O Boeing 737 VASP de Urutaí

Jornal O Popular

Intenção da compra foi comercialimageh

Desde que ficou sabendo que os aviões da Vasp seriam colocados à venda, o odontólogo Ailton Martins de Oliveira se interessou pelo negócio. “Além de preservar um pouco da história da aviação no Brasil, pensei que um avião como esse pudesse ser algo interessante para ser visto.” Ele admite que também teve intenção comercial. “Claro que não faria essa aquisição para deixar guardado. Pode ser interessante e diferente para ser visitado, uma forma de lazer”, explica.

Questionado se ele se considera um dentista-piloto ou o contrário, Ailton pede um tempo para pensar. Segundo ele, tem amor semelhante às duas ocupações, mas depois de um tempo chega à conclusão de que ainda é dentista-piloto. “Mas nada impede que, em breve, me torne o contrário. Minha principal ocupação ainda é a odontologia, mas quando quero relaxar, é o avião que eu procuro.”

imageQuem segue viagem pela GO-330 com certeza já se perguntou o que um avião de 32 metros e 35 toneladas faz parado na frente da sede de uma fazenda às margens da rodovia, logo na entrada do município de Urutaí (a 163 quilômetros de Goiânia). Isso porque há quase um ano, um Boeing 737-200 faz parte da decoração da propriedade do odontólogo Ailton Martins de Oliveira. A aeronave ainda passa por reparos, mas em breve deverá ganhar um espaço para exposição e, quem sabe, ser aberta para visitação.

A intenção do proprietário é construir um hangar para guardá-lo e, nas dependências do local, abrir um restaurante. A inspiração para essa ideia audaciosa e, no mínimo curiosa, começou há cerca de 20 anos, quando o já dentista começou com as primeiras aulas para se tornar também piloto. Depois de comandar um monomotor modelo Tupi, Ailton se apaixonou pela aviação e de lá para cá, já soma mais de 4 mil horas de voo. Ele possui, além do Boeing, outras três aeronaves – dois monomotores e um helicóptero – pilotadas por ele para trabalhar e também nas horas de lazer.

A aviação, além de hobbie, se tornou aliada no trabalho do odontólogo. Casado e pai de dois filhos, ele é proprietário de uma rede com 25 clínicas dentárias em 7 Estados. E a agilidade do voo permite que o dentista acompanhe o andamento das unidades de perto. E ele faz questão de continuar a atender pessoalmente os pacientes da cidade de Urutaí, onde nasceu e morou até os 18 anos. Filho de um vaqueiro e uma cozinheira que ainda moram na cidade, Ailton vai ao local semanalmente para visitar a família e três dias no mês para atendimentos à comunidade.

O Boeing 737-200 não tem condições de voar, apesar de estar com sua estrutura preservada. Do lado de dentro, conserva a cabine do piloto com todos os equipamentos de comando. Até um livro com o relatório do último voo realizado está guardado atrás do banco do piloto. As poltronas em couro azul, com carpete da mesma cor, também estão em boas condições. “Apesar de ter ficado parado por cerca de dez anos, é uma aeronave que merece ser restaurada para ser preservada”. diz.

Contraste

A aeronave, que por enquanto ostenta apenas a cor branca e se destaca no meio do verde do pasto, contrasta com a realidade de uma pequena cidade de cerca de 3 mil habitantes, na Região Sul de Goiás. Os moradores do local já se acostumaram com a novidade, apesar de apontarem o dentista como “maluco” em alguns momentos. O borracheiro Marcelo Augusto Costa dos Santos, de 21, trabalha perto da fazenda do dentista. “Tem muita gente que para aqui para perguntar, saber por que o avião está ali e outros apenas param para fotografar.”

E a ideia de tornar o avião uma atração para a cidade anima o jovem. Ele diz que a localidade não possui muitos atrativos. “Quando queremos nos divertir, temos de ir para Ipameri ou Pires do Rio. Seria bom ter algo que trouxesse visitantes pra cá.” O odontólogo já tem o local que a aeronave deverá ficar em exposição. A área fica perto da fazenda e da entrada da cidade. O espaço deverá ser loteado e ter esse espaço reservado para lazer, com a implantação do hangar com a aeronave.

Existem alguns curiosos que perdem a vergonha e vão à fazenda para ver o avião de perto. Pai do odontólogo, Nadir de Oliveira, de 82, cuida da propriedade e já perdeu as contas de quantas pessoas foram ao local pedir informações e para tirar foto. “Acredito que são umas dez pessoas por dia”, estima. O vaqueiro aposentado cuida da fazenda e também duvidou que o filho compraria a aeronave. “É uma coisa que ele gosta, que o faz feliz, por isso não me meto, mas que é loucura, é”, diz.

Transporte

Depois de arrematar a aeronave, o odontólogo teve de resolver como faria o transporte. Informado de que teria 90 dias para retirar o avião do pátio do Aeroporto de Brasília (DF), ele precisou contratar equipe para desmontar e transportar as peças. As asas foram retiradas e dois caminhões realizaram a transferência. Foram quase três meses para desmontar e outros dois para remontá-lo na fazenda. O avião teve a antiga pintura retirada e, agora, recebe nova tinta. O próximo passo será aplicar duas faixas, uma azul e outra vermelha, em todo comprimento do avião para completar a reforma.

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Aeronave foi adquirida em leilão da Vasp pela internet em 2013imaged

 

A compra da aeronave que está exposta na fazenda do odontólogo Ailton Martins foi realizada em leilão pela internet, em setembro de 2013. O Boeing faz parte do último lote de aviões da Viação Aérea São Paulo (Vasp), empresa que teve a falência decretada em 2008. Os rendimentos da venda das aeronaves, todas consideradas sucatas, foram revertidos para pagamento de dívidas da companhia, especialmente trabalhistas. Segundo o site do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os lances somaram R$ 1,9 milhão. A aeronave adquirida por Ailton custou, segundo o CNJ, R$ 112 mil. O avião mais caro do lote foi um Airbus 300, fechado em R$ 556 mil.

Dois aviões foram comprados no mesmo lote para serem desmanchados. As compradoras foram empresas envolvidas em reciclagem de metais. Um piloto de Araraquara (SP) comprou duas aeronaves. Uma, no leilão de 2012, semelhante à adquirida por Ailton. No ano passado, ele arrematou um cargueiro que será transformado em boate. Na época da compra, o piloto Edinei Capistrano disse ao site G1.com que o avião seria adaptado para se tornar local para eventos. A primeira aeronave foi restaurada para ficar em exposição. O Boeing recebe alunos e já serviu de locação para gravação de um programa de TV norte-americano sobre desastres aéreos.

Ailton não divulga o valor gasto para transportar o Boeing de Brasília, onde ficou parado por quase dez anos, até a cidade de Urutaí, nem quanto pagou para desmontá-lo na capital federal e remontá-lo. Mas de acordo com o site do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) pagou R$ 40 mil para realizar o desmanche de cada uma das 20 aeronaves que foram destruídas pelo tempo e foram vendidas como sucata.

Reportagem publicada no site do CNJ aponta que um dos compradores de parte da sucata dos aviões utilizou o alumínio para fabricação de panelas. O alumínio do avião, segundo a publicação, é mais grosso e tem liga mais resistente, o que a tornaria mais difícil de ser aproveitada na reciclagem.

Ailton afirma que não deve adquirir outra aeronave apenas para exposição, mas que seu novo sonho é comprar um jatinho executivo Phenom 100, da Embraer, que tem capacidade para seis pessoas.

Fotos-Wildes Barbosa

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