O FILHO da VASP

13/10/13 05:15 – Geral

Entrevista da semana: Vicente Afonso Filho

Aluno do Aeroclube de Bauru, o piloto de aviação comercial conta as histórias de 22 anos como piloto na extinta Vasp

Nélson Gonçalves/Douglas Reis

Piloto trabalhou 22 anos na Vasp: muitas lembranças

Ele nasceu na vizinha Pederneiras, mas desde menino frequenta Bauru, onde, na escola de formação do Aeroclube, aprendeu as primeiras lições para desbravar o céu em voo de cruzeiro. O aprendizado na escola tradicional com planadores lhe garantiu emprego em teste na antiga Viação Aérea de São Paulo (Vasp), onde trabalhou por 22 anos.

Aposentado, Vicente Afonso Filho fala sobre sua trajetória e revela curiosidades do universo da aviação, tratando de desmistificar o medo de voar, ainda presente entre muitos leigos. “A aviação é minha cachaça. Eu não tenho a menor ideia do que eu teria feito se não tivesse sido piloto. Até hoje, mesmo depois de me aposentar, eu convivo todos os dias com planos de voo, agora claro em meu simulador pelo computador…”

O JC recebeu Vicente no espaço Café com Política na última sexta-feira para uma conversa bem-humorada, mas sobretudo, apaixonada pela vocação de pilotar aviões:

Jornal da Cidade – Qual sua lembrança da infância em Pederneiras?

Vicente Afonso Filho – Eu andava por sítios, fazendas, andei muito entre pomares, comi muita fruta no pé e nadei com frequência, quando menino, no rio Tietê. Meus pais tinham um comércio e eu fui ter contato com Bauru já direto no Aeroclube de Bauru, que foi minha escola de aviação. Foi lá que aprendi meus passos, meus segredos iniciais, começando pelo planador. Mas desde cedo eu sempre preferi o avião e fiz um curso de pilotagem para avião também no Aeroclube de Bauru. Naquela época não existia escolas como hoje. A gente estudava sozinho com um manual do que era ensinado na escola. Eu gostei tanto e fui tão bem que saí do Aeroclube com a formação e já entrei na Vasp, direto, com um concurso com três provas na época.

JC – O senhor se lembra da sensação do primeiro voo?

Vicente – Ah, claro, mas ainda como aluno. É aquele momento em que você tem vontade de ser piloto, mas não sabe se leva jeito para aquilo. Então aconteceu que eu entrei no avião e me lembro como se fosse aqui, agora. O instrutor orientou sobre a vistoria necessária, a inspeção por fora na aeronave, para ver, sempre antes de decolar, como está a olho nu a asa, os pneus, a situação externa da aeronave. Ai, quando decolou aqui no Aeroclube de Bauru, o professor disse para que segurar os comandos e pilotar. Aí eu disse a ele: É isso que eu quero fazer! Uma sensação de identificação com o que eu queria fazer na vida na hora, no instante.

JC – E o primeiro voo na aviação comercial foi uma surpresa?

Vicente – Nossa, nem fale. Eu entrei de copiloto de uma aeronave DC 3. Depois de passar a fase pela escola, você faz os testes e ai vai ter o contato com o avião. Vai observar voos. Eu tinha tido contato aqui em Bauru apenas com um avião Paulistinha. E logo no meu primeiro voo estava lá com o gigante DC 3, em Campinas. Foi uma turma no primeiro voo. Decolamos foi uma maravilha. Depois que acompanhei a decolagem da cabine, fui sentar lá atrás. Olhei o motor de um lado e achei estranho o ruído. Como estava lá esperando o teste dos outros, fui do outro lado e olhei o outro motor. Naquele tempo dava pra olhar o motor e um deles estava avermelhado em um ponto e o outro não tinha isso. Decidi levantar e comentar com os pilotos que estavam lá. Um deles veio rápido olhar e voltou correndo para falar para o comandante que o motor estava com alta temperatura em fase inicial de incêndio. Nunca mais esqueci; no primeiro dia de teste um motor estava com o gerador pegando fogo.

JC – Mas o senhor foi aprovado e trabalhou na Vasp por 22 anos, até aposentar. E o primeiro voo como piloto, ainda se recorda?

Vicente – Lembro sim, foi na rota Goiânia para Santa Terezinha (MT). A gente fazia muito o interior de Goiânia, do Araguaia, do Mato Grosso. O voo comercial já era forte nesses locais. O voo fazia escala em Santa Isabel do Morro e já tinha clientela nessa linha que era a Rede de Integração Nacional, com o governo subvencionando uma parte do valor das passagens, para que esses brasileiros tivessem acesso a muitas cidades, porque não havia estradas nessa região. A minha carreira toda foi na Vasp. Com 25 anos de aviação o piloto já se aposenta. Foi assim até meu período, agora, neste momento, pode ter mudado algo. O piloto tem de ter visão muito boa e não pode ter problemas mais graves, como ser cardiáco por exemplo.

JC –  Com tanto tempo no ar, o senhor tem algum problema que teve de enfrentar em voo para contar?

