Comunidade Yuba

Por Luciana Mastrorosa, de Mirandópolis, SP
Fotos Ricardo D’Angelo

Quase 7 horas de carro, 600 quilômetros a noroeste separam a pequena Mirandópolis da capital paulista. Ali, encravada a 20 minutos do centrinho da bucólica cidade, está a Associação Comunidade Yuba, uma fazenda de 110 hectares onde cerca de 60 pessoas, todos japoneses ou descendentes (originários de 20 famílias), moram, convivem e trabalham, seguindo um modelo proposto pelo fundador, Isamu Yuba, nos anos 1930. Lá, tudo é de todos, e o dinheiro não circula. Trabalho, oração e arte são o tripé que sustenta ideologicamente essa  sociedade.

Veja aqui a galeria de fotos da viagem de Prazeres da Mesa à Comunidade Yuba

Isamu morreu em 1976, mas Yuba ainda é uma comunidade fechada. É costume receber visitantes, em geral turistas do Japão ou nipo-brasileiros. Alguns ficam, mas para isso é necessário ter ascendência japonesa e enquadrar-se aos costumes locais. A reportagem de PRAZERES DA MESA teve acesso à fazenda por meio de um de seus filhos egressos: Samuel Eijiro Yazaki, sushiman do Rangetsu of Tokyo, um dos mais elegantes restaurantes orientais da capital paulista. Eijiro, de 37 anos, deixou a comunidade em 1993, aos 18, o que causou bastante comoção na época. Hoje, vive em São Paulo, é casado e tem filhos com uma brasileira. “Fui um dos primeiros a sair”, diz ele. “Prometi a mim mesmo que não voltaria como um fracassado, mas sim com orgulho. Minhas raízes estão aqui.” Foi Eijiro quem fez a ponte entre nós – repórter e fotógrafo, de traços ocidentais e nenhuma raiz nipônica – e a comunidade, falando com os locais em japonês. Sim, por lá, a língua oficial ainda é essa, mesmo com todos os habitantes sabendo também o português. De certa forma, mantê-lo como idioma oficial é uma maneira de reforçar os laços com o passado.

Japão campesino

Chegar a Yuba é como chegar a um míni-Japão, de clima quase feudal. Ao adentrar a fazenda, o silêncio impressiona. A estada ocorreu em setembro, com sol inclemente castigando a terra, havia meses sem chuva. Logo avistamos a cozinha comunitária, um grande galpão com mesas de madeira maciça, gastas, usadas para acomodar os moradores. Refeição é coisa séria por ali, com rituais e hora para acontecer. “Mas nada impede que se faça um lanchinho a qualquer momento”, diz Eijiro.

Depois de instalar nossa bagagem na casa de hóspedes – uma construção simples de alvenaria, com quartos, um banheiro comunitário e uma saleta –, seguimos para um tour. Naquela semana, duas mulheres, Katsue Yuba e Nozomi Yuba, estavam escaladas para trabalhar na cozinha. Eijiro, apesar de chef, não opina: é tão convidado quanto nós. Ele nos explica que os afazeres culinários não são exclusividade do gênero feminino, trabalha ali quem tem vontade. “Na Yuba, ninguém é obrigado a fazer nada, cada um escolhe as atividades que prefere.”

O ritual se repete a cada dia: antes de comer, ora-se em silêncio. As refeições são muito simples, consumidas com utensílios e talheres gastos pelo uso, hashis (os “palitinhos” japoneses) e garfos dividindo o mesmo espaço. Com o som de um berrante (e um coro espontâneo de vários cães à porta da cozinha), Katsue convoca a comunidade. Às 6 horas é o café da manhã; ao meio-dia, o almoço; às 18h30, o jantar. Aqui, uma curiosidade: as casas das famílias não têm cozinha própria. O único espaço de refeições é mesmo o grande galpão, onde se come manju (o tradicional doce de feijão), conservas japonesas, missoshiro (sopa de missô), gohan (arroz oriental sem sal), ovos, de vez em quando carne de boi, porco ou galinha. Muitas verduras, cruas e cozidas, e um chá-verde fraco e gelado para acompanhar. Bebida alcoólica não é costume. Quando há, em geral é cachaça – saquê quase nunca, pois é muito caro. “Guaraná e cerveja tem uma vez por ano”, diz Luiz Tsuneo Yuba, presidente da associação. Nas festas e no Natal, a comunidade recebe muitos visitantes para suas apresentações de arte, e a variedade de pratos aumenta. “Tem comida italiana, francesa, alemã”, diz Tsuneo.

