O Caparaó que parou a Ponte da Freguesia do ó

Estado de São Paulo – 10/04/80

Lá ia o velho Vasp DC-3. Aí surgiu uma ponte.

Na última viagem do avião, um problema na marginal: a ponte da Freguesia do ó.

Suando muito sob o sol forte, dona Maria Lucia batia o pé direito no chão, olhava para o grande avião pousado no canteiro central da marginal direita do Tietê, perto da ponte da Freguesia do ó (sentido Penha-Lapa) e, com as mãos na cintura, comentava com seu sotaque italiano:

– Mas essa ponte é azarada mesmo. Numa cidade deste tamanho, tinha que cair um avião logo aqui – dizia ela, lembrando os transtornos causados por uma erosão sob a ponte, em novembro do ano passado, e as avarias causadas na sua estrutura por dois caminhões muito altos que não conseguiram passar sob a ponte, na semana passada.

Mas nenhum dos milhares de curiosos que causaram congestionamentos de até dois quilômetros ao longo da marginal, conseguiu acertar o motivo da presença do avião em local tão inesperado. E uma expressão decepcionada se formava nos rostos quando alguém Informava que não se tratava de queda, pouso de emergência, acidente com o piloto ou qualquer outra “tragédia”.

O velho Douglas DC-3, que pertenceu à Vasp, estava realizando sua última viagem, impossível de ser feita pelo ar: ele saiu do Campo de Marte, em direção à Fundação Museu de Tecnologia de São Paulo, ao qual foi doado, e cuja sede – em fase de conclusão – fica na marginal do Pinheiros, perto da Cidade Universitária.

Para poder ser transportado, o DC-3 teve suas asas, hélices e parte dos lemes desmontados e colocados sobre uma carreta, que deveria rebocar o avião seguindo pelas avenidas Santos Dumont, Olavo Fontoura, Brás Leme e marginal do Tietê, passando depois para a marginal do Pinheiros. Nas duas primeiras pontes – Casa Verde e Limão – não houve problemas para a passagem do avião, e o motorista da carreta imaginou que tudo iria bem nas outras. Mas, ao chegar à Ponte da Freguesia do ó, a altura de 4,20 m não foi suficiente, apesar das muitas manobras e tentativas.A esta altura o dia estava quase amanhecendo, e não seria possível solucionar o problema em tempo suficiente para não prejudicar o trânsito da manhã. Por isso, decidiram deixar o DC-3 no canteiro da marginal até a noite, quando seria mais viável prosseguir na travessia. 0 avião passou pela ponte por volta das 23 horas: seus pneus foram parcialmente esvaziados, sua cauda puxada para baixo, e assim ele atravessou o obstáculo e prosseguiu a viagem.

Segundo explicou o ajudante prático da Vasp, Antonio Rodrigues, que acompanhou a viagem, essa decisão foi tomada porque não haveria tempo de contornar a ponte  através da via de trânsito local paralela à marginal, antes do início do tráfego matinal intenso: -0 trânsito ficaria muito prejudicado, porque o avião ocuparia as três faixas da via local.

Assim, a cidade amanheceu com a grande aeronave no meio da marginal, como se ali tivesse pousado. Os sonolentos motoristas arregalavam os olhos diante do avião, sem entender o que acontecia, e os guardas do DSV requisitados para acelerar o tráfego e acompanhar a operação tiveram muito trabalho.

Além das freadas bruscas, e tentativas de estacionar na própria via expressa, alguns motoristas muito curiosos, como não conseguiam ver direito, começaram a sair da marginal, estacionaram nas ruas por perto e voltaram a pé, para saber o que acontecia. Nesse caminho, juntavam-se a eles centenas de moradores das imediações, que ouviram falar do avião – a notícia correu rápida, com muitas versões: alguns diziam que o avião tinha caído; outros falavam em pane e pouso forçado; outros, ainda, diziam que era uma exposição pública gratuita para a população.

