Matsuo Bashō, Mestre do Haikai

portrait-of-matsuo-bashoHaikais são poemas curtos que utilizam linguagem sensorial para capturar um sentimento ou uma imagem. Eles normalmente são inspirados por um elemento da natureza, um momento de beleza ou uma experiência comovente e Matsuo Bashō foi o maior Mestre, é mais do que uma forma de poesia; é uma forma de ver o mundo. Cada haikai capta um momento de experiência; um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado, a natureza humana, a vida. Exige uma atenção aos mínimos eventos da natureza objetiva e imediata, uma permanente atitude de espanto diante do fenômeno da natureza.haicai_historia409

Tabi ni yande yume wa kareno o kakemeguru Tradução: Doente da viagem,

Meus sonhos perambulam

Pelo campo seco.

Aos 50 anos de idade, Bashō foi acometido por uma enfermidade intestinal aguda, vindo a falecer em Osaka. Este poema foi composto no leito, poucos dias antes de sua morte, anotado por um de seus estudantes e considerado seu último trabalho. Ainda que o corpo permaneça preso pela doença, os sonhos são livres e podem levar a qualquer lugar. O haikai descreve o sentimento de solidão e desamparo de um homem doente durante sua última viagem. Não é o poema de uma mente tranqüila. É um pouco triste, transmitindo a sensação de alguém ofegante, procurando respirar. A vida de Bashō foi dedicada ao haikai e às viagens. Até em sonhos ele se via vagando em busca de algo e sabia muito bem que sua obsessão era um tipo de apego condenável pelo budismo. Sabedor de que a morte era próxima, fez da imagem de um viajante atravessando um campo ressecado pelo frio o símbolo de sua vida inteira. Essa imagem é apresentada de forma simples e poderosa. O kigo (termo de estação) é kareno (campo seco) e a estação é o inverno.

haicai_historia407Nozarashi o kokoro ni kaze no shimu mi kana Tradução :

No pensamento

Um esqueleto abandonado

Arrepios ao vento.

Este haikai foi escrito em 1684, como parte do primeiro diário de viagem de Bashō, Nozarashi kikô (Diário de um esqueleto abandonado ao tempo). Especialmente após o falecimento de sua mãe , meses antes, o incêndio que destruiu sua cabana, Bashô convenceu-se de que nada é permanente na vida e que, sendo assim, o homem é um eterno viajante em sua passagem pela terra. Por causa disso, Bashō começou a empreender viagens pelo interior do Japão, com o propósito de se fortalecer espiritualmente. Neste haikai, o poeta mostra sua firme disposição de partir, ainda que esteja consciente dos perigos da jornada, como o de eventualmente morrer no caminho, por causa de alguma doença ou um ataque de bandidos, vendo seu corpo se transformar, por fim, num esqueleto abandonado à beira da estrada. Ao pensar em tudo isso, o vento de Outono que ora sopra parece penetrar na pele, provocando arrepios. O kigo (termo de estação) é shimu mi ou mi ni shimu, literalmente “penetrar no corpo”, que se refere à sensação vivida à medida que o Outono se aprofunda e o frio torna-se mais forte.

haicai_historia405Shiragiku no me ni tatete miru chiri mo nashi Tradução:

Crisântemo branco 

Sequer um grão de poeira

Ao alcance dos olhos.

Versos de abertura (hokku) de uma sessão de kasen (seqüência de 36 estrofes) realizada na casa de Sonome (1664-1716), discípula de Bashō residente em Osaka. A sessão se deu em novembro de 1693. Tradicionalmente, o hokku é uma peça de saudação, augurando o bom andamento da sessão de poesia. Neste caso, o poema foi dirigido à anfitriã do encontro. Bashô provavelmente viu a flor e, atraído por sua branca pureza, examinou-a cuidadosamente, não conseguindo encontrar sequer um ponto de sujeira. Claramente, Bashō fez um contraponto ao waka de Saigyô (1118–1190), que diz: “Sobre o espelho/Tão límpido e brilhante/ Um simples grão de poeira/ Salta aos olhos./ Assim é o mundo”. Trocando “espelho” por “crisântemo branco”, os versos resultantes exaltam os sentimentos puros e a refinada elegância de Sonome. É um poema simples, mas que faz parecer que não existe nada no mundo além de um crisântemo branco. Sonome respondeu com os seguintes versos: “Jogo água sobre as folhas do Momiji (Bordo)./ No céu, a Lua matinal.”. O kigo (termo de estação) é shiragiku (crisântemo branco) e a estação é Outono.

haicai_historia403Toshidoshi ya saru ni kisetaru saru no men

Tradução:

Os anos se passam

Uma máscara de macaco

Veste o macaco.

Em 1693, um artista itinerante e seu macaco amestrado apresentam-se ao público e daí surge a inspiração para esse haikai. Bashō disse: “pessoas comuns gostam de escrever poesia por caminhos seguros, mas os mestres preferem se arriscar por terrenos perigosos. Por isso, produzem muitos poemas malfeitos. Meu haikai de Ano Novo sobre o macaco é totalmente malfeito”. O autor lamentava não ter conseguido imprimir a transformação poética que desejava ao material que tinha, mas não é o que pensam seus admiradores, para os quais o poema possibilita muitas interpretações. Há controvérsia sobre se a “máscara de macaco” seria uma máscara imitando um macaco, ou uma máscara para o macaco, imitando um ser humano. Também há dúvidas sobre se quem veste a máscara seria um macaco, ou um ser humano no papel de macaco. De qualquer forma, fica clara a decepção de Bashō ao ver como as pessoas falham em suas promessas de mudança e renovação e permanecem as mesmas ano após ano. Apesar de não ter palavra de estação (kigo), o tom geral dos versos remete ao Ano-Novo (primavera).

haicai_historia401Hatsu-shigure saru mo komino o hoshige nari Tradução :

Primeira chuva de Inverno

O macaco talvez queira

Uma capinha de palha.

