Flying German,a Saga de Manfred

Um Moderno Drama Marítimo, Que Parece Ter Saído Das Páginas De Um Livro De Suspense Do Século XIX

Seguramente as coisas mais incríveis acontecem quando você menos espera.

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Aquela manhã de 26 de fevereiro de 2016 deveria ter sido um dia normal de trabalho para Christopher Rivas e seu primo, companheiro de tripulação. Um dia como outro qualquer.

Quando apareceram as primeiras luzes da manhã no horizonte eles trouxeram seu pequeno barco de pesca para o porto de Barobo, na região de Surigao do Sul, no sul das Filipinas. Após vários dias de fortes tempestades eles partiram em meio a um belo dia de mar calmo e algumas horas mais tarde estavam nas suas zonas de pesca habituais, a cerca de 40 milhas da costa.

Tinha tudo para ser um dia rotineiro para aqueles dois pequenos pescadores artesanais asiáticos.

Mas não foi!

Área onde foi encontrado o veleiro do alemão.

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Em algum momento, quatro horas após iniciarem suas atividades, Christopher parou o que estava fazendo naquele momento e deixou seu olhar vagar sobre o mar, calmo e tranquilo como um espelho. Foi então quando o seu dia se transformou em algo muito difícil de esquecer.

No começo ele não tinha certeza do que estava vendo. De longe viu algo que estava imóvel e flutuando na água. Um pedaço de formas incertas, levado pelas correntes e ventos. Christopher e seu primo içaram as redes e, com parcimônia, se aproximaram do estranho objeto.

Surigao del Sur é relativamente perto de uma das principais artérias marítimas comerciais. Uma área que é rota usual de inúmeros cargueiros que partem da China, Coréia do Sul e Japão e seguem em direção a Europa e Estados Unidos. É uma rota naval tão ocupado, que é um fato totalmente normal os pescadores encontrarem materiais boiando nas águas. Muitas vezes encontram apenas lixo e porcaria flutuante, mas às vezes alguns deles encontram um volumoso contêiner abarrotado de mercadorias. Estes caem no mar a partir de navios de carga atingidos por uma forte tempestade e ficam à mercê das ondas.

É fácil imaginar a tensão que aumentou a bordo de pequeno barco de pesca filipino enquanto eles se aproximavam da grande objeto flutuante: ali poderia estar produtos eletrônicos ou componentes de alto valor, que se bem embalados em recipiente vedados, e se a água salgada não tivesse ocasionado muitos danos, Christopher e seu primo poderiam ter tirado um verdadeiro prêmio de loteria.

Mas conforme se aproximavam do objeto a expressão dos dois foi mudando. Ficou claro que aquilo não era um contêiner e nem lixo.

Logo, flutuando a poucos metros de seu barco estava um veleiro semi-submerso, modelo Jeanneau Sun Magic, de 44 pés.

O estranho barco não tinha mastro, sua quilha estava inclinada quase 30 graus, preenchido por um emaranhado de cordas, restos mutilados de velas e perecendo ter sido achatado pelas ondas. Estranhamente os dois painéis se encontravam em perfeito estado, como se toda devastação que atingiu o barco não os tivesse tocado.

Parte do casco estava coberto de algas, crustáceos e moluscos. Uma marcação de linha de água escura e grossa deixava claro que havia muito tempo que aquele veleiro estava na água, mas o nome do barco estava perfeitamente distinto, Sayo, escrito em grandes letras pretas sobre a tinta branca rachada.

Christopher e seu primo cruzaram olhares nervosos e decidiram abordar o barco para descobrir o que se escondia ali dentro.

Dólares, latas de alimentos e fotos

A luz do sol penetrava através das pequenas escotilhas abertas, mesmo assim Christopher levou um tempo para acostumar os olhos à escuridão do interior da cabine.

Por algum local a água do mar havia penetrado na cabine, deixando água suficiente que chegava à altura dos tornozelos, onde flutuavam restos de comida, óleo e vários objetos. Então ele viu no fundo da cabine um homem sentado na mesa de navegação, que parecia estar cochilando sobre o seu braço direito, com o rádio a poucos centímetros de seus dedos.www-dailymail-co-36O relatório detalhado da Estação de Polícia de Barobo permite reconstruir quase passo a passo o que aconteceu.

Como afirmou Christopher em seu depoimento perante as autoridades policiais filipinos, nesse momento uma onda mudou o barco de posição, suficiente para que um raio de luz caísse sobre a cabeça do homem. Foi quando o pescador percebeu que seu dia seria realmente complicado, pois não é todo dia que você se depara com um barco fantasma e ocupado por uma múmia.

