O apagar das luzes-Asas da Bahia

Falar de VASP, parece comum a nós do Asas da Bahia! Cabe dizer que minha própria existência eu devo a VASP e mais, para mim o amor que sinto é pela companhia que existiu entre 1933-1990, de 1990 pra cá o que vimos foi uma brincadeira de mau-gosto em termos administrativos e a dilapidação do que foi a gigante paulista em seus anos de ouro! Tanto que particularmente não vejo como fase de ouro a passagem do MD11 pela companhia, ao contrário, o belo trimotor acabou marcando uma era insana que levou a companhia a um buraco sem fim.

Poderíamos falar que lá no belo 4 de Novembro de 1933, 72 empresários com um capital de 400 contos de réis deram início a uma companhia que teria a característica impar de cativar o coração das pessoas que geralmente gostam de verdade de aviação! Muitas vezes escuto meu pai falar sobre grandes passagens da companhia, como o BAC 1-11 chamado de One-Eleven para diferenciar-se dos da Transbrasil ou a passagem baixa do A300 sobre Teresina no primeiro vôo do gigante francês na capital piauiense (fato coberto por jornais, televisão e todo tipo de mídia). Inúmeros casos conhecemos da VASP, como o rasante dos 4 Boeing 737-200 lá em Julho de 1969 sobre Congonhas, os quais eram o PP-SMA, SMB, SMC, SMD, sendo que exceto o último, todos voaram até o final dos dias da companhia. Aqui na Bahia temos colecionados histórias sobre o Cmte.Clóvis, famoso por avisar pessoalmente “de avião” que estava chegando em casa com rasantes ou ainda o famoso vôo SALVADOR – ILHÉUS a 4.500 pés. Assim era a VASP, uma empresa única, singular!

Lembrando a saudosa VASP                                                                                                        lembro-me bem do Cmte.Pacheco falar que o A300 era o Mercedão, pois seu mach 0.78 foi encarado pelos comandantes de Boeing 727 (chamados de Super 200) como um caminhão pesado nas estradas brasileiras, afinal o 727 era uma flecha que cruzava os céus a mach 0.86! Outro fato importantíssimo da VASP, foi ela que construiu Congonhas, tanto que o mesmo era chamado de Campo da VASP, foi a única alternativa de sobrevivência para a VASP, uma vez que o Campo de Marte sempre alagava nas chuvas de São Paulo (tá vendo que é um problema antigo?), porém a estrangulação financeira que a companhia levou nesta empreitada a levou a tornar-se estatal, fato este que lhe rendeu bons frutos e sobretudo alguns problemas, como administrações ao bel prazer dos sabores políticos ou até mesmo negativas por parte do DAC de acordo com a situação política de São Paulo. Foi a VASP a criadora da ponte aérea com os Junkers Ju52/3m, um belo trimotor alemão para 17 passageiros. Foi a VASP uma das lançadoras do jipe voador Embraer 110 Bandeirante e única empresa que veio a operar todas aeronaves produzidas de um só modelo, no caso os Saab Scandia. Lançou o Boeing 737 na América Latina e no Brasil foi pioneira nos Boeing 737-200, 737-300 e 727-200. Esta é a verdadeira VASP!

Para os seus 50 anos, chegaram os Airbus A300, nesta época a VASP já estava consolidada, era a segunda maior empresa aérea brasileira, fazia charters a Aruba e Bariloche, tinha aeronaves de ponta como 737-200, 727-200 e o novíssimo A300 e ainda mais, operava seus aviões de ponta em todos os lugares possíveis, como A300 operando em Teresina, Maceió, Recife, Fortaleza, Manaus, Belém, Brasília, os 727 passavam por diversas cidades também e até a bela Fernando de Noronha recebia seus vôos. Em 1 de Outubro de 1990 o pior aconteceu, a empresa foi privatizada, um mar de esperança inundou a VASP e o que se viu foi uma expansão louca. Com um apetite voraz, Canhedo incorporou Boeing 737-300 e 400 em quantidades que gastaram a série de prefixos Sierra Oscar em 2 anos e ainda fez a “cena” ao incorporar os DC10, iguais aos da VARIG e desativá-los rapidamente em nome da renovação de frota com os MD11, passou a espalhar o nome da VASP aos quatro ventos e finalmente em 1992 veio o arresto de 30 aviões da frota. Enfim veio 2000 e a saída dos MD11 reduziu a VASP a quase nada, a pioneira em 737-300 no país viu sua frota de 737-300 resumir-se a 4 aeronaves e novamente apoiada em suas já cansadas estrelas os Boeing 737-200 e A300. O Nordeste era sua grande fonte de receita, com os hubs de Salvador e Recife chegando a ter 5 aeronaves em solo ao mesmo tempo por 4 vezes ao longo do dia. Era o que batizamos dentro do Asas da Bahia de maior espetáculo da terra, 1 A300 seguido de 4 737-200, uma orquestra de tirar o sono.

A este tempo a companhia já não era mais a número dois do país, já era a número 4, TAM já havia crescido e disparado na frente e a novata GOL crescendo com tudo. A existência da VASP nesses dias finais era a diversão de co-pilotos e comissários novatos na aviação que tinham na VASP a chance de entrar na aviação, ainda que notícias sinistras sobre vendas de vagas circulassem nos meios aeronáuticos. Para os entusiastas, os cansados 737-200 e sua fumaceira preta era o que tinha de melhor nas visitas a aeroportos e no Nordeste então o A300 era a festa de Salvador, Recife e Fortaleza, pois era o widebody garantido de todo santo dia.

Em Ilhéus conheci Bruno Valverde e Alexandre Mendes, ambos freqüentavam o aeroclube local exclusivamente para assistir aos 737-200 sempre que podiam, mesmo que o poder fosse todos os dias. Certa feita o PP-SMR alinhou, suspendeu o nariz e manteve os trens principais no solo até os metros finais da pista, foi a primeira vez que