Samurai YS-11 e o Cartão de Embarque cor de Jerimum

Escrito por  Goytá.
Você sabe que está ficando velho quando começa a se lembrar de certos detalhes e percebe quanta diferença existe da realidade de hoje.

Assim é em relação ao meu primeiro voo, ocorrido nos antediluvianos idos de março de 1969, antes de a maioria dos leitores daqui ter nascido (e pelos meus cálculos, quando o dono do blog ainda só engatinhava e falava “dá-dá-gu-gu”). E acho que nada melhor para meu primeiro post como colaborador do Aviões e Músicas do que contar o “causo” do meu primeiro voo.

Não sejam maldosos: também não foi uma viagem a negócios! Eu ainda era menino. Grandinho, porém, o suficiente para me lembrar. Na época, eu morava em Belo Horizonte e vim a São Paulo com minha mãe. Viemos de ônibus, 9 horas sacolejando na Viação Impala, e vocês podem imaginar como uma criança tem paciência para uma viagem dessas de ônibus… (Aliás, adulto tem, também?) Eu queria morrer, São Paulo não chegava nunca! Mas apesar de nunca ter viajado de avião até então, eu já ficava intrigado com aquelas coisas barulhentas que passavam por cima da minha cabeça desafiando a gravidade, crivava minha mãe de perguntas e adorava quando apareciam aviões na TV ou no cinema.

Só sei que, sei lá por que, minha mãe resolveu que iríamos voltar de avião. Era uma grande extravagância, porque naquele tempo a classe média não viajava de avião, a não ser se fosse inevitável, pago pelo trabalho ou uma emergência. Era caríssimo, fora do alcance da maioria mesmo. Não foi à toa que viemos de ônibus – e olhem que minha mãe era profissional liberal, não era “bem de vida” mas também não ganhava tão pouco assim. Vocês acham que alguém ousava viajar de camiseta ou bermuda num avião? Nem pensar! Não era proibido, mas só os olhares de desprezo dos passageiros chiquérrimos e superproduzidos (especialmente as mulheres) na sala de embarque já fariam qualquer incauto desses se arrepender de ter nascido!

Havia uma loja da VASP perto do nosso hotel em Sampa e foi nela mesma que compramos as passagens. Poderia ser outra: a tarifa era tabelada pelo governo (ou pela Varig, diziam as más línguas), a mesma para qualquer empresa, dia ou horário numa mesma rota. Mas foi a VASP. Lembro-me de já encher o saco da moça do atendimento, perguntando mil coisas, o tipo de avião, o tempo de voo, tudo (e olhem que eu era supertímido!). Como não havia computador, a moça falava pelo telefone com a central de passagens, que anotava os dados do passageiro manualmente e autorizava a emissão da passagem.

No dia seguinte, lá fomos nós para Congonhas e o famoso tititi de aeroporto foi paixão à primeira vista, que continua até hoje. Não havia carrinhos de bagagem, havia gente, que assim sustentava sua família: carregadores ficavam à espera na entrada do aeroporto, de onde por uma módica quantia levavam suas malas até o balcão de check-in. Lá havia o despacho manual das malas (nada de esteira, nada era automatizado), com um funcionário fortão para carregar a bagagem até o depósito atrás dos balcões, de onde iria num carrinho até o avião. O recibo de bagagem era tirado num bloquinho, onde o funcionário anotava o número da etiqueta pendurada na mala. Tudo manual mesmo!

A passagem já era aquele modelo com papel carbono vermelho que durou até pouco tempo atrás (e provavelmente ainda se vê de vez em quando, mesmo na era dos e-tickets), mas não havia cartão de embarque. O pessoal mais jovem deve ficar intrigado com aqueles comediantes antigos falando: “atenção, passageiros portadores de fichas da cor tal”. É que o funcionário do check-in conferia sua passagem, via se seu nome estava na lista de passageiros (batida à máquina pelos funcionários da área administrativa), despachava sua bagagem e aí lhe dava uma ficha retangular de plástico colorido, parecida com uma ficha de jogo, onde estavam gravados só o logotipo da empresa e um número sequencial de 1 a 100 ou quanto fosse a capacidade dos aviões. Era com isso que você embarcava.

