A Fazenda da Utopia

Bale-Yuba-2_Foto-Lucille-Kansawa_baixaVeja, 29/08/1990 JOÃO GABRIEL DE LIMA, de Mirandópolis No interior de São Paulo, um lugar onde não existe dinheiro, mas há médico, comida e moradia de graça para todo mundo Pede-se atenção ao teste que se segue. “Era uma vez uma terra distante onde todo mundo trabalhava naquilo que mais gostava – e, mesmo assim, só quando acordasse disposto. Nesse lugar, escola e assistência médica eram gratuitas, ninguém pagava aluguel e, nas horas de folga, todos se dedicavam à dança, ao teatro, à música e às artes em geral.” O trecho acima foi extraído: a) das Mil e uma Noites; b) dos livros de Karl Marx, patrono da utopia comunista, segundo a qual um dia os homens seriam capazes de passar a vida pescando e fazendo críticas de teatro; c) da obra do filósofo francês de origem suíça Jean-Jacques Rousseau, idealizador de uma sociedade onde cada indivíduo pudesse desenvolver plenamente suas potencialidades; d) de uma crônica sobre os modos de vida no Brasil dos anos 90. Quem escolheu a resposta D acertou na mosca: essa “terra distante”, por mais absurdo que possa parecer, existe e fica nas vizinhanças de Mirandópolis, a fronteira com Mato Grosso do Sul. Quem respondeu c errou por pouco. O lugar em questão foi fundado por um imigrante japonês que, após ser reprovado por três vezes consecutivas no vestibular para timoneiro de navio em sua terra natal, aportou no Brasil com um livro de Rousseau debaixo do braço disposto a levar à prática as idéias do seu ídolo. O sonho se materializou na fazenda Yuba, uma comunidade agrícola situada no município paulista de Mirandópolis, onde 26 famílias formadas por imigrantes japoneses e seus descendentes vivem uma vida de conto de fadas. Os lavradores de Yuba acordam antes do sol nascente. Pés descalços, às 6 horas da manhã eles já estão no campo trabalhando no cultivo dos 7 000 pés de goiaba da fazenda, lavoura que é responsável pelo sustento da comunidade. O trabalho é interrompido quatro vezes por um toque de berrante que anuncia as horas das refeições. Quando o sol se põe, outra luz se acende em seu lugar: a dos potentes refletores do teatro local, equipado com tecnologia japonesa e construído com a madeira das árvores cultivadas em Yuba. Lá, os mesmos lavradores que passaram o dia no campo se juntam aos colegas que consumiram a tarde em afazeres domésticos para se dedicar à dança, ao teatro, à pintura e ao canto coral, tudo de acordo com os ensinamentos do fundador da comunidade, Issamu Yuba – morto em 1976 -, defensor da idéia de que uma vida saudável tinha, como pilares básicos, o cultivo da terra e da arte. Mão na massa – Outra característica, além da dedicação às artes, faz de Yuba um lugar especial: ao contrário dos 150 milhões de brasileiros que desde 1985 tiveram de aprender a fazer contas com o cruzeiro, depois com o cruzado, mais tarde com o cruzado novo e por fim, mais uma vez, com o cruzeiro, os moradores da fazenda não têm contato com o dinheiro – mercadoria que era considerada por Issamu como um perigoso obstáculo à vida harmoniosa pregada por Rousseau. Assim, os lavradores de Yuba não recebem salário por seu trabalho. “Por isso, quem não compartilha das nossas idéias não consegue ficar muito tempo na fazenda, já que ninguém aceita trabalhar de graça”, conta Tetsuhiko Yuba, filho de Issamu que herdou o posto de chefe da comunidade. Na qualidade de chefe, ele centraliza todo o dinheiro ganho com a venda de goiabas e legumes cultivados na fazenda. A arrecadação, uma média de 1 milhão de cruzeiros mensais, é reinvestida na lavoura – com a compra de sementes, adubo, inseticidas etc. -, e o excedente é convertido em benefícios para a comunidade, como escola, assistência médica e montagens teatrais. No tocante a alimentos, a comunidade só compra arroz e feijão. O restante vem da própria terra: Yuba tem hortas espalhadas pelos seus 20 alqueires, gado para corte e uma granja. Como ninguém tem dinheiro, Yuba não tem comércio. Quem gosta de costurar faz as roupas que todo mundo veste, quem sabe fazer serviço de pedreiro constrói as casas onde todos moram e assim por diante. Esse sistema tem os seus problemas. Se ninguém está com vontade de colocar a mão na massa, é possível que uma família espere anos até que sua casa fique pronta, exercitando a infinita paciência oriental. Isso, porém, raramente acontece. Como a vida é comunitária, cada um procura harmonizar seus gostos pessoais com a necessidade de todos. Yuba só contrata gente de fora para trabalhar na lavoura, e ainda assim só na época mais intensa da colheita. ee_vicente_barbosa_06Sem comércio e sem dinheiro, voltados para a arte e para a natureza, os moradores de Yuba vivem uma vida primitiva, negando as conquistas da civilização, mais ou menos de acordo com os ensinamentos do polêmico filósofo Rousseau. Em seus livros, ele defendia a idéia de que o homem é primordialmente bom, de que a corrupção nasceu junto com a propriedade privada e de que a civilização converte as aspirações mais puras do indivíduo em vaidade e hipocrisia. O filósofo Voltaire, seu principal opositor dentro do