PROJETO EMOÇÕES NA VASP

10308085_817776608348544_1742525160249853052_nRoberto Carlos adere às turnês por grandes espaços e, com romantismo e majestade, leva seu melhor show para 600.000 pessoas.

A história lembra a de um outro rei, um rei de verdade, coroado mesmo – o próprio dom Pedro II, que sempre que deixava a corte para visitar uma cidade na província era recebido com ruas enfeitadas, arcos triunfais e chuvas de pétalas de rosas. Nos últimos quarenta dias, em dezenove cidades do país, homenagens semelhantes se repetiram, sempre com a mobilização de enormes massas populares, para aclamar o atual rei da canção – Robeto Carlos. Por onde ele passava, ele e seu real séquito de 105 pessoas, formavam-se multidões entusiasmadas – nos aeroportos onde desembarcava no avião especialmente fretado para a ocasião, à porta dos hotéis onde se hospedava, nos ginásios ou estádios onde se exibia. O sucesso foi absoluto. No domingo, 19, ao encerrar em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, uma turnê que incluiu cidades tão diferentes como Itabuna, no interior da Bahia, Brasília, Uberlândia, em Minas Gerais, e Recife, Roberto Carlos havia registrado uma nova marca respeitável em sua carreira de 22 anos e 25 milhões de discos vendidos: um total de 600.000 pessoas presentes ao show, que mostrou nas cidades onde esteve, Emoções.

Foi a primeira vez que Roberto trocou os palcos das casas noturnas do Rio de Janeiro e de São Paulo pelos estádios e ginásios do Brasil do Nordeste, do Leste e do Centro. E, como acontece sempre, o rei começou de forma arrasadora: conseguiu, logo na sua estréia na era das grandes excursões que começa a fazer moda entre os maiores astros da música popular, bater o recorde da mobilização de tanto público em tão pouco tempo. Com as 600.000 pessoas que atraiu para o seu show, em quarenta dias, Roberto bateu até mesmo a roqueira Rita Lee, que, no último verão, levara 500.000 pessoas a seu show em noventa dias. “Realizei um sonho”, exultava Roberto, na semana passada, refletindo sobre o saldo da excursão. “Levei minhas emoções a milhares de pessoas.”

Batizado de Projeto Emoções, e responsável pela montagem, agora em novos ambientes, do mesmo show que já fora exibido no Canecão carioca e no Palace de São Paulo, a turnê de Roberto Carlos não se notabilizou apenas pelos grandes números. Houve ainda momentos extras de emoções prometida no título do espetáculo – como o ocorrido no domingos, dia 12. Naquela noite, quem se apresentou no palco do estádio Sumaré, em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, não foi apenas o rei Roberto Carlos, mas o mais célebre e festejado filho da cidade. E 26.000 pessoas, nada menos que 20% da população de Cachoeiro, acotovelaram-se nas arquibancadas e até no morros que circundam o estádio para saudá-lo com chuvas de flores e imensos coros de “Roberto é nosso rei”. O cantor, na verdade, nem estivera fora de sua cidade natal por tanto tempo – ele costuma se apresentar ali a cada dois anos. Desta vez, porém, foi diferente – tanto pela qualidade do espetáculo apresentado, como pela excitação de se estar assistindo a uma apresentação que, sabia-se, antes já levara centenas de milhares de pessoas aos delírio.

CONVIDADOS ESPECIAIS

Para conseguir esse sucesso gigantesco, Roberto Carlos fez da turnê um empreendimento também gigantesco. Em outro recorde entre os artistas que se apresentam em grandes espaços, cantou em nada menos de quatorze estádios de futebol, contra apenas quatro ginásios. E para que sequer um fio estivesse fora do lugar durante o show, foram contratadas não apenas uma, mas duas equipes técnicas de som e luz, que manejavam dois conjuntos de aparelhagens. Assim, alternando-se para cada show, as equipes dispunham de vários dias para montar o equipamento calmamente em cada local.