Assustados, os dois pescadores decidiram rebocar o iate golpeado para a costa. Conforme seguiam galgando as ondas, mais e mais água entrava na cabina. Quando os primeiros policiais chegaram ao Sayo, a água quase alcançava os joelhos do cadáver dissecado.

www-dailymail-co-42A primeira coisa que se observou foi que todos os valores ainda estavam a bordo, retirando a suspeita que aquele espetáculo dantesco fosse fruto de um ataque pirata, algo nada fora do comum naquela parte do Oceano Pacifico. Havia uma carteira cheia de dólares e euros, grandes estoques de alimentos enlatados e equipamentos de telecomunicações caros.

Flutuando na água estagnada dentro da cabine estavam dezenas de fotos, onde se viam pessoas com rostos sorridentes, cujas imagens se transformavam lentamente em manchas de cores turva pela ação da água do mar.www-dailymail-co-31

Nas imagens estava um homem de meia-idade com um sorriso, ao lado de uma bonita mulher e de uma menina que com o passar dos anos se transformou em uma garota atraente. Havia fotos em alguma cidade da Europa Central, que logo davam lugar a imagens de um sorridente casal nos portos mais inesperados do mundo.

As perguntas estão a começaram a se acumular sobre os policiais.

O que aconteceu com aquele barco?

Como e quando aquele navegador tinha morrido?

E, acima de tudo, como poderia o seu corpo ter ficado preservado, em um último gesto que mostrava uma tentativa de fazer uma chamada de rádio?

Quem ele queria chamar?

E para quê?

Logo as autoridades começaram a ligar os pontos.

O Alemão Solitário

Uma carteira laminada com documentos permitiu dar uma identidade ao misterioso cadáver mumificado e único membro da tripulação.www-dailymail-co-43

www-dailymail-co-30Seu nome era Manfred Fritz Bajorat, um alemão de 59 anos que no final da década de 1990 decidiu trocar a sua ordeira e pacífica vida como vendedor de seguros de uma cidade da região do baixo Ruhr alemão e fugir do frio. Ele vendeu tudo o que tinha e foi explorar os mares do mundo com sua esposa, Claudia, com quem fora casado por mais de trinta anos. Informações apontam que eles tenham terminado o relacionamento em 2008.

Segundo as autoridades constava que Manfred não era visto desde que havia estado no porto de Mallorca, Espanha, em 2009, quando conheceu outro navegador alemão chamado Dieter.

Posteriormente descobriu-se que o Sayo cruzou com outro barco no mar e depois tomaram conhecimento que quando Claudia morreu de câncer em 2010, Manfred a enterrou na ilha caribenha da Martinica.

Um dos documentos recuperados na cabine de Sayo mostrou que em 2013 foi emitida uma permissão ao proprietário deste barco pela polícia marítima em São Vicente, embora ainda não esteja claro se ele foi emitido em Cabo Verde, ou no Brasil, já que ambos os países possuem portos com o mesmo nome.

Mas a partir daí só breves atualizações em suas contas em redes sociais davam algum sinal de vida do navegador solitário alemão. Mas até que de repente, há cerca de um ano, estas também desapareceram completamente e a trilha do velejador solitário ficou perdida

Foi como se o alemão tivesse sido engolido pelas ondas… Até que ele apareceu mumificado nas águas Filipinas.

Enquanto o Sayo, exausto depois de completar a sua última viagem, permanecia amarrado a boias para evitar afundar, um médico legista examinou o corpo do marinheiro. Sua primeira conclusão foi que um ataque cardíaco fulminante matou o alemão e que ele já estava morto há mais de um ano, provavelmente dois.

Uma estranha e curiosa combinação de calor a alta temperatura dentro da pequena cabana, junto com o vento marinho carregado com sal, tinha sido capaz de drenar o corpo de Manfred Bajorat e, sob muitos aspectos, em perfeito estado.

Independente desta questão, para quem viu o barco na costa filipina se impressionou com o contraste entre o corpo incorrupto de Manfred e suas fotos de família. Havia várias fotografias de viagens a França, Luxemburgo, Bélgica e outras regiões. Algumas imagens mostravam Manfred ao lado de amigos, de Claudia, de Nina Bajorat, a filha do casal. Aquilo foi considerado profundamente perturbador.

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Outra situação que chamou a atenção da polícia das Filipinas foi o fato que havia poucos pertences pessoais, além do álbum de fotos.