Futuro fino

Nos três dias de visita, percorremos a horta, conhecemos o cultivo de cogumelos shiitake e fomos apresentados ao teatro Yuba, onde os moradores se dedicam às artes, como balé, teatro e música. Também conhecemos o trabalho delicado da ceramista Mitsue Yuba, que, tímida, não quis aparecer. Todos são muito reservados. Apesar de arredio, o presidente da comunidade, Luiz Tsuneo, concordou com uma breve entrevista. Aos 58 anos, o líder é o descendente mais próximo do fundador, filho de Minoru Yuba, irmão de Isamu. Cabe a ele a coordenação de tudo por ali, auxiliado por outras pessoas-chave. “Cada um é responsável por uma área. Eu só assumo o papel de presidente. Todo mundo é igual na responsabilidade.”

Como a sociedade não visa ao lucro, a ideia é manter-se autossustentável, produzindo a maioria dos insumos consumidos, especialmente os alimentícios, e vendendo frutas, legumes e cogumelos. O dinheiro usado para outros itens, de medicamentos a roupas e eletrodomésticos, vem daí. Há uma TV, um telefone e internet wi-fi no galpão da cozinha, para todos. Caso se necessite de dinheiro para algo em particular, o pedido deve ser feito ao conselho. A entrada monetária, porém, não tem sido muito vultosa. “Tivemos uma granja enorme no passado, mas hoje produzimos só para o gasto”, afirma Tsuneo. Da cozinha de Yuba saem muitas especialidades orientais, como missô, shoyu, geleias e conservas, que teriam boa aceitação no mercado. Mas, como eles não têm fábrica, não podem comercializá-las. “Quando tem festival do Japão, a gente leva produto daqui e faz muito sucesso. Ainda não temos loja, mas quem sabe no futuro.”

Futuro é uma palavra delicada para Yuba. Se um dia a comunidade vicejou, muito graças ao poder de persuasão do fundador, a continuidade não é uma certeza. Em seu auge, chegou a ter 300 pessoas. Depois de entrar em falência em 1956, houve um racha e muitos deixaram a sociedade. Os que ficaram mudaram-se para a atual sede da fazenda. O resto é história. O dilema atual é como continuar sendo um local atrativo para os jovens. Ao tocar no assunto, as palavras de Tsuneo parecem ainda mais engasgadas. “Toda comunidade tem de ter presente, passado e futuro. Nosso futuro está com a ponta fina.” Para o presidente, a continuidade depende das crianças, o que é uma grande preocupação: há poucas delas. “Casamento é o grande problema da Yuba hoje. Entre moradores daqui é quase impossível casar, pois todos têm algum parentesco”, diz o presidente.

A educação também é outro complicador. Já não se faz tanta oposição à saída da comunidade para quem assim o deseja (como na época de Eijiro), mas também não há exatamente atrativos para quem quer ficar. “Quem quer fazer faculdade tem de trabalhar para se manter, e muitos acabam não voltando”, diz o chef. Para Eijiro, que brilha na execução de pratos delicados no Rangetsu – como os que ilustram esta reportagem –, o principal motivador para deixar a comunidade foi justamente isso. “Não queria parar de estudar, isso faz com que a gente cresça.”

Outra opção é ir ao Japão trabalhar, para acumular recursos. Foi isso, inclusive, que ajudou a Yuba a se recuperar em muitos apertos financeiros. Para Tsuneo, o que os jovens querem hoje é dinheiro. “Aqui é como uma família grande, todo mundo trabalha, mas sem lucro próprio. Acho que é por causa disso que eles querem ter uma vida separada”, afirma. “O presente é nosso, mas o futuro é deles. Se a necessidade é distribuir dinheiro, eles precisam decidir isso. Yuba não é mais tão rígida e dura, né?”

Embora fique triste ao ver a comunidade sem um futuro claro, Eijiro não se arrepende de ter saído de lá. “No começo, não aceitaram. Já fiz muita coisa. Hoje sou mais respeitado”, diz. Mas ainda não é hora de voltar. “Muito do que aprendi aqui está valendo ainda. Talvez no futuro volte. Ainda tenho muita coisa para fazer lá fora.”

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