Revista? Detetor de metais? Raio X? Documentos? Não havia nada disso naqueles tempos inocentes (apesar dos frequentes sequestros por militantes de grupos de oposição armada à ditadura, que desviavam os aviões para Cuba) e só havia um funcionário na porta da sala de embarque para ver se você tinha a fichinha de plástico. Como o tráfego aéreo era muito menor naquela época e mesmo um aeroporto de grande movimento para os padrões brasileiros, como Congonhas, não tinha mais do que uns cinco ou seis voos de cada empresa por hora, o controle era simplesmente a cor da ficha. Próximo voo para o Rio, ficha vermelha; para Belo Horizonte, ficha azul; para Curitiba, ficha amarela e assim por diante. Quando terminasse o embarque dos passageiros com ficha vermelha, elas eram reaproveitadas no próximo voo que abrisse o check-in.

Quando chamaram nossa cor de ficha (acho que era azul), fomos andando até o avião. Não, nada de ônibus – o movimento era pequeno e a maioria dos aviões parava perto do terminal. O avião era um turboélice NAMC YS-11, para 64 passageiros, único avião digno de nota produzido depois da II Guerra pela outrora respeitada indústria aeronáutica japonesa. Aqui no Brasil recebeu o apelido de “Samurai” e era assim que a VASP e mais tarde a Cruzeiro anunciavam seus serviços. E lá fui eu deslumbrado entrar no Samurai, com aquela combinação única de cheiro de querosene e de estofamento, campainhas do sistema de som, barulho de motores e sorriso de aeromoça que faz a festa do embarque.

Lógico que eu tive que me sentar na janelinha… Botei o cinto de segurança (abri e fechei várias vezes para examinar e ver como era) e fiquei maravilhado quando o avião decolou e as coisas começaram a diminuir, até que a gente ficou na camada de nuvens. Lá embaixo o ondulado mar de morros do relevo montanhoso de Minas Gerais ia passando devagarinho enquanto eu almoçava (isto mesmo, nada de biscoitos ou barrinhas de cereal, que aliás nem tinham sido inventadas ainda: era almoço mesmo, quentinho e dava para matar a fome!). Uma hora e meia depois de saírmos de Congonhas, pousamos no Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, e eu me lembrando daquelas 9 horas de ônibus da ida e achando o máximo ter viajado com tanto conforto e rapidez. Na sala de desembarque, as malas foram sendo entregues por um funcionário (não havia esteira), arranjamos um carregador, pegamos um táxi e logo estávamos em casa. E eu feliz da vida!

Depois disso, já fiz uns 200 voos em vários tipos de avião: HS-748 Avro, Vickers Viscount, BAC One Eleven, Hawker Siddeley Trident, todos os Boeing menos o 717 (mas voei no MD-80, que não é muito diferente), Douglas DC-8, MD-80 e MD-11, Airbus A319 e A320, Embraer Brasília, Fokker 100 e 50. Voei na Varig (RIP), Cruzeiro (RIP), Transbrasil (RIP), Aerolíneas Argentinas, Austral, Braniff (RIP), National Airlines (RIP), LAN Chile (ainda era chamada assim), Air France, British Airways, Lufthansa, American Airlines, Southwest, United, TAM, Gol, OceanAir/Avianca e Webjet. E ainda quero voar muito mais, porque toda vez que entro num avião, aquele menino que entrou no Samurai mais de 40 anos atrás ainda dá um sorriso largo de satisfação que o homem barbado de hoje mal consegue disfarçar.

PS:Com as diferenças regionais de dialetos,as vezes chamadas para embarque tinham algumas diferenças..,a exceção do Galeão e Santos Dumont com a linda voz da Iris Lettieri,”A voz do Aeroporto”.

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