Para chegar perto do aparelho, as pessoas – especialmente as crianças – arriscavam-se no trânsito intenso da marginal. Isso levou os engenheiros do DSV a decidir retirar o aparelho do canteiro, guinchando-o até a rua Celestino Euclides Machado, uma travessa da marginal perto da ponte da Freguesia do ó.

O guincho chegou às 13 horas, e vários funcionários da Vasp, que foram chamados ao local ajudaram a colocar o avião de frente para a rua Celestino Euclides Machado. Em seguida, a pista local foi Interditada por alguns minutos, enquanto era feita a travessia. Mas a curiosidade da população mudou de lugar junto com o avião. Durante a tarde, a via expressa apresentava bom trânsito, mas a via local ficou bastante congestionada. As próprias cancelas colocadas pelo DSV para interditar a entrada da rua chamaram ainda mais a atenção dos motoristas, e muitos estacionaram nas proximidades.

Calças desbotadas, sandálias de sola muito gasta, o senhor Antônio Carlos Freitas Sampaio chegou cansado à rua Celesti-no Euclides Machado. Ele veio a pé da Lapa, só para ver o avião, e saiu bastante aborrecido com um funcionário da Vasp, que resolveu “gozá-lo”: vendo que Antônio Carlos pensava tratar-se de um acidente, o funcionário contou-lhe uma história fantástica sobre um piloto que “fez uma manobra muito difícil, conseguiu pousar o avião aqui e saltou por aquele buraco (apontou a porta), fraturou o crânio e quebrou uma perna”.

0 jovem feirante Severino Gonçalves da Silva estava descansando em sua casa no Moinho Velho, depois do almoço, quando viu uma reportagem sobre o avião, na televisão. Não teve dúvidas: calçou os sapatos e andou meia hora a pé, para ver o aparelho. – Ele é tão bonito… eu nunca tinha visto um de perto.

O DC-3 que despertou a admiração dos paulistanos é um aparelho de muitas histórias. Desenvolvido para o transporte das tropas aliadas durante a II Guerra Mundial, o DC-3 foi muito usado pela Vasp quando as hostilidades entre os países impediram a reposição das peças necessárias à frota usada até então, composta por aviões alemães Junkers .

Com capacidade para 28 passageiros, o bimotor foi o responsável pela abertura das principais rotas aéreas no interior do Brasil. 0 DC-3 que estava ontem na marginal prestou serviços à Força Aérea Norte-Americana durante a guerra, sob o número 45-1018. Foi incorporado à Vasp em janeiro de 1946, com o prefixo PP-SPO, e batizado com o nome de Caparaó.

Quando os Visconts e, posteriormente, os Boeings entraram em operação , o Caparaó foi desativado, junto com outros DC-3, e doado à Fundação Projeto Rondon, em julho de 1974, passando a transportar estudantes por todo o Brasil. Em 1975 mudou de prefixo, passando para o atual – PT-KUB -, e recentemente foi desativado pelo Projeto Rondon, sendo novamente doado, desta vez para a Fundação Museu de Tecnologia de São Paulo.

O velho Caparaó, no entanto, ainda pode voar, Segundo explicou o presidente da Fundação Museu de Tecnologia, Francisco de Paula Machado de Campos, ele veio do campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, onde se encontrava, até o Campo de Marte, voando com seus próprios motores.

Rachel Melamet

Recentemente um dos Bregas leiloados da Varig  fez a sua ultima viagem saindo do Salgado Filho,de vez em quando uma aeronave troca de pista..Hoje isso não seria mais possível: desde as obras de ampliação da marginal em 2010, o canteiro gramado não existe mais.

Em tempo: mais de 30 anos depois dessa viagem, o avião fez mais uma, desta vez sem entalar em nenhuma ponte. Hoje ele está exposto no jardim do Palácio das Indústrias, no parque Dom Pedro.

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Uma resposta para O Caparaó que parou a Ponte da Freguesia do ó

  1. André Tezzei disse:

    Sensacional! Obrigado por compartilhar essa história conosco! Fui visitar esse avião quando ele ainda estava no museu da tecnologia, mas desconhecia totalmente essa história!

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