A Turma de 73-Missão Cumprida

430820_294976877224347_2055850348_nEdson Antonio Ferreira Matosinho nasceu em Ourinhos, sudoeste de São Paulo, no dia 23 de dezembro de 1951. Aos 61 anos, vive com a esposa Shirley, em São Paulo, cidade que adotou, no bairro do Morumbi, e seus filhos, Diogo, Hugo e Ester, moram em Campinas. Ele tem, ainda, uma neta, Marina, de quatro anos. Hoje é aposentado na Aviação, na extinta Companhia Aérea Vasp, sua paixão desde os tempos do Curso, em 1973, para formação profissional de comissário de voo, no Centro de Treinamento Vasp/Senai, na Rua Sebastião Paes, Campo Belo, que ele lamenta estar abandonado. Matosinho diz que hoje é um fiscal da natureza e passa seu tempo relendo os autores que admira, como Drumond, Lobato, Quintana, Amado, Gullar, Ubaldo e outros, lendo jornais e revistas, ouvindo MPB, música latino-americana,”fuçando” na Internet e indo no mínimo uma vez por semana no Balneário, onde faz saunas, massagem e toma banhos e duchas. Entre um livro e outro, um post e outro em seu blog (blogdomatosinho.zip.net), Edson Matosinho nos concedeu uma entrevista cheia de recordações. Ele é um dos organizadores de uma festa que vai reunir a turma do curso de comissários de bordo da Vasp de 1973, que completa 40 anos de formatura.

COMISSÁRIO MANIA (CM) – Como você decidiu ser comissário? O que levou você a seguir esta carreira 40 anos atrás?

EDSON MATOSINHO (EM) – Foi por acaso. Desde pequeno gostava da Aviação e só conhecia, além do Paulistinha do Aeroclube de Ourinhos, o DC3 na lata de manteiga Aviação, avião que, segundo meus

untitledpais, andei ainda quando estava no útero de minha mãe, de Ourinhos / Assis / Ourinhos, isto em 1951, pela Vasp. Em 1972, já estudando e trabalhando em São Paulo, fazendo o chamado Cursinho pré-vestibular. Queria fazer jornalismo e, num domingo, folheando o Caderno Empregos do jornal “Estadão”, me deparei com o anúncio da Vasp recrutando Comissários Estagiários e me interessei, talvez para satisfazer um sonho de infância. Já na segunda-feira me apresentei para a seleção e, após exames e testes, passei e fiquei aguardando o início do Curso, que só veio a ocorrer em 1973, devido ao atraso na chegada dos Boeing 737 que a Vasp havia comprado.

CM – Há 40 anos, a aviação no Brasil era muito diferente. Viajar de avião era para poucos. Havia um glamour em torno da profissão de comissário de bordo? Como era essa época?

EM – Esta sua abordagem de glamour na Aviação era propaganda das empresas aéreas em seus anúncios no rádio, televisão, jornais e revistas. Na realidade começei a trabalhar no lengendário Douglas DC3 efetuando voos de Integração Nacional, no Centro-Oeste, Oeste e Norte do País, saindo de Brasília, Goiânia e Cuiabá, para Vilhena, Porto Velho, Rio Branco, Aragarças, Jataí, Conceição do Araguaia, Ilha do Bananal, São Luís, Porto Velho, Rio Branco, etc. Só havia a pista, a maioria de terra, e uma pequena estação de passageiros e apenas 1 comissário no avião, que além dos pilotos tinha o rádio operador, o mecânico no voo e despachante. Era o comissário que fazia a distribuição de cargas nos porões, o chamado Peso e Balanceamento, de acordo com o CG (centro de gravidade) do avião e tinha que ficar de olho-vivo porque muitas vezes os Agentes colocavam o peso nos pacotes e malotes a menos para poder levar maior número de volumes, porque o avião só passava duas vezes por semana, uma indo e outra retornando.

samurai

Voávamos também no YS-11A-Samurai (acima na foto) e Viscount 827, que além da Ponte Aérea Congonhas / Aeroporto Santos Dumont / Congonhas, fazia Bauru, Presidente Prudente, Campo Grande, Ponta Porã, Dourados, Cuiabá, Corumbá, Altamira, Ituiutaba, Santarém, São Luís, Belém, etc., e voávamos em torno de 100 horas mensais.

