O Clonado Tupolev TU-4

1780734_1580372022207199_2943657319968354200_nAtenção ,vamos conhecer uma estória interessante dos B-29. O maior esforço de guerra (em um único projeto) dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra mundial foi o desenvolvimento e construção da “Superfortress”, superando, inclusive, o extenuante trabalho para a construção da bomba atômica. O B-29 foi, ao seu tempo, uma aeronave extremamente poderosa e complexa, dando total supremacia aos EUA no bombardeio estratégico. Tudo nele era segredo de estado e nenhum foi cedido nos famosos programas de “lend-lease”, com o qual os americanos supriram com material -bélico ou não- os aliados, mormente os britânicos. Mas veja a foto que está anexada mais abaixo: não é uma estrela vermelha, símbolo das FFAA da União Soviética, que está pintado na cauda desta B-29? Sim, é uma Red Star que está pintada e esta é uma B-29 Superfortress que pertencia à URSS.tu4

Mas como isso foi possível? Então vamos às explicações. A “B-29” da foto na verdade é um Tupolev Tu-4, nome NATO “Bull”. O Tu-4 foi um bombardeiro estratégico que serviu aos Soviéticos do final dos anos 40 até meados dos anos 60 e foi uma cópia de engenharia-reversa do Boeing B-29. Engenharia reversa é o processo para descobrir os princípios tecnológicos de algo criado pelo homem –neste caso o B-29, seus motores e todos seus sistemas-, através da análise de sua estrutura, funções e operação. Envolve desmontar completamente tudo e analisar em detalhes cada componente. Como os soviéticos conseguiram B-29s em número suficiente para fazer isso é uma história fascinante da IIWW. Em julho de 1944, um B-29 (nome Ramp Tramp) estava escalado para participar de uma missão para bombardear uma fábrica de aço japonesa que ficava a 2700 km de distância, 5400 km ida e volta. Por um problema no APU (auxiliary power unit, ou unidade de força auxiliar), também conhecidos como puf-puf, o Ramp Tramp decolou bem depois que todas as aeronaves tinham decolado. Um parênteses: o APU é um pequeno gerador de eletricidade movido por um motorzinho meleca que o pessoal de apoio no solo opera e que fornece energia elétrica através de cabos que são conectados às aeronaves e fornecem energia elétrica para, por exemplo, acionar o motor de arranque e dar partida nos motores da aeronave, poupando as baterias de bordo. Tem muito mais coisa aí, mas vamos ficar apenas com esta explicação, que é válida para quem não é do ramo. Outro parênteses: um acidente aéreo é quase que sempre a soma de pequenos problemas que, sozinhos, talvez não causassem maiores danos, mas quando somados tornam o acidente praticamente inevitável. Pois bem, como vimos o Ramp Tramp decolou bem depois e abriu potência para alcançar a formação, o que veio a acontecer após duas horas de vôo com os motores funcionando no máximo de potência contínua permitida consumindo, dessa forma, uma enormidade de combustível a mais que o planejado. Mas estar na formação é a regra nr 456 do MSS (Manual de Sobrevivência das Sardinhas): se você estiver no meio do cardume, alguém será comido. Se você estiver fora do cardume, você será comido. O vôo continuou sem maiores problemas e o Ramp Tramp fez uma corrida normal de bombardeio, mandou o famoso “bombs away” e descarregou tudo sobre a tal fábrica de aço japonesa, que ficava na Manchúria ocupada pelas tropas Imperiais e, missão cumprida, começou a arrumar as malas para voltar para casa. Suspeita-se, conjectura-se, imagina-se que, durante o bombardeio algum pedaço de flak tenha atingido a aeronave provocando um pequeno vazamento de combustível, sem muita importância, mas que diminuia ainda mais a quantidade de gasolina disponível a bordo. As flak eram aqueles canhões anti-aéreos que disparavam obuses que explodiam numa determinada altura. Muito bem, até aí ainda dava para fazer as seis ou sete horas de vôo para regressar à base. Chegariam curto de combustível (com as calças na mão, como se diz) mas chegariam. But then, disarter struck!!!!! O motor numero 3 teve um disparo de hélice, o que obrigou a tripulação a desligá-lo e embandeirar as quatro enormes pás da hélice. A hélice de um motor parado em vôo gera um enorme arrasto. É como se um freio-de-mão fosse puxado. Embandeirar uma hélice significa colocar as pás alinhadas com o vento relativo, ou com a direção do vôo, de forma a diminuir