“O Objeteiro “

‘Caçador de objetos’ cria museu com 100 mil peças de todo o mundo
Espaço inaugurado recentemente em Belo Horizonte comporta acervo com cerca de 100 mil peças do mundo inteiro garimpadas por um apaixonado pelas histórias do cotidiano.20160822125728586053u

Tudo aqui tem história, significado e importância – de uma fechadura de estação ferroviária à chuteira da Seleção Brasileira campeã da Copa de 1958, do primeiro celular usado em Belo Horizonte à menor televisão fabricada, acompanhada de lente de aumento, ou da coleção de cinco mil chaveiros a objetos úteis e divertidos, como secador de unhas, cabide de luvas ou galocha para sapato de salto alto. No recém-criado Museu do Cotidiano, no Bairro Funcionários, Região Centro-Sul da capital, o visitante encontra peças do mundo inteiro – para ser quase exato, cerca de 100 mil – garimpadas em ferro-velho, topa-tudo, antiquário, estabelecimentos comerciais e até em lixeiras e caçambas de entulho, em Minas. À frente da iniciativa está Antônio Carlos Figueiredo, guardião apaixonado, observador dos costumes urbanos e, desde a infância, com o olhar clínico para adquirir bens de interesse cultural.

Nos últimos dias, Antônio Carlos tem se dedicado à organização das peças, selecionando o gigantesco acervo por temas, e pretende até o fim do ano terminar o serviço. Por enquanto, ainda prevalece, na maioria do ambiente, a placa pendurada numa vassoura: “Deus abençoe esta bagunça”. O espaço de 600 metros quadrados se tornou “falta de espaço”, segundo Antônio Carlos, ocupante do local há 30 anos. Quem pensa que terminou, precisa esperá-lo contar que dispõe de mais oito locais, compreendendo mais 20 mil objetos, numa empreitada própria, sem receber qualquer ajuda do poder público ou projetos via leis de incentivo. “Mas não vou chegar ao décimo”, avisa com bom humor.

Macacão usado por Ayrton Senna no Grande Prêmio do Japão20160822125741199503o

Economista de formação, nascido “na segunda metade da década de 1940”, natural de Ouro Preto, na Região Central, e residente na capital desde os 5 anos, Antônio Carlos mostra amor paternal pelos objetos e, sem herdeiros, avisa que eles são “seus filhos”. Caminhando pelos estreitos corredores, recorda a primeira peça que entrou para o acervo. “Foi ainda em Ouro Preto, eu tinha de 4 para 5 anos, e, naqueles tempos, as crianças eram amamentadas no peito até essa idade. Um dia, minha mãe me deu o leite numa mamadeira improvisada, feita numa garrafa de guaraná e uma chupeta. Daí em diante não parei mais de me interessar pelos objetos e sua funcionalidade.”

Mais tarde, em BH, o adolescente gostou de uma cadeira de barbeiro. Falou em casa sobre a vontade de levá-la e ouviu a mãe dizer que, para fazer isso, precisaria retirar a cama do quarto e dormir na cadeira. Sem pestanejar, comprou a peça e se acomodou sobre o seu objeto de desejo por muito tempo. O caso curioso é a senha para Antônio Carlos discorrer sobre a evolução do que mostra no museu. “Tenho vários tipos de cadeira de barbeiro e balanças de açougue. As pessoas podem sentir as alterações, os tipos produzidos. Minha luta é contra a obsolescência.” Sempre de olho em estabelecimentos comerciais que cerram as portas e prédios que saem de cena, ele conta que todos os dias faz a ronda para encontrar novidades e raridades. Assim, guarda a placa do Supermercado Aimoré, que funcionava no Mercado Central, e as letras do prédio, além de fotos, placas dos apartamentos e chave de luz do demolido Edifício Lucy, no Sion, onde morou Elke Maravilha, falecida no início da semana passada.

20160822125750379422i20160822125757240226o

Lugar de destaque
A organização do Museu do Cotidiano, ainda com visitas marcadas com antecedência para pequenos grupos, começa pelo fundo do galpão. Antônio se orgulha em mostrar as prateleiras brancas, no total de mil metros lineares, que encontrou num ferro-velho e eram usadas como gôndola de supermercado. Bem distribuídas estão as peças de escritório, troféus sobre o cofre da antiga estação ferroviária de BH, bola de futebol autografada por Pelé, móveis de cartório, relógios, ourivesaria e lapidaria, tesouras de alfaiate e a seção de vícios, com isqueiros de todos os tamanhos e formatos, cachimbos e charutos. Um destaque é o macacão usado pelo piloto supercampeão Ayrton Senna (1960-1994) no Grande Prêmio do Japão, e adquirido da viúva, brasileira, do mecânico da equipe. No mezanino, já podem ser vistos os quadros do pintor Lorenzato (1900-1995).

Pegando um pequeno copo de aperitivo, o dono do museu pergunta e responde: “Sabe por que o guardei? É porque o relevo é do lado de dentro, e não de fora. Assim, também mantive esta placa “Ar condicionado”, simplesmente por estar escrito “Ar condiconado”. As placas também ocupam lugar de destaque, e algumas estão em exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, na Praça da Liberdade. Certo de que é responsável por um tesouro cultural, Antônio Carlos cita uma que gosta muito: “Sapataria. Aqui não fazemo sapato só consertamo. As veiz faz”. Já no Espaço do Conhecimento UFMG, a exposição Processaber, aberta para visitação até 25 de setembro, exibe parte desse inestimável patrimônio.

Artistas plásticos, designers e estudantes, com seus professores, são visitantes contumazes do acervo. “Não quero um museu de antiguidades, mas em constante movimento. Tenho peças de 300 anos e também de dois dias atrás”, revela o guardião. Quando esteve no local, o ex-goleiro da Seleção Brasileira Emerson Leão se emocionou ao ver as tesouras de alfaiete, profissão que seu pai exerceu. Já o francês Pierre Catel, responsável por vários projetos museográficos em Minas, se espantou ao ver acervo de tal dimensão. “Ele disse que tenho objetos para 90 museus”, recorda Antônio Carlos com alegria.

Ao visitar o acervo, o secretário de estado de Cultura e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) Angelo Oswaldo, observou que “Antônio Carlos Figueiredo estabeleceu uma coleção inusitada, que brota do cotidiano de ontem ou do amanhã, ao buscar todo tipo de objeto que referencie a vida que passa. Com isso, criou um formidável acervo histórico, repleto de narrativas, no qual os espectadores encontrarão ou formarão as mais diversas perspectivas de compreensão do cotidiano”.

Gustavo Werneck-Correio Brasiliense

 

Esse post foi publicado em Antiguidades. Bookmark o link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s