PT-SMA-na-Boeing-300x170Nos primeiros jatos puro a operar no Brasil, One-eleven 500 e o Boeing 737 2A1, que era o avião top da Companhia, o serviço de bordo era sofisticado em todas as etapas. No solo os comissários das galleys tinham que deixar pré-pronto o material que iriam usar nos carrinhos de bebidas e os serviços nas bandejas eram distribuidos colocando em cada uma os pratos quentes e enchendo as xícaras de caldo quente, que invariávelmente eram servidos ora com refeição, ora com salgadinhos. Para isso precisavam “correr” assim que o avião deixava o chão e o comandante desligasse os avisos de apertar cintos. Ainda no taxi se fazia a demonstração de segurança, passava o carrinho com jornais e revistas, balas.

nostal60-248x300Nos jatos se usava prataria e copos de vidros e nos chamados voos nobres, ainda no taxi, se distribuía champanhes e, além das bebidas tradicionais, fazia-se coquetel e passava o café com xícaras de porcelana e digestivos.

CM – Para você, o que mais mudou na profissão?

EM – Esta sua pergunta é fundamental nesta entrevista, pois foi a partir de 1980 que os comissários começaram a participar efetivamente das Associações Profissionais nas Empresas e no Sindicato Nacional dos Aeronautas e tiveram o seu valor profissional verdadeiramente reconhecido. Graças à mobilização efetiva dos comissários na prioridade da segurança da função a bordo, com técnicas internacionais adotadas em emergencias, imprescíndivel no voo e as mudanças de mentalidade da nova geração de tripulantes, das Convenções Coletivas Intersindicais e Acordos Sindicato / Empresa, obtivemos verdadeiros avanços sociais e salariais, como unificação de pagamentos para os comissários quilometristas e horistas, acomodação individual, uniforme de verão, etc, e a conquista da categoria de Aeronautas da Nova na Regulamentação Profissional, a partir de abril de 1984. Cabe ressaltar que hoje estamos atravessando área de turbulências no quesito segurança na aeronave, com a diminuição do número de tripulante de cabine de passageiros (comissários), imposta pelas empresas em conivência com o poder público concessionário do transporte aéreo, a inconsequente ANAC, subordinada a Secretaria de Aviação Civil, que enxerga no passageiro apenas um cliente para obter maior lucro na atividade, e com a diminuição da tripulação, para satisfazer o poder econômico com maior lucro possível, mesmo pondo em riscos vidas humanas.

CM – Você está organizando um encontro de 40 anos de formados de comissários da Vasp. O interessante é o nome da festa: Vasp, a chama que não se apaga. Como é esse sentimento?

183436_468330716531688_1782272705_nEM – Na verdade a mim coube somente agrupar e resgatar os nomes dos formandos de comissários da Turma de 1973, da qual faço parte, pois a anual “Festa: Vasp, a chama que não se apaga” é comemorada na Vasp há alguns anos, hora no Rio, hora em São Paulo. Começou a partir de 1983 e é patrocinada pelo Sindicato e Associações de Empresas Áereas, intitulada “A FESTA É NOSSA!!!”, para comemorar o Dia dos Comissários de Voo, 31 de Maio, dia da fundação da IFAA (Associação Internacional dos Comissários de Voo), a partir de um Congresso Internacional de Comissários de Voo, ocorrido no Rio de Janeiro, patrocinado pela Varig, denominado CONCOV, nos idos de 80, onde participou representantes de todo o mundo, inclusive da antiga união Soviética – URSS. O sentimento de reencontrar os antigos comissários estagiários de 1973 é de missão cumprida, como era chamado o documento que seguia com o comissário no avião, Missão de Voo, apelidado de Missão Impossível.

CM – A festa pretende reunir uma turma de 95 comissários. Você ainda mantém contato?

