Medo de Voar

Quando o medo de voar é superado pelo prazer de viajar.

A aerofobia é um mal que ainda afeta quase metade dos brasileiros – mesmo com todas as facilidades de se voar hoje em dia. Por meio de relatos de pessoas, que gostam e odeiam entrar dentro de um avião, dá para saber qual escolha traz mais benefícios

VICTOR AFFONSO

A primeira vez que Raniel Almeida colocou pés em um avião foi aos 21 anos, em 2012. O estudante amazonense por anos alimentou a vontade de viajar mas, por seus pais estarem sempre ocupados e não o deixarem viajar sozinho – pela preocupação paternal que lhes é natural –, a oportunidade nunca havia surgido. “Sempre soube que não teria medo”, afirma, revelando um sorriso raro no canto da boca. “Mas mesmo assim senti aquele friozinho na barriga na hora de levantar voo”, acrescenta, sem saber explicar ao certo se a sensação se deu pela pressurização ou ansiedade.

O relato de Raniel mostra um típico passageiro de vôos aéreos brasileiro, ávido por conhecer o país e o mundo e utilizando as companhias nacionais para chegar aos destinos, muitas vezes paradisíacos, que aguardam do lado outro lado da porta da aeronave. Mas nem todo mundo consegue ver prazer nesta experiência. O medo de voar ainda impera na mente de brasileiros, como um bloqueio psicológico que os impedem de viver novas experiências.

Caracterizado patologicamente como aerofobia (que, segundo a definição médica e a tradução literal, é o medo mórbido de estar ao ar livre ou exposto a correntes de ar, mas que na crença popular virou “medo de voar de avião”), a síndrome atinge cerca de um terço da população adulta mundial, segundo estudos internacionais. No Brasil, o número é ainda mais alarmante: de acordo com uma pesquisa recente do Ibope, 42% dos brasileiros admitem conviver com a fobia.

Pânico ao voar

É o caso da empresária Waleska Aucar. Nascida em Manaus, Waleska conta que por muitos anos  foi refém do pânico que sente toda vez que entra num avião. Isso até sofrer uma crise depressiva durante sua primeira gravidez, há 23 anos. Ela sabe que o medo está ligado a algum fator psicológico e justamente por isso dá continuidade, ao longo dos anos, a um tratamento psiquiátrico.

Hoje em dia, (o medo) melhorou bastante. Antes, ficava tensa semanas antes da viagem. Cheguei a não conseguir embarcar, lembra a empresária, completando que hoje, ainda com nervosismo e um pouco relutante, consegue viajar.

Segundo a própria Waleska, são várias as coisas que a deixam transtornada, mas nada supera o fato dela não ter controle da situação. “Me sentir na mão de outra pessoa , no caso o piloto, me deixa mal. Ficar presa dentro do avião me deixa com a sensação de que estou sufocada. E ainda tem o fato de que se eu quiser descer do avião, como faço num carro, não vou poder”.

Para cada novo embarque, ela repete a mesma sequência: ela só viaja medicada. Nem Waleska sabe ao certo o que lhe causa tanto medo. Ela afirma que as questões naturais, como tempestades, são horríveis (“Tenho pavor de turbulências”, admite) e ela se pega arrumando desculpas para não embarcar. “Só acredito que consegui quando estou no aeroporto da outra cidade, mas para conseguir chegar lá é muito choro e sofrimento. Me sinto mal por isso, acabo perdendo várias oportunidades”, reflete.

O pior é que sua filha, a mesma da gravidez que lhe trouxe a fobia, mora atualmente no Rio de Janeiro. Waleska comenta que a situação se complica bastante com a distância e a barreira do medo e, em suas palaras, “é o medo do avião brigando com a saudade”. “Fica mais fácil para ela vir, mas faço um esforço e de vez em quando vou também. Ela sabe o quanto me custa”, diz, forçando um sorriso – que no fundo se percebe ser verdadeiro.

Ao mesmo tempo em que luta com seus demônios internos, Waleska sabe a recompensa que viajar traz à pessoa. Quando chega ao destino, aproveita ao máximo e vê que vale a pena, mesmo sem esquecer o quanto lhe custou estar ali. “Procuro não pensar na viagem de volta”, brinca, entre risadas, antes de completar com a típica frase de um viajante nato: “Querendo ou não, viagens abrem o horizonte”.

Confrontando o medo

Para a psicóloga Feb Stabnow, o medo é um sentimento necessário porque nos torna prudentes. No entanto, por ser um sentimento de grande inquietação, problemas surgem quando esse medo toma grandes proporções, causando sofrimentos, prejudicando a vida, os relacionamentos, o bem-estar pessoal e/ou a carreira do indivíduo.

“Dessa forma, estamos diante de um medo exacerbado, imaginário ou real, que termina acaba causando transtornos na vida da pessoa e, por esse motivo, vem sempre associado a outros fatores, como a insegurança, a baixa auto-estima e a depressão, além dos sintomas físicos como a sudorese, taquicardia e respiração ofegante”, explica. É nesse estágio que o medo deixa de ser um sentimento primário para se tornar uma fobia, necessitando assim, de acordo com Stabenow, de atenção e cuidados profissionais. O problema não consiste em sentir medo e sim, em saber administrar esse medo, comenta.

