Parece que eu vi uma Galinha…Voando.

Postagem especial da Semana da Criança

By Bob Costa

Sou ex-comissário da década de 1970, finzinho da era do DC-3, o bimotor a pistão e gasolina, não pressurizado, excedente americano da Segunda Guerra, que serviu para desbravar o Centro-oeste, a Amazônia e os mais distantes rincões do Brasil. Voei nos DC-3 da VASP – Viação Aérea São Paulo — que faziam parte da RIN — Rede de Integração Nacional — que era subvencionada pelo governo, levando malotes de correio, dinheiro para bancos, remédios urgentes, encomendas, etc. Pousávamos em pistas de terra e cascalho, às vezes em campos da Funai, e até em clareiras na mata quando tínhamos uma emergência. Os DC-3 da VASP levavam 28 passageiros, o comandante, o co-piloto, o comissário e um rádio-operador telegrafista.
Galinha Doidona…
O caso da Galinha Voadora não aconteceu comigo, mas com o colega gaúcho Clóvis Stênio, conhecido entre nós como ‘Marreco’.Ele apareceu lá no meu apartamento à noite, rindo, rindo, mas rindo tanto, que precisei esperar até que ele se acalmasse para poder contar o que havia acontecido. Sentado no tapete da sala, o ‘Marreco’, ainda soluçando de tanto rir, começou a contar o caso que tinha acabado de vivenciar.
Uma velhinha, sentada à janela do DC-3, no início dos anos setenta, chamou o comissário:
– Moço! Moço! Olha! Tem uma galinha aí fora voando ao lado do avião!
– Não pode ser, minha senhora –respondeu o comissário —. Uma galinha não conseguiria voar tão alto nem acompanhar a velocidade do avião!
– Mas eu vi! Ela chegou a bater as asas aqui na janela! — replicou a mulher idosa, com convicção, sob o olhar espantado de todos os passageiros.
– Senhora, acalme-se. Não pode ter uma galinha aí fora seguindo o avião…
Com o espanto de todos os passageiros, o comissário entrou na cabine de comando e foi dizendo ao comandante:
– Comandante, tem uma velhinha “lá trás” insistindo que tem uma galinha aí fora voando e seguindo o nosso avião!
– Olha, não esquenta muito não. Isso pode ser coisa da idade. Deixa pra lá. Mas fique de olho nela para acalmá-la, certo?
– Certo, comandante.
Voltando para a cabine de passageiros, o comissário ‘Marreco’ ficou atento. O vôo prosseguiu. Não levou muito tempo e…
– Comissário! Comissário! Lá está ela. Veja, olha lá, ó! Batendo as asas!
Ouve certo tumulto no avião. O Marreco foi de volta até o comandante e repetiu a história. O comandante, então, deu a seguinte instrução:
– Façamos o seguinte, comissário. Dê um jeito de sentar-se ao lado da velhinha. Fique esperando acontecer. Se a tal galinha voadora aparecer de novo na janela, e você também enxergá-la lá fora, aí você volta aqui e me conta essa história direito, está bem assim?
– Combinado, comandante.
O Comissário Marreco voltou para a cabine de passageiros. A poltrona ao lado da velhinha estava vazia e ele pediu permissão para sentar-se ali e, assim, o vôo prosseguiu em paz, até que…
O comissário e a senhora deram um salto. Do lado de fora da janela, uma galinha batia asas, fazendo muito esforço para acompanhar o DC-3. O Marreco saiu correndo para a cabine de comando, abriu a porta atrás dos pilotos e foi dizendo, assustado:
– Comandante! Comandante! Agora fui eu que vi a galinha. A velha não estava doida não! Eu vi com meus próprios olhos! EU VI!
O Marreco ainda estava acabando de falar, bem exaltado, com os olhos arregalados, quando o comandante abriu um pouco a janelinha do avião ao seu lado, fazendo-a correr sobre os trilhos. Em seguida, o comandante começou a recolher um longo barbante que vinha do lado de fora do avião. Depois de enrolar um pedaço na mão, surgiu na janela, amarrada à ponta do barbante, uma galinha morta que o comandante havia lançado pela janela da cabine para dar um trote no comissário calouro e novato e talvez brincar um pouco com os passageiros.
Vendo aquela traquinagem do comandante, o Comissário Marreco voltou ao seu posto de comissário na cabine de passageiros e ninguém mais viu a tal galinha voadora naquele avião.
Como isso aconteceu nos idos de 1971, o Marreco deve estar rindo até hoje, e eu com ele, e todos nós também, com certeza. Quanto ao trote que deram em mim nos meus primeiros voos, deixo para contar em outro dia…
É a eterna criança que há dentro de todos nós…
Esse post foi publicado em Historias da Aviação, VASP. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Parece que eu vi uma Galinha…Voando.

  1. Ana Paula da Silva Oliveira disse:

    Bom dia! Muito bom manter esse espírito de alegria. Gostaria de saber se tem notícia do comissário Clóvis(Marreco)?

    • Boa Noite !Infelizmente voei na Década 80/90 e não tive o prazer de conhece-lo,mas esse bom humor era a característica do grupo,que ate hoje mantem encontros anuais com a Chama que não se Apaga.um abraço

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