouvido que são parceiros de guerra. É ali onde lemos os textos que gostamos, onde mandamos um alô para quem amamos, onde ouvimos as músicas que nos emocionam, onde conseguimos mandar um áudio ou quem sabe ouvir um simples “parabéns” pelo Whatsapp no dia do nosso aniversário. É assim, no trem, na corrida para pegar o busão, na fila do rango, na hora do cigarrinho no intervalo do trabalho, ou na pausa das aulas.

Não tente encontrar explicação

q-073A vida de um estrangeiro não é mole. É corrida, é puxada, é sofrida, é dura…mas compensa. Pare de perder tempo tentando compreender o que nos fez optar pelo desconforto, você jamais vai descobrir enquanto não ultrapassar a fronteira da sua cidade, do seu estado ou do seu país. É nosso, corre nas nossas veias.

Nós que moramos fora ou estamos pensando em morar, encontramos um alento, uma compensação no nosso coração, pelo simples fato de estarmos nos mexendo na tentativa de realizar os nossos sonhos longe de casa. Por termos saído da tranquilidade, do “garantido da vida” e do sossego de morar na casa dos nossos pais, já somos especiais.

No fim, acredito que nós esperamos que a nossa atitude tenha nos dado a oportunidade de conhecer um pouquinho mais do mundo, de fazer novos amigos, de derrubar fronteiras e idiomas, de ter expandido um pouquinho os nossos horizontes.

Não espere ficar pronto

n-105Pode ser que, nem você que ainda está aí e nem nós que já estamos do lado de cá, nunca estejamos totalmente prontos para bater asas e voar alto. Como podemos saber?! Se jogando do ninho, pois nós nunca estamos 100% até que, por vontade própria ou através de um empurrão, sejamos forçados a voar.

Mas uma coisa é certa: só de cogitarmos a possibilidade de o fazer, de termos a coragem de partir em busca da realização dos nossos sonhos, já temos motivos suficientes para nos orgulhar e encontrar forças para continuar.

Nunca desista e faça de tudo para dar o gostinho da vitória para os que torcem por você, porque no final dessa loucura toda da vida, tudo terá valido a pena…kioto-066

 Por Claudio Abdo-Vagas Pelo Mundo

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Uma resposta para Morar fora: onde os fracos não tem vez

  1. CLAUDIA NEVES disse:

    Excelente texto,mesmo a gente passando por perrengues acho que VALE muito a pena! Nada é o que parece. E o que é de fato sempre nos surpreende.Bjs

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