EM – Temos relacionados até agora, 96 comissários formados pela Vasp/Senai e três formados pela Escolinha da Varig no Rio de Janeiro, lista ainda parcial. Mantenho contato com a maioria, principalmente com aqueles que ficaram até a aposentadoria. Porém muitos após “pendurarem” a bandeja, vivem hoje em outras cidades e ou países. Saliento que a Festa “Vasp, A Chama Que Não se Acaba” é um encontro de vaspeanos e amigos e que a comemoração do quadragésimo ano de formatura da Turma de 1973 está no bojo deste evento maior, porque quem pode o mais, pode o menos.

CM – Ser comissário de bordo é profissão e também é sonho para muitos jovens. Que mensagem de incentivo você pode deixar para os que buscam realizar esse sonho e os que estão no início dessa carreira?

EM – Com a atual política das Empresas Aéreas em desvalorizar a profissão, descaracterizando o comissário de voo como Técnico em Segurança no Avião e acabando com as gratificações no equipamento e de funções como Instrutor de Base, Instrutor de Voo, Chefe de Equipe, Chefe de Cabine e Auxiliar, que na minha época formavam a estrutura do Quadro de Carreira, vejo dificuldade para os aeronautas como um todo. Para ser Profissional de Aviação não basta somente gostar de voar, tem de ter incentivos, boas condições de salário e de trabalho, e a perspectiva é de piorar, com o empenho das Chefias em se mudar a Regulamentação Profissional dos Aeronautas. Os atuais Dirigentes da Aviação, em busca do lucro, tudo fazem para atender os interesses econômicos dos acionistas, donos do capital da empresa, e para isso na planilha de custos cortam despesas em cima dos trabalhadores.

Sou sincero nas repostas e, apesar do que relato, creio que ser aviador é uma profissão belíssima, independente da função a bordo. É uma verdadeira “cachaça”. A profissão é povoada por pessoas inteligentes, simpáticas e aventureiras, no sentido exato da palavra. E se pudesse faria tudo novamente, inclusive participando e militando na Associação de Tripulantes e / ou no Sindicato Nacional dos Aeronautas, para contribuir na melhoria das condições de trabalho e de salário de todos os Aeronautas.

Edson Matosinho divulga em seu Blog e em rede social a lista parcial da turma de comissários de 1973 formada na escola VASP/Senai, cuja coordenadora foi a comissária e instrutora Dona Inês e que teve, entre outros, os instrutores Jaime (motores), Pivello (regulamentos), Falcão (meteorologia), Peter (peso e balançeamento), Dr. Catel (primeiros – socorros). Segue a lista de formandos:

ALBA, ALINE, ANALICE, ASSUNÇÃO, BAGGIO, BARROS, BERTA, BIA, BIANCA, BIANCHINI, BISPO, BITTENCOURT, BECKER, BONFIGLIOLI, BRENNER (In memoriam), BUGNI, CAMACHO, CASSONI, CRISTINA, CÉLIA, CLÉO, CLAYTON, CRUZ, DAIMON, DALVA, DALISE (In memoriam), FRANCO, GARABED (In memoriam), GAZETTA (In memoriam), GIL, GIMENES, GRAÇA, GRACE, IBERÊ, INGO, IVAN, IVONE, IVY, JADSON, JANICE, JOABE, JOÃO, JOCAFI, LEÇA, LECY, LINDAURA, LÚ, MARCEL, MARILDA, MARLENE, MARISTELA, MATOSINHO, MAY, MAZONI, MÁXIMO, MEIRE, MELISSA, MERINO, MICHEL, MONTEIRO (In memoriam), NAIR, NANCY, NARBOT, NEIDE, NELSON, NIKOLAS, NUNES, PAZIAM, PERES, PORTO, PROENÇA, ROSA, ROSANGELA, ROSELY, RIZZO, SABRINA, SAMIRA, SARA, SHIOMI, SOLIMAR ( In memoriam), SUELY, TAMBERLINI, TATO, TEODORO, TOLOSA, ÚRSULA, VALDIR, VERA, VESPER, YARA

Por Tatiana Caputo para Comissário Mania

Tatiana Caputo é jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco com pós-graduação em Propaganda e Marketing pela UFPEP.

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