Refeições a bordo: veja como era a vida dos passageiros antes do amendoim

Pessoas de todo o mundo têm manifestado opiniões bastante divertidas sobre as piores comidas de avião com as quais já cruzaram em suas viagens. Mesmo assim, entendiados com a falta do que fazer no avião, a maioria de nós não consegue resistir àquele pequeno agrado das companhias aéreas – ainda mais quando é dado sem nenhum custo adicional, algo que está se tornando cada vez mais raro ultimamente.

A história de “comer nas alturas” começou lá atrás, em 1919, quando a companhia Handley Page Transport aproveitou um voo entre Londres e Paris para oferecer aos passageiros uma seleção de sanduíches e frutas embaladas em uma caixa descartável. No entanto, Bob van der Linden, atual presidente da Smithsonian National Air and Space Museum, contou ao Marketplace que, naquela época, os viajantes estavam menos preocupados com a comida e mais se iriam chegar ao seu destino vivos e bem.

“Isso porque a indústria aérea realmente decolou, sem trocadilhos, nos anos 1930. Antes, os aviões eram pequenos, desconfortáveis e pareciam meio assustadores quando você voava neles. Desta forma, era comum sentir-se enjoado e as pessoas realmente não ficavam muito ansiosas para comer”, explicou.

Cozinha a bordo
A boa notícia foi que a indústria evoluiu e, nos anos 1950, a Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA) regulamentou o setor, fazendo com que os serviços durante o voo acabassem sendo uma maneira de uma companhia aérea se distinguir das concorrentes. Desde então, servir refeições quentes com talheres de prata tornou-se comum na era de ouro das viagens aéreas.

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Comissária de bordo trabalha na cozinha de um voo da Pan Am

Este sentimento de glamour da época foi resumido muito bem em um vídeo promocional feito em 1958 pela Pan American World Airways (Pan Am), que destaca: “Uma comida deliciosa completa a diversão. Elas são preparadas em quatro galerias que funcionam de forma simultânea, em que os pratos são aquecidos em torno de cinco minutos”.

Companhias brasileiras, como a Transbrasil e a Vasp, também ofereceram serviços de bordo que ficaram na memória dos brasileiros. A Transbrasil, por exemplo, chegou a servir feijoada a bordo nas décadas de 80 e 90.

Na Vasp, mesmo os voos da ponte aérea Rio-São Paulo contavam com canapés de entrada, refeição quente e diversas opções de bebida, como uísque, vinho e cerveja. O carrinho, que hoje inexiste em alguns voos, passava pelo menos duas vezes pelos corredores para os clientes se servirem.

Baixando a bola
Apesar de tanta riqueza, a conta já não fechava. No início da década de 1950, havia uma crescente demanda por mobilidade, mas voar ainda era caro. Como as aeronaves também foram ficando cada vez maiores, diversas empresas decidiram tornar a atividade mais acessível. Para isso, introduziram uma nova, e simples, classe de serviço – a turística – com passagens que custavam até 30% menos em relação as tarifas existentes.

Chá, café, chicletes e doces eram gratuitos, mas os passageiros precisavam pagar por suas próprias refeições. Algumas era disponibilizadas no próprio avião, ao custo de uma taxa. Seus conteúdos variaram de ovos a tomates recheados com presunto e espargos, ou carnes frias, uma salada italiana, pão e frutas. A bagagem era transportada gratuitamente até 20kg, em vez dos 30kg da outra classe. A ideia acabou sendo um sucesso, o que fez com que a demanda aumentasse cada vez mais.

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Classe turística da KLM

A classe econômica teve sua origem na mesma ideia: atrair novos grupos de passageiros com tarifas mais baixas. Desta vez, a introdução da nova classe coincidiu com a chegada de aviões que ofereciam maior capacidade e voavam mais rápido, permitindo que mais viagens fossem operadas. No entanto, essa nova forma de apresentação trouxe alguns problemas para as empresas, sendo chamada de “crianças problema promissora” em um boletim da companhia aérea KLM datado de 27 de março de 1958.

“Promissor” porque a indústria antecipou uma enxurrada de novos passageiros; e “criança problema” porque a nova classe teve que atender a todos os tipos de normas e regulamentos. Tudo isso tornou a vida mais difícil para as companhias aéreas. Afinal, como manter a qualidade dos serviços e atender aos requisitos da Associação Internacional de Transportes Aéreos?