Vicente – Eu estava fazendo a rota Rio de Janeiro-Ribeirão Preto, à noite e com chuva. Ao passar perto de São José dos Campos, vi que acendeu a luz da bateria no painel. Eu pedi para o copiloto fazer o check-list. O procedimento mandava desligar a bateria e informava que dentro de dois minutos a temperatura tinha de cair um grau pelo menos. Foi feito o procedimento e deu três minutos e a temperatura não mudou. Eu acionei a torre em São José dos Campos e o controle autorizou o pouso emergencial lá. Mas logo em seguida o controle de lá disse que o aeroporto lá também fechou. Eu me vi em aperto. Ai a saída era ir pra São Paulo. Pedi uma emergência e consegui pousar em São Paulo, mesmo sob chuva. Os passageiros saíram graças a Deus em segurança e não houve problema. A bateria foi desativada. Mas é uma tensão na hora que precisa ser administrada.

JC – O que realmente acontece em uma turbulência, que amedronta muito o leigo que não conhece de aviação? Há pouco aconteceu um caso no voo Madri-São Paulo e foi muito forte a turbulência…

Vicente – Olha, turbulência faz parte do mau tempo e às vezes até com céu claro acontece. E às vezes é forte mesmo, mas não derruba aeronave não. Machuca, sim, passageiro ou tripulante, como aconteceu no voo de Madri na Espanha vindo pra São Paulo, porque algumas pessoas estavam sem cinto de segurança na hora do evento. A turbulência é uma corrente de ar subindo e outra descendo. Esse encontro, no núcleo, é que faz esse movimento brusco. A sensação do passageiro é que o avião caiu, quase afundou e depois voltou. Mas na verdade não é isso que acontece. O avião, na verdade, primeiro sobe e só depois ele desce, no movimento da turbulência. E esse desequilíbrio, essa instabilidade momentânea que causa esse efeito que amedronta as pessoas.

JC – Todas as turbulências são evitáveis?

Vicente – Sim, hoje os equipamentos de uma aeronave são muito modernos e há precisão na antecipação da turbulência. Mas acontece que o procedimento de desvio é para tirar a aeronave do núcleo da turbulência, mas ao seu redor os efeitos continuam. E nessa circunstância, o passageiro parece que está em uma montanha russa gigante e vai bater a cabeça no teto se não estiver com cinto. O radar consegue detectar isso e o núcleo da tempestade gera coordenadas e é feito o desvio. A chuva em si não atrapalha, mas esse encontro entre uma massa de ar que sobe e outra que desce é que gera o problema. Mas as pessoas não precisam se preocupar com turbulência, não. Basta ficar com o cinto. Em um voo, a decolagem é o maior problema a ser enfrentado por um piloto e não uma turbulência. Se você perde um motor, há procedimentos seguros que precisam ser executados com agilidade para que a aeronave complete a decolagem para depois retornar, se for preciso. E se o avião perde um motor, a situação operacional hoje permite perfeitamente completar a decolagem com apenas um motor. É questão de procedimento correto e perícia do piloto. Quando o piloto decola ele já sabe tudo o que precisa fazer se um motor falhar.

JC – O que o senhor gosta de fazer como passatempo, ou agora fora da cabine de um avião?

Vicente – Mesmo aposentado não me desligo da aviação. Instalei um simulador pelo computador e continuo pilotando de forma virtual em casa. Eu instalei um programa para um Boeing 737 através de uma rede online e fico brincando de voar. E isso é feito na internet com regras rígidas de procedimento e nos mesmos padrões normais da aviação. Eu já tenho 2.000 horas de voo na frente do computador (risos). E vou continuar pilotando porque a aviação é minha cachaça. Eu não consigo viver sem ela.

JC – O que o senhor pensa da era dos pilotos automáticos nas aeronaves?

Vicente – Ah, hoje tudo é muito mais simples para o piloto e com muita tecnologia. Ele programa a aeronave com rota e parâmetros ainda no solo e na decolagem praticamente aperta somente três botões e o resto é a máquina é quem faz. Aperta o piloto automático, a navegação vertical e navegação lateral e não faz mais nada, basicamente. Claro, eu digo operacionalmente. O piloto fica claro com um olho no padre e outro na missa. Mas não precisa ficar pegando em equipamentos. Hoje mudou completamente. Na parte estrutural da aeronave mudou muito pouco. Mas basta olhar o painel de hoje para ver que mudou radicalmente. Aquele monte de relógios não existem mais como imagem.

Perfil-Nome: Vicente Afonso Filho

Profissão- piloto de aviação,

Nasceu- em Pederneiras

Filhos- George e Marília Esposa-Lygia Martha Salles Afonso

Time- não tem

Livro- Manual da aviação Filme- E o Vento Levou

Nota 10- Papa Francisco,

Nota 0- Política brasileira

Passatempo- Navegação virtual de aeronave

P.S-Precisava entrevista-lo de novo e faze-lo contar suas Estorias no DC-3( deve achar que esquecemos..).Acho que a estoria foi com ele :Voando de Bandeirante ate Belem,tinha uma cidadezinha com uns passageiros frequentes muito folgados que esperavam o o avião passar para ir ao aeroporto e sempre dava atraso.Aproveitaram que o Bandeco estava vazio,vieram rasante pelo rio Araguaia e pousaram fazendo o minimo de barulho.Quando deu o horario  passaram pela cidade deixando todo mundo surpreso,depois disso começaram a chegar mais cedo,rs.

Me lembra meu primeiro voo,tambem, como observador,num fretamento de São Luis a Brasilia, pousamos em emergência com indicação falsa de bequilha unlocked no Brega.

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