Hokusai-A Grande Onda de Kanagawa

e6de03da0b29acc1f88649b3344b68eff0c52d99The Great Wave at Kanagawa (from a Series of Thirty-Six Views of Mount Fuji)

A língua japonesa é lida verticalmente, é importante salientar que é lida da direita para a esquerda. Esta diferença causa a primeira impressão do quadro de um japonês não ser a mesma  para um ocidental.Para um ocidental, a imagem pode dar a impressão dos pescadores se dirigirem para o lado direito, ou seja, provenientes da península de Izu. Os pescadores são apanhados pela onda ou talvez tentando fugir dela. Para o observador japonês, os barcos procedem da direita da imagem, dirigindo-se para a esquerda, isto é, em sentido contrário à onda.

Os pescadores estão frente às costas de Kanagawa regressando de Edo, seguramente após ter vendido o peixe. Em lugar de fugirem da onda têm de seguir por essa rota e encará-la com toda a sua violência. Da perspectiva de um japonês, de direita a esquerda, a imagem é bem forte, tornando a ameaça da onda mais evidente.

Analisando os barcos na imagem, especialmente o da parte superior, pode-se observar que a proa, delgada e afiada, é orientada para a esquerda, pelo qual a interpretação “japonesa” é a “correta”.

Durante a etapa de composição da obra, Hokusai encontrava-se num momento de muitas dificuldades. Em 1826 tinha sérios problemas econômicos, em 1827 aparentemente teve um forte problema de saúde – provavelmente um infarto – no ano seguinte faleceu a sua esposa e em 1829 teve de resgatar o seu neto de problemas econômicos, situação que o levou à pobreza. Apesar de em 1830 enviar seu neto ao campo com seu pai – filho adotivo de Hokusai -, as repercussões financeiras continuaram por vários anos, período durante o qual esteve trabalhando nessa série -Trinta e seis vistas do monte Fuji. É talvez por estes problemas que o objetivo da série parece ser o de contrastar o sagrado monte Fuji com a vida secular…

O que poderia ser mais intrigante do que a imagem de um homem tão instável que, no final de sua longa vida  tenha vivido em noventa e três lugares? Ou um artista que mudou seu nome profissional com tanta frequência que um de seus contemporâneos comentou “nenhum artista já teve tantos nomes”.

E como se pode resistir a determinação de quem, em seu leito de morte e com respiração vacilante, implorou aos deuses para conceder-lhe uma extensão de apenas cinco ou dez anos mais-para que ele pudesse  se tornar um verdadeiro artista? Mesmo um inventário das posses  deste homem- duas ou três xícaras de chá e um único kimono de algodão -exerce uma grande curiosidade sobre a imaginação que este homem possuia.

640px-Hokusai_portraitDiz-se que anos antes de falecer assegurou:
“Com cinco anos de idade tinha a mania de fazer traços das coisas. Com cinquenta de idade tinha produzido um grande número de desenhos, contudo, nenhum tinha um verdadeiro mérito até os 70 anos. Aos 73 finalmente aprendi algo sobre a qualidade verdadeira das coisas, pássaros, animais, insetos, peixes, as ervas ou as árvores. Portanto, com oitenta anos de idade terei feito um certo progresso, aos 90 terei penetrado no significado mais profundo das coisas, aos 100 terei feito realmente maravilhas e aos 110, cada ponto, cada linha, possuirá vida própria.”

Ao abordar a arte de Katsushika Hokusai (1760-1849), um dos mais renomados artistas do Japão, é tentador parar e perder tempo com as facetas envolventes e excêntricas de sua vida. Na verdade, essas imagens coloridas fornecem ferramentas prontas para  tentar compreender o alcance de um mestre das artes visuais carregado de energia criativa sem limites e virtuosismo técnico. “Ele era aparentemente alheio aos aspectos práticos da vida cotidiana. Não porque  vivia distraído, mas porque  era obstinado em sua devoção a descobrir a verdade através do uso de seu pincel “, diz James Ulak, curador sênior da arte japonesa na Freer Gallery of Art e Arthur M. Sackler Gallery.

Hokusai tinha um desejo permanente de transferir conhecimento,não de uma forma mundana competitiva, mas como um meio para a partilha. “Para Hokusai, a transmissão da arte era tudo,” diz Roger S. Keyes, um historiador de arte e consultor do Hokusai,na exposição de 2006 na Freer | Sackler. “É o  que ele esperava realizar através da arte. A forma de transmitir a convicção do que sabia através de sua experiência para os outros. ”
O grande volume de pinceladas de Hokusai intrigavam tanto a imaginação quanto o intelecto. Ao longo de sete décadas, que incluíram períodos ocasionais de profunda distração pessoal, este “homem louco pela pintura”, como ele chamava a si mesmo, criou um número estimado de trinta mil imagens e escreveu romances e poesia também. Ele criou desenhos, pinturas e gravuras que variaram muito em assunto e formato de paisagens; mulheres bonitas; o espiritual e sobrenatural; figuras lendárias e contos históricos; still life; natureza, incluindo aves e flores; erótica; surimono (altamente refinadas impressões, encomendadas privadamente); pinturas de fãs; mangá; álbuns ilustrados, livros, antologias de poesia; e romances; manuais de ensino para os artistas, e até mesmo arte performática. Seus livros ilustrados sozinho somam cerca de 270 volumes. “Há tanta coisa que você tem que olhar ,antes que você tenha uma verdadeira noção desse artista”, diz Keyes. “Eu nunca canso de ve-lo.”

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