iluminismo francês do século XVIII, zombava dele dizendo que o principal objetivo de Rousseau era converter os homens em animais. Entre os jovens de Yuba – que formam a segunda geração da comunidade, fundada há 65 anos -, existem os que pensam como Voltaire e os que se alinham com as idéias de Rousseau. Os primeiros abandonaram a fazenda em busca de melhor sorte na cidade grande. Os demais, que ficaram, ganharam a companhia de dezenas de pessoas que concordam com a idéia mirabolante de que a civilização é um mal, trocando o conforto das metrópoles pela vida primitiva da fazenda. Sapatilhas – Yussaku Yuba, de 39 anos, é um dos que nasceram em Yuba e por lá ficaram. “Na adolescência, tive muitas dúvidas”, relembra. “Resolvi continuar aqui porque, se de um lado você perde parte de sua individualidade, de outro você entra em contato com milhares de coisas que não caberiam na rotina de um assalariado.” Yussaku é pedreiro – participou da construção de quase todas as casas da aldeia -, poeta, dramaturgo e professor de Arquitetura. É ele quem ensina às crianças os segredos da construção de casas. Sua mulher, Sílvia, de 31 anos, se enquadra entre as pessoas que foram morar em Yuba por opção. Nascida em São Paulo, ela estudou Artes Plásticas na Faculdade Armando Álvares Penteado, a Faap, coordena hoje o ateliê de pintura da fazenda e nem pensa em voltar. “A vida aqui é voltada para as coisas práticas e, por isso, se aproxima do ideal de criação de todo artista”, diz. A bailarina Akiko Ohara pensa da mesma forma. Ela veio direto do Japão para Yuba em 1961 acompanhada do marido, escultor, em busca do que julgava ser o paraíso perdido dos artistas. Formada em dança contemporânea em Tóquio, Akiko dava aula num centro de pesquisas de arte vanguardista ao mesmo tempo que, para sobreviver, dançava em programas de televisão – trabalho que detestava. Em Yuba, Akiko encontrou terreno fértil para a sua arte e, logo que chegou, fundou o Balé Yuba, que é hoje a ponta mais visível da atividade cultural da fazenda – já fez turnês pelo Brasil e se apresentou no exterior. “Ninguém por aqui sabia dançar quando eu cheguei, o que tornou o trabalho ainda mais fascinante. Era como escrever um poema numa folha de papel em branco”, compara. Sua coreografia predileta, Bravos Pioneiros, traz gestos inspirados na atividade dos lenhadores e coloca em cena, junto com os bailarinos, os trabalhadores do campo. Em montagens como essa, ela consegue a proeza de levar lavradores que passam o dia com os pés descalços para o mundo mágico das sapatilhas. O prestígio do Balé Yuba fez com que, nos anos 70, vários artistas da colônia japonesa se interessassem pelo trabalho desenvolvido na fazenda. Os pintores Manabu Mabe e Yashyia Takaoka chegaram a desenhar cenários para as apresentações da companhia. Hoje, Yuba não atrai apenas as atenções dos artistas da colônia japonesa. O maestro Ricardo Nogueira, integrante do Projeto Monitores Corais, da Secretaria Estadual da Cultura, escolheu Yuba para exercer sua atividade de regente e se espantou com a musicalidade dos lavradores da fazenda. “Eles são versáteis a ponto de cantar bem tanto músicas tradicionais como peças complicadas de Bach ou Mozart”, entusiasma-se. Essa versatilidade não é obra do acaso. As crianças de Yuba têm aulas de música – assim como de dança e pintura – desde pequenas, a fazenda tem cinco pianos e quase todos os jovens do lugar são capazes de executar ao instrumento estudos de Chopin ou sonatas de Beethoven. Faces de um mesmo sonho – Além de encantar os artistas, Yuba tem o dom de abrigar aqueles que se sentiam “estranhos no ninho” em seus lugares de origem. É o caso de Masakatsu Yazaki, de 46 anos. No Japão, ele tinha um grave problema: era um guitarrista especializado em música country americana, gênero que não costuma freqüentar as paradas de sucesso nipônicas. Pensou em se mudar para os Estados Unidos para tentar a sorte por lá, mas achou que dificilmente alcançaria o estrelato cantando Oh. Susanna em japonês. Mudou-se, então, para Yuba, onde passa o dia tocando antigos sucessos country no lugar mais apropriado para isso: uma fazenda. “Descobri, aqui, que minha vida poderia ser mais do que música”, diz Masakatsu, que, quando não está tocando, exerce o ofício de sapateiro da comunidade. A essa segunda geração de Yuba se juntam os moradores antigos, como Kinsuke Minowa, de 80 anos. Ele conheceu o patriarca Issamu Yuba nos campos de beisebol – esporte que até hoje é exaustivamente praticado na comunidade -, ajudou a fundar a fazenda e hoje divide seu tempo podando as goiabeiras e escrevendo haicais – um gênero de poesia tradicional japonês. “Não conseguiria viver em nenhum outro lugar, pois desaprendi como é que se conta dinheiro”, brinca. “Aprendi, com o tempo, que podar goiabeiras exige tanta arte quanto escrever poemas, e nisso consiste minha sabedoria”, ensina, resumindo numa frase a filosofia de Yuba – um lugar onde o sol quente do oeste do Estado de São Paulo e a luz dos refletores iluminam, na vida e na arte, duas faces de um mesmo sonho.

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