Rogerio Maconha

A bordo de pequenos aviões, ele contrabandeou jóias, whisky, motores para motos. Caiu 19 vezes na selva amazônica. Prepare-se para conhecer o maior ícone da aviação irregular brasileira
DEPOIMENTO A FERNANDO PAIVA
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“Está gravando? Bom, aprendi a voar lá pelos 20 anos, não lembro muito bem, num curso que tirei no aeroclube de Cachoeira do Sul. Idéia de um amigo de meu pai. Até então, nunca tinha pensado em avião. Porra, naquela idade eu gostava era de sacanagem. Tenho pra mim que comecei a voar por não ter me segurado em lugar nenhum na vida.

“Meu primeiro emprego foi na [companhia aérea] Cruzeiro do Sul, no Rio, como co-piloto num DC-3. Foram quase três anos de vida boa. Aí, meu filho um dia arria minha noiva, Amélia, aqui com a família. Porque eu era noivo lá no Sul, esqueci de dizer. Ela era maravilhosa, mas eu queria desmanchar. Uma noite, expliquei o caso. E ela me entendendo: ‘Rogério, até sei, estás tendo a vida que idealizaste sempre’. Fizeram tanta pressão que, porra, marquei a data. O casamento durou três meses. Os pais dela botaram três advogados em cima e fui obrigado a dar 50% dos meus vencimentos. Isso foi em 1953.

“Comprei um bimotor e passei a levar lagosta para Miami. O avião era para 600 quilos. Mas eu botava uma tonelada”

“Aí pedi demissão da Cruzeiro e também uma passagem para Boa Vista, Roraima. De lá fui para a Venezuela e, depois, puxar carga em Trinidad e Tobago [arquipélago em frente à Venezuela, no Mar do Caribe], com ótimo salário e o direito de transportar 200 quilos do que quisesse. Aí, porra, comecei a ganhar grana. Em Trinidad, conheci um dono de hotel que tinha negócio com pescado. Comprei um bimotor Beechcraft e passei a levar lagosta para Miami. O avião era para 600 quilos, eu botava uma tonelada. Um dia, trocamos as lagostas por whisky, que era mais negócio e não apodrecia. Foi muita grana!”

Galões de rum
“Em Tobago, comecei também a ficar conhecido pelas aeromoças que vinham da Europa e de Nova York. Fazíamos luau numa caverna que tinha lá. As aeromoças traziam eletrola, cobertores de bordo, tira-gosto, lampião, música. E eu levava uns galões de rum, o melhor do mundo, que é o Fernandez Vat 19, produzido em Trinidad. Uma vez deu pane num avião cheio de turistas que queriam conhecer Tobago e aí me pediram para levá-los no meu aviãozinho. Um dia leva ali, outro dia acolá, isso me deu abertura para poder fazer táxi aéreo entre as ilhas. Então, informalmente criei esse tipo de transporte na região.
“Mas não é que um dia deu saudade do Brasil? Então vendi meu Beech e comprei outro no Rio. Aqui encontrei um amigo meu, contrabandista. Quer dizer, piloto. É que contrabandista é pejorativo. Nosso negócio era levar e trazer sem a alfândega saber. Mas zero entorpecente, porra. Nunca houve. Meu estilo é liberdade total, sem preocupação, entende? A maior riqueza do homem é a cabeça gelada. Meu amigo: ‘Olha, lá em Caracas estão comprando jóias’. E lá fomos nós.”

Senhora do Presidente
“Pegamos uma italiana, linda, e enfeitamos a gringa de brilhantes. Chegando lá, um tenente da Força Aérea Venezuelana, amigo meu, me apresentou a um judeu, que comprou tudo. Quer dizer, guardei umas semipreciosas comigo, né? Então teve um coquetel no Palácio do Governo, em Caracas. E lá fui eu. Lá pelas tantas, disse para a senhora do Presidente, uma gorda feia: ‘Trouxe uma lembrança’. A mulher quase desmaiou com a jóia que dei. Rapaz, abri a Venezuela para mim.

“Dinheiro no bolso, voltei a Boa Vista, onde não havia pão porque o trigo chegava de balsa e não havia balsa no verão. Aí fui falar com o governador: ‘Excelência, posso trazer pão, entende, a preço simbólico’. A troca era ele me dar uma licença de pouso sem o Rio de Janeiro saber. Passei, assim, a distribuir farinha para o pessoal. Uma noite, acordei com umas metralhadoras na minha cara. O governador queria falar comigo. ‘Comandante, o problema é que, depois que você chegou aqui, Boa Vista ficou cheia de motoca!’ Na realidade, era esse meu lucro, uns motores para bicicleta que eu levava no porão do avião. O trigo era só disfarce. Aí, porra, prenderam meu avião. Passei uns 40 dias planejando minha fuga. Um dia, estava a cidade toda entretida com a chegada de um avião da Cruzeiro e outro da FAB. Aproveitei, peguei meu avião, decolei atravessado! Arranquei uma cerca, puxei o manche e – bleft! – arranquei a cumeeira do Palácio do Governo.

“Puxa, como tenho saudade dessa época! Mas, bom, fui para a Guiana Francesa e de lá para os Estados Unidos. Em princípio de 1955, voltei para o Brasil. Quando cheguei em Belém, uns pilotos me viram num bar. ‘Pô, Maconha, onde é que tu anda?’ Disse que estava indo para o Rio descansar, mas eles insistiram que eu ficasse trabalhando com eles puxando carga de Goiás. Aí, rapaz, fiquei sete anos fazendo isso. Tive acidente, um ano no hospital. Mas deixa pra lá. Acidente não vou contar, não. Prefiro lembrar só da vida mansa que tive.”

Via revistatrip.uol.com.br

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