Enquanto os filipinos buscavam respostas, logo surgiu a notícia que quase um mês antes o estropiado veleiro havia sido visto pela tripulação de outro veleiro e um de seus tripulantes chegou até a cabine do Sayo e encontrou o corpo mumificado de Manfred Bajorat

Visto e Esquecido…

Na manhã de 31 de janeiro de 2016 o veleiro de competição de alto desempenho LMAX Exchange, participava da 7ª etapa da competição Clipper Round the World Yacht Race. Eles estavam percorrendo um trecho entre Airlie Beach, Austrália, até o porto de Da Nang, no Vietnã, quando as 06:24 avistaram um iate com um mastro quebrado, sem tripulação visível e denominado Sayo.

www-dailymail-co-53Foto-O Globo

O capitão do LMAX Exchange, o francês Olivier Cardin, informou a organização da corrida que estava momentaneamente paralisando sua participação para examinar um iate abandonado, que se encontrava à deriva em seu caminho, tendo este barco sido avistado nas coordenadas 11 38N / 137 46E, a 650 milhas náuticas a leste das Filipinas e a 470 milhas náuticas a oeste da Ilha de Guam. Este último local é um território pertencente aos Estados Unidos desde 1898, fica localizado na Micronésia, na extremidade sul das Ilhas Marianas, no oeste do Oceano Pacífico.

O capitão Cardim então apitou a sirene de bordo, mas alma viva deu as caras fora da cabine do Sayo. Ele então ordenou que seu pessoal preparasse um de seus tripulantes para abordar aquele estranho barco e saber o que acontecia dentro.

O barco de competição deu uma volta e, ao passar próximo do iate, o tripulante se jogou ao mar e nadou em direção ao barco aparentemente abandonado. Este tripulante colocou na testa uma pequena câmera a prova d’água, de alta resolução, destinada a filmar o que encontrasse.

Após certa dificuldade para subir a bordo do veleiro, o tripulante doLMAX Exchange começou a investigar o que havia na embarcação e entrou na cabine. Foi quando ele tomou um grande susto ao encontrar o corpo mumificado de Manfred Bajorat.

Neste link é possível ver a filmagem da abordagem e  o susto do tripulante ( http://www.dailymail.co.uk/news/article-3481756/The-moment-mummified-sailor-discovered-Yacht-team-release-footage-crew-member-tragic-German-widow-horrifying-state.html).

Ao saber do achado o capitão Cardim entrou em contato com a base da Guarda Costeira dos Estados Unidos (United States Coast Guard – USCG)  em Guam e informou o achado. Os americanos então transmitiram aos tripulantes do LMAX Exchange que, como eles não poderiam fornecer nenhuma assistência adicional, a equipe deveria continuar na competição enquanto os membros da Guarda Costeira em Guam assumiriam a investigação.

Justin Taylor, Diretor da Corrida Clipper, também notificou a embaixada alemã em Londres, que informou a polícia alemã e a marinha daquele país sobre o ocorrido.

Através dos dados de registro do barco fornecidos pela equipe de competição, a polícia germânica começou a buscar os parentes de Manfred, para descobrir quando ele entrou em contato pela última vez e tentar determinar quando ele morreu.

Só que estranhamente, pelo menos em relação às últimas notícias conseguidas , ninguém foi atrás do veleiro do alemão Manfred Bajorat, ou se foram não encontraram nada, ou talvez não valesse a pena o esforço americano resgatar o cadáver de um navegador solitário alemão.

“Que a sua alma encontre a paz, Manfred”

www-dailymail-co-29É difícil entender como um veleiro de 12 metros pode navegar à deriva por muito tempo sem que ninguém perceba. Talvez a enormidade do Pacífico e a própria natureza solitária em que Manfred estava vivendo ajuda a entender o caso.

Entre todos os documentos existentes no Sayo, o mais significativo encontrado pelos filipinos foi um texto com cerca de 20.000 palavras e dedicado a falecida esposa de Manfred. Ele estava trabalhando neste material quando a morte o surpreendeu no mar.

“Trinta anos estivemos no mesmo caminho. Então, o poder dos demônios foi mais forte do que o desejo de viver. Você me deixou. Que sua alma encontre a paz. O seu Manfred”.

www-dailymail-co-40No Sayo foi encontrada uma placa de bronze aparafusada, onde está gravada uma mensagem, que agora, vista em perspectiva, é arrepiante: “Este barco é um deleite para o capitão, mas um inferno para os marinheiros”.

Sem dúvida que Manfred Bajorat, como capitão e único membro da tripulação do Sayo, conheceu profundamente os extremos dessa sentença.

Dependendo do leitor pode ser muito complicado, ou muito fácil, imaginar o sentimento de perda daquele solitário homem do mar, navegando sem curso, em busca de um consolo de que a enormidade do oceano não poderia lhe dar.Aparentemente por quase dois anos o Sayo e seu capitão fantasma caminharam juntos no Pacífico, em meio a tempestades, áreas de noites calmas e longos dias de verão e inverno. Uma versão moderna do fantasmagórico navio Flying Dutchman….

Texto produzido com base no texto do espanhol Loureiro Manel e publicado em

http://www.elmundo.es/cronica/2016/03/10/56da9b3922601d21408b462e.html.

Fonte-http://www.dailymail.com

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