o arrasto. Mas então o golpe de misericórdia aconteceu: a tripulação não conseguiu embandeirar a hélice do motor parado, e ficou evidente que não teriam combustível suficiente para regressar à base ou desviar para qualquer aeródromo alternativo. Sem nenhuma outra opção, eles aproaram uma base russa em Vladivostok, pois tratava-se de território aliado. Nesta época a Rússia não estava em guerra com o Japão, e tudo que o titio Stalin não queria era provocar a ira dos japoneses e arranjar confusão com um país (Japão) que já tinha derrotado os russos em todos os conflitos anteriores. Para Stalin, bastava o problemão chamado Hitler mas, ao mesmo tempo, estava desesperado para ter uma aeronave que fosse algo perto das B-29 e havia ordenado que se estudasse a construção de algo assim. Mas os russos não tinham competência ou conhecimentos técnicos para desenvolver uma aeronave tão avançada Todo dia antes de dormir ele, Stalin, se ajoelhava ao pé da cama e rezava ao papai-do-céu para que lhe desse de presente um B-29, unzinho só que fosse. Com o Ramp Tramp suas preces devem ter sido ouvidas. O Ramp Tramp foi interceptado em vôo e obrigado a pousar em um outro aeroporto, localizado numa cidade remota. Ainda no ar a tripulação destruiu todos os documentos existente a bordo, incluindo os manuais, checklists, códigos, etc e, após o pouso, foram aprisionados. Na verdade, a aeronave e os militares foram “internados”, mas discorrer sobre isso vai tornar o assunto muito longo. Assim titio Stalin conseguiu um B-29 todinho para chamar de seu. But wait, there’s more. Poucos dias depois outro B-29 foi duramente atingido pela flak, teve que desviar para território russo e a tripulação saltou de paraquedas. O avião ficou destruído, mas tinha muita peça que podia ser estudada. E aí a sorte sorriu de lado a lado para Stalin. Outro B-29 atingido pela flak teve que pousar na Rússia e pouco depois um outro, que pegou ventos extremamente fortes, ficou sem combustível e pousou no colo do Stalin sem um único arranhão sequer. Todas as aeronaves foram “internadas” juntamente com suas tripulações, sendo devolvidas (as tripulações) aos americanos tempos depois. As aeronaves foram transportadas para outro local e Stalin designou o bureau do Andre Tupolev, um gênio da engenharia aeronáutica, para fazer uma engenharia reversa e construir um “B-29” russo. Com três aeronaves perfeitas mais partes salvadas de outros acidentados, Tupolev se deu ao luxo de desmontar uma aeronave peça por peça, deixou outra para servir como parâmetro e a terceira para vôos de experiência e começou a construir os Tu-4, que eram cópias dos B-29. Consta que Tupolev, examinando parte das 105.000 peças que compõem o B-29, teria sugerido algumas modificações para aperfeiçoar ainda mais a aeronave (lembrem-se, Tupolev era um gênio) e que Stalin teria ameaçado mandar fuzilá-lo caso ele mudasse uma placa de aviso que fosse. A verdade é que o clone construído pelos soviéticos ficou apenas 1% mais pesado que o original, principalmente porque a chapa de alumínio que os americanos usavam tinha espessura de 1/16 da polegadas e a União Soviética, que adota o sistema métrico, não tinha capacidade de produzir uma chapa com 1,587mm (1/16 em mm) e arredondaram para mais. Os motores também eram diferentes, foram usados os Shvetsov que, embora tivessem muitas partes em comum com os Wright R-3350 originais, não eram idênticos. Para cada modificação os engenheiros tinham que obter autorização dos mais altos comandos militares, mesmo para as mais óbvias. Por exemplo, um engenheiro que trabalhava no bureau do Tupolev, se lembrava que tiveram que obter autorização do alto-comando da Força Aérea para utilizar paraquedas soviéticos para as tripulações!!!!!. Vocês se lembram daquele piloto que fugiu, desertou, com um ultra-secreto Mig e foi para o Japão, creio que na década de 70? O Japão segurou o caça com a desculpa que ele tinha sido, vejam só, contrabandeado, e entregou a máquina e o piloto aos americanos. Diferentemente dos pilotos dos B-29, que nunca falaram nada sobre o funcionamento dos sistemas, esse piloto do Mig queria asilo político americano e contou tudo o que sabia. Há algum tempo li que ele tinha se tornado cidadão americano e vivia tranquilo nos EUA. Um abraço a todos.

Newton Fedozzi

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