“Sanduíche simples”

Com medo de que a concorrência desenfreada entre as transportadoras colocasse em risco a segurança e a qualidade dos serviços para os viajantes, a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) regulou fortemente a indústria, padronizando as empresas. Vender mercadorias era proibido na classe econômica, incluindo jornais e revistas, bem como cigarros e bebidas alcoólicas.

Havia também o problema de espaço, pois não existiam armários a bordo, o que significava que casacos e chapéus precisavam ser colocados nas prateleiras de bagagem. Foi aí que a bagagem de mão precisou ser limitada, regularizando as dimensões máximas permitidas. Com isso, as companhias aéreas também foram obrigadas – pela primeira vez – a limitar as suas ofertas de alimentos na classe econômica.

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Aceita uma copinho d’água, senhor?

Saíram os pratos suntuosos para entrar um menu padronizado com opções de café, chá, água mineral e sanduíches “simples, frios e baratos”. Parece muito simples à primeira vista, mas as empresas tiveram diferentes interpretações da palavra sanduíche, o que causou uma pequena “guerra fria” internacional em 1958.
Se você voasse pela Trans World Airways e Pan Am, ganhava o tradicional lanche estilo norte-americano, com salada de ovo, carne assada, ou presunto e queijo com duas fatias grossas de pão.

Mas se a viagem fosse por empresas como a Scandinavian Air Systems, SWISS, KLM Royal Dutch Airlines e Air France, dava para descolar sanduíches mais exóticos, com recheio de língua de boi, por exemplo. Essas empresas, inclusive, chegaram a ser acusadas de servirem refeições fora das diretrizes seguidas naquela época.

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Corta daqui, corta dali
Com as novas demandas, as empresas começaram a perceber que cada pedacinho do orçamento cortado valia a pena. Uma das maiores companhias aéreas de baixo custo do mundo, a América Southwest Airlines fez história ao se tornar a primeira a servir apenas amendoim e eliminar ofertas de cereais em voo para os seus passageiros.

No Brasil, a Gol havia parado de oferecer barrinhas de cereal ou saquinhos de amendoim como cortesia para os passageiros em praticamente todas as rotas nacionais, deixando apenas a opção de cardápio pago, o que desagradou a parte de seus clientes. No meio do ano passado a empresa voltou atrás, e passou a dar um snack integral feito com ingredientes orgânicos. No final de 2013, a TAM – hoje Latam – deixou de servir algum tipo de comida aos passageiros em seus voos domésticos mais curtos.

Em 1987, Robert Crandall, diretor executivo da American Airlines, supostamente cortou as despesas anuais da transportadora em US$ 40 mil (algo em torno de R$ 155 mil) após remover uma azeitona de cada salada servida na primeira classe. Já a Delta Airlines certa vez teria calculado que poderia economizar cerca de US$ 210 mil (R$ 818 mil) por ano ao remover um único morango de uma salada servida na primeira classe, enquanto a Continental, United, American Airlines e US Airways teriam economizado cerca de US$ 2,5 milhões (R$ 9,7 milhões) por ano após a remoção de amendoim e outros snacks gratuitos de seus vôos até 2011.

Fonte: Bol.com.br

Na Vasp, mesmo os voos da ponte aérea Rio-São Paulo contavam com canapés de entrada, refeição quente e diversas opções de bebida, como uísque, vinho e cerveja. O carrinho, que hoje inexiste em alguns voos, passava pelo menos duas vezes pelos corredores para os clientes se servirem.1511-URB-0701 (3)

“Às vezes a bebida alcoólica era até um problema, porque não podíamos falar ‘não’ a um passageiro e alguns deles se excediam”, diz a ex-comissária da Vasp Marlene Ruza, conhecida como “Isa”, atual diretora do Sindicato Nacional dos Aeronautas.Outra grande preocupação das empresas era com a apresentação dos comissários e comissárias. Seus uniformes seguiam as últimas tendências de moda, e acessórios como luvas, chapéus e echarpes faziam parte do figurino. O estilista Clodovil (1937-2009) foi responsável pelo uniforme dos tripulantes da Vasp por dez anos, a partir de 1963.

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