E para que as viagens entre as cidades pudessem ser realizadas a qualquer hora e com todo o conforto, Roberto inovou com o brinquedo mais querido que arranjou nos últimos tempos: um Boeing 737, arrendado da Vasp. Por fora, o avião foi pintado com o nome do artista e o logotipo da excursão. Por dentro a primeira classe foi adaptada com mesas de trabalho desdobráveis e cadeiras mais confortáveis. Ali, Roberto brindava convidados muito especiais como sua mãe, Laura, sua mulher, a atriz Myrian Rios, e seus filhos Roberto Carlos II, Ana Paula e Luciana. “O avião foi um fator de integração entre os músicos e entre toda a equipe”, explica Roberto. “Ele ajudou a formar uma família.”

A própria Rita Lee reconhece a supremacia do rei: “Roberto Carlos é um boeing no país dos teco-tecos”, comenta, diante da estrutura montada para o Projeto Emoções. Com equipes de som e luz, avião e tudo, a turnê significou também o maior investimento já feito em música no Brasil. Só para ter o avião permanentemente à sua disposição Roberto Carlos gastou 350 milhões de cruzeiros. Mas houve também compensações. O preço do aluguel do avião foi em parte abatido em função de um contrato de publicidade que permitiu a Vasp exibir sua marca nos cenários do show e em todo o material promocional. Em troca do mesmo direito, a Caderneta de Poupança Haspa cedeu à produção 250 milhões de cruzeiros, que serviram para promover o show em cada cidade. No mais, Roberto Carlos, ao empreender seu Projeto Emoções, não apenas se filia à tendência dos grande nomes da música brasileira em se apresentar em grandes espaços, mas confirma que a geografia desses shows também se transforma com rapidez.

Hoje, grandes shows são levados a cidades médias que jamais sonhariam, há dez anos, em receber os artistas mais importantes do país. É o caso de Itabuna ou de Feira de Santana, na Bahia, Uberaba ou Campo Grande. Seguindo esse roteiro do interior, o artista está descobrindo um novo mapa da mina: locais onde sua apresentação não apenas terá sucesso como se transformará num evento inesquecível para a população. E, mais importante ainda, um mapa da mina permanentemente renovável: no outro ano, basta substituir aquelas cidades por outras, uma vez que nunca faltarão locais do mesmo porte para se apresentar. É o que faz também Caetano Veloso, ao incluir cidades como Americana, em São Paulo, em seu roteiro anual. E é o que Roberto Carlos fará novamente em janeiro de 1984: nessa época, ele estará inauguranto o Projeto Emoções II, que levará o mesmo show, com pequenas modificações no repertório, para os Estados do Sudeste e Sul do país.

AR TRISTONHO

Acima de qualquer estratégia ou investimento, porém, o sucesso do Projeto Emoções se deve a um dos melhores shows de música popular a que o país já assistiu, e certamente o melhor da carreira de Roberto. “Tenho que me controlar em vários momentos para não chorar em cena”, ele revela. É fácil entender por quê: entre canções de seu último LP, como a divertida Meus Amores da Televisão – um country com sotaque brasileiro -, Roberto Carlos interpreta também seus eternos sucessos românticos, como Café da Manhã, Outra Vez, Força Estranha e Detalhes. “Cada vez mais eu tenho certeza de que vou cantar essa música por toda a minha vida”, diz ele na introdução de Detalhes, provavelmente sua melhor composição até hoje, e o público delira com os primeiros acordes da canção. Ao final, um pout-pourri de suas músicas mais antigas, desde a época da Jovem Guarda, pontilha um texto onde faz uma restrospectiva, em tom confessional, de sua carreira e de sua vida. “O importante é que emoções eu vivi”, exclama na última frase do show – e fornece a chave para se entender tanto o título como o sucesso do espetáculo.

Emoções é tão bom porque apresenta uma colagem dos momentos brilhantes de Roberto Carlos. E interpretados por um cantor cada vez melhor, que se permite até momentos de ousadia: em Força Estranha e em Detalhes, por exemplo, modular a voz de maneira diferente das gravações, arrancando novas nuanças da melodia. Aos 42 anos, Roberto conserva o mesmo ar tristonho que o celebrizou e ainda cultiva certos ares de mistério. Em todos os seus shows, por exemplo, fala sozinho enquanto se curva para agradecer os aplausos, deixando intrigado o público mais próximo do palco. “Falo para desabafar”, e explica: “Às vezes agradeço a Deus, às vezes converso com o chão e comento como ele está branquinho.”