Diferente do que comumente se pensa, os traumas nem sempre têm grande influência no desenvolvimento das fobias. A psicóloga afirma que nem sempre as pessoas que possuem medo de viajar de avião sofreram alguma experiência traumática em suas viagens que pudesse justificar a fobia de voar.

Não são raros os casos em que determinadas fobias escondem outros medos – é o que chamamos de transferência. É preciso investigar através de psicoterapia a origem disso tudo. A predisposição genética, o ambiente com constantes informações sobre acidentes envolvendo aviões, a educação recebida e a modelação (quando se têm por referência um pai, por exemplo, que possui fobia) são fatores que contribuem para o desenvolvimento das mais variadas fobias, informa. Como são muitas as variáveis, a melhor forma de evitar a instalação da fobia consiste em simplesmente condicionar a mente a reagir como gostaria que reagisse.

Admitir que têm medo e procurar ajuda profissional é o primeiro passo quando a fobia já está instalada. Minha experiência com pacientes que possuem medo de viajar de avião demonstra que só em falar ou pensar sobre o medo os sintomas já se apresentam, completa.

Seja como for, existem práticas psicoterápicas eficazes que ajudão no tratamento, como técnicas de controle da ansiedade; a dessensibilização sistemática, na qual o paciente gradativamente vai aprendendo a lidar com o medo até enfrentar a situação temida; técnicas de relaxamento, especialmente antes de enfrentar a situação que causa medo, e por aí vai.

A psicóloga, porém, não descarata a inclusão de medicamentos tranqüilizantes nas fases iniciais do tratamento, como tranqüilizantes e ansiolíticos, que não devem se tornar válvulas de escape mas sim servir de apoio para o acompanhamento psicoterápico. “Além disso, esclarecer as funções básicas desse meio de transporte seguro – o avião, e o que ocorre nas aeronaves em procedimentos de vôo, são ações importantíssimas para que o paciente adquira maior segurança”, finaliza.

Cidadãos do mundo

Em exemplo totalmente contrário ao de Waleska e dos pacientes de Feb Stabnow estão os irmãos Ademar e Adriana Britto, de 23 e 25 anos, respectivamente. Desde pequenos estão acostumados a viajar e já conhecem grande porção do globo. “Visitar outros lugares é, sem dúvida, algo prazeroso, como assistir um filme, comer uma boa comida… Isso me faz uma pessoa mais feliz”, diz, afirmando não ser um entusiasta da rotina do dia a dia.

Para ele, estudante de medicina na Universidade do Estado do Amazonas, viajar lhe garante um novo olhar sobre as coisas. Ele sabe a tentação que o comodismo oferece e, muitas vezes, nem mesmo percebe o quanto pode estar estagnado quando as pessoas ao redor agem de forma semelhante à sua. “Ver outras pessoas ou culturas nos leva a refletir sobre as nossas atitudes, tanto boas quanto ruins. Após uma viagem, você nunca mais é o mesmo”, filosofa, acrescentando que vê na viagem uma espécie de psicoterapia

Ademar é rápido quando o assunto é medo de avião. “Não tenho. Ao chegar no aeroporto, vejo a relação dos vôos que chegam e saem, multiplico por uma infinidade de aeroportos que existem no mundo e lembro que não são tão frequentes assim os acidentes – se bem que para fobia explicação lógica nao se encaixa”, justifica, às gargalhadas.

O pensamento de sua irmã não é muito diferente. “Quem não gosta de viajar?! Traz conhecimento, cultura e ainda enriquece a vida e a alma”, acredita Adriana, dizendo que isso agrega oportunidades conhecimentos e boas lembranças que ficam marcadas para o resto da vida.

Ela, que viaja entre 10 e 15 vezes ao ano (“Adoro litorais!”, exclama), ressalta que viagens acabam por transformar a personalidade das pessoas, pelas oportunidades únicas de se ver em situações bem diferentes do cotidiano. Mas, há algum lado negativo nessa história toda? “Financeiro”, responde Adriana, rindo. E ela continua: “Somando Somando as últimas viagens, dava pra fazer um investimento a longo prazo, como um carro, mas como eu disse antes, viajar enriquece a alma, vejo como um autoinvestimento”, declara.

Quando perguntada como seria sua vida sem essas viagens, ela nem hesita ao dizer: “Nem consigo imaginar, já sou cidadã do mundo”. E uma dica que dariam para uma pessoa que tem medo de avião e, consequentemente, de voar? Ademar volta à conversa e, mesmo sendo uma realidade desconhecida na sua família, dá o recado: “O mundo é tao grande, há tantos lugares para se visitar, coisas a fazer, comidas a provar, pessoas a conhecer, que ficar na própria cidade é se privar de um prazer inigualável. Então talvez se forçar a viajar de avião pode valer a pena.

Talvez ir com uma pessoa que você confie, marcando o assento dela ao seu lado, levando um terço e fazendo uma ‘fezinha’, ajude a superar esse momento”.

vasp crewP.S-Essa experiência com uma velhinha rezando terço e dizendo que íamos todos morrer, tivemos num voo Vasp 375 ,quando autorizamos um mecânico em férias viajando com a mãe  a ficar com ela na cabine de passageiros ,trocando o lugar dele no Jump Seat com alguém que quisesse  viajar na cabine.Aguardamos Brasilia abrir, fechado por Chuva Pesada, Trovoada e Wind Shear momentaneamente e tranquilizando a Velhinha.

Pouso normal com chuva,assustador para quem não conhece…..

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