Haikai escrito em 1689 e publicado na antologia Sarumino, de 1691. Aqui, pode-se imaginar um macaco, entre os galhos desfolhados de uma árvore, encolhido sob a chuva fria do começo do inverno, sem ter onde se esconder. A chuva de inverno (shigure), kigo deste haikai, é uma chuva fina, repentina e passageira, que, na literatura clássica, sempre aparece para simbolizar as idas e vindas do destino e, por conseqüência, a precariedade da existência humana. Bashō sabe disso, mas não está melancólico. Pelo contrário, aprecia o momento de introspecção que lhe é proporcionado. Dessa forma, seu haikai não vai meramente repetir uma convenção poética, lamentando o dia triste. Ao contrário, inova ao incluir a figura de um macaco. Esse animal, assim como o autor, parece estar desfrutando seu solitário recolhimento. Será que não gostaria de vestir uma capa de palha, como a de Bashō, para ficar mais à vontade sob a chuva? Nesse momento, desaparecem as barreiras entre o homem e o animal. Há apenas o sentimento de comunhão com a natureza e todos os seres vivos, misteriosamente relacionados. haicai_historia399

Hitotsuya ni yûjo mo netari hagi to tsuki

Tradução:

Sob o mesmo teto

Dormiram as cortesãs

A lespedeza e a Lua.

Lespedeza ou Hagi (Lespedeza spp.) é o nome de um arbusto de flores lilases que, junto com a Lua, constituem-se nos termos de estação (outono) deste haikai, parte do diário de viagem Oku No Hosomichi. Aqui, trata-se do episódio em que Bashō dividiu, por uma noite, a mesma hospedaria com duas prostitutas. Estas, lamentando seus destinos, rogaram-lhe: “Somos viajantes desamparadas completamente estranhas a estas paragens. Deixe-nos segui-lo. Se é um monge, como dizem suas vestes negras, tenha piedade de nós e ensina-nos a encontrar a Salvação”. Ainda que compungido, o poeta despediu-as, dizendo: “Sigam seu caminho, pois, se acreditarem firmemente, os deuses as protegerão”. Considera-se que as atrativas flores de lespedeza e a serena Lua são metáforas, respectivamente, das prostitutas e de Bashō. Entretanto, não é uma mera comparação intelectual. Trata-se de um exemplo do conceito de Nioi, ou fragrância: as flores na Terra e a Lua no alto representam dois mundos diferentes, unidos na mesma paisagem. São o rastro sutil que restou do encontro entre Bashō e as duas prostitutas.

haicai_historia397Omi shirami uma no shito suru makura moto Tradução:

Pulgas e piolhos

E o cavalo a urinar

Ao lado da cabeceira.

Haikai composto em 1689, como parte do diário de viagem Oku no Hosomichi (“Caminho estreito rumo ao norte”, ou “Sendas de Oku”, em sua versão mais famosa para o português). Após ultrapassar o posto de fronteira de Shitomae, na atual província de Miyagi, Bashō e seu companheiro Sora pediram pouso numa casa do lugar. Mas, surpreendidos por uma tempestade, tiveram de permanecer ali presos por três dias, sem muito que fazer. À noite em seu leito, acossado por pulgas e piolhos, o poeta, sem poder dormir, pensava na razão de um nome tão infame para o local (shito quer dizer urina). De repente, na escuridão, percebeu de forma nítida o familiar ruído de um cavalo urinando, possivelmente pelo costume da região de se construir o estábulo encostado à casa principal. Deve ser este o momento em que teve a idéia para o poema. Angustiado por seu confinamento, Bashō aproveitou um acontecimento totalmente inusitado para rir da situação. Ao lado do humor, é bem forte o sabor de wabi, isto é, o sereno desfrute de uma situação de despojamento. O kigo (termo de estação) é Nomi (pulga) e a estação é verão. haicai_historia395Tako tsubo ya hakanaki yume o natsu no tsuki Tradução:

O polvo num pote

Sob a lua de verão

É tão breve o sonho.

Haikai composto em 1688, durante a observação da pesca de polvos em Akashi, atualmente uma cidade da província de Hyogo. Potes de barro são submersos na água à noite, presos por cordas. Os polvos, tomando-os por abrigos seguros, neles se introduzem, permitindo sua captura. Por outro lado, as horas de sono do verão são curtas, tornando ainda mais efêmeros os sonhos. Será Bashō que sonha ou é o polvo, satisfeito com a tranqüilidade ilusória de seu pequeno mundo, ignorante do destino que o aguarda ao amanhecer? Na tradição poética, quem normalmente lamenta as poucas horas escuras do verão são os casais de amantes, que devem se separar na alvorada. Ao trocar esse sentimento romântico pela vida de um polvo, Bashō entra no campo do humor, característica da poesia de haikai. Entretanto, não sentimos vontade de rir. Ao contrário, somos tomados por grande compaixão pelo ser que, ao final de seu sonho, encontrará a morte. A Lua que brilha sobre o polvo e seu pote é afinal, a mesma que brilha sobre o homem e sua existência, tão fugaz quanto um sonho. O kigo é Natsu no Tsuki, lua de verão.

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Uma resposta para Matsuo Bashō, Mestre do Haikai

  1. Clau. disse:

    Adorei! Meus agradecimentos à oportunidade de aprender, sempre, graças à sua paciência(pesquisar), sensibilidade e conhecimento infinitos! Muito bom mesmo essas informações.

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