PRIMEIRO VIOLÃO

Na noite do show em Cachoeiro de Itapemirim, a surpresa ficou com seus amigos e parentes da cidade: Roberto Carlos, que trocou a cidade pelo Rio de Janeiro aos 17 anos, mal teve tempo, no dia do espetáculo, para cumprimentá-los. Na hora exata do show, sua limusine o desembarcou atrás do palco e, enquanto a orquestra ainda executava os últimos acordes, Roberto já estava voltando ao hotel de Vitória onde se hospedava. Assim, deixou de receber, por exemplo, o diploma de “Estudante Ausente do Ano” que a Casa do Estudante da cidade, local onde cantou em público pela primeira vez, tencionava lhe entregar. No dia seguinte, porém, voltou a Cachoeiro, de surpresa, e aí sim teve tempo de visitar, por exemplo, um dos dois monumentos em sua homenagem existentes na cidade. Também pode encontrar-se com velhos amigos como José Nogueira, 54 anos, que lhe presenteou com o primeiro violão e lhe deu o primeiro emprego como crooner, em seu grupo, quando Roberto tinha apenas 12 anos. E visitou também a casa onde nasceu, no número 13 da Rua João de Deus Madureira, que a Prefeitura tenciona transformar em museu assim que conseguir comprá-la de seu atual proprietário.

Ao embarcar no circuito das grandes turnês, Roberto Carlos imprime uma importante mudança em sua carreira. Pela primeira vez, ele aparece em pessoa para multidões que o elegeram rei apenas por seus discos, não por sua presença física. Ocorre que Roberto, assim como Simone, por exemplo, é um artista muito melhor e mais contagiante em espetáculos ao vivo que em disco. Há pelo menos dez anos, os LPs de Roberto contem quatro ou cinco canções brilhantes e outras tantas que caem no esquecimento porque são apenas banais. Num show como Emoções, porém, ele mostra um painel exclusivo de seus melhores momentos. E assim, por um preço em geral menor que o de um LP, pode-se assistir apenas ao Roberto que se quer lembrar e festejar – aquele que a multidão, como se tratasse realmente da estrela de uma comitiva real, recebe com palmas e flores.

O DIA EM QUE ROBERTO PASSOU POR AQUI

Talvez o presidente da República e Pelé possam realizar proeza semelhante – mas a lista se esgota aí. Nenhum outro brasileiro consegue, como Roberto Carlos, com sua simples presença, não apenas empolgar – mas alterar a rotina de uma cidade. Em cada uma das que visitou durante sua turnê, aeroportos eram invadidos por comissões de recepção, multidões se acotovelavam nas portas de hotéis que o hospedavam e o trânsito parava para dar passagem à caravana real. Em Uberlândia, por exemplo, onde uma caravana de cinqüenta jovens motociclistas lhe deu as boas-vindas no aeroporto, diversas transversais da movimentada Avenida Afonso Pena foram interditadas para que Roberto chegasse sem transtornos ao estádio Parque do Sabiá, criando um enorme engarrafamento logo transformado em festa à passagem da limusine que o conduzia.

Em todos os aeroportos, de Brasília a Ilhéus, nunca menos de 1.000 pessoas se mobilizavam à espera do Boeing de Roberto. E, em Vitória, onde a chegada foi anunciada, por engano, para as 3 horas da manhã, comitês de recepção revezaram-se no aeroporto até as 4 da tarde, quando ele efetivamente chegou. Nos hotéis, uma média de 500 pessoas montavam guarda à espera de um autógrafo ou um simples aceno, e, sempre que o ídolo aparecia, multiplicavam-se os gritos de admiração e até cenas de histeria que pareciam reprises dos auditórios da Jovem Guarda. Muitas vezes, como em Belém, concorridas serenatas varavam a noite sob a janela do rei, para homenageá-lo. E mesmo quem ficasse indiferente aos shows acabava por participar deles: ao final de cada apresentação, sob os últimos acordes da orquestra, um espetáculo de fogos de artifícios iluminava os céus. Na verdade, Roberto Carlos é dos poucos brasileiros a não apenas alterar a rotina – mas mexer com a memória de uma cidade. Não há dúvida de que em muitos lugares por onde passou nesta excursão a data de sua apresentação ficará conhecida como o dia em que Roberto Carlos esteve aqui.

Publicada na Revista Veja, n° 772, de 22 de dezembro de 1983. DÉCADA DE 1980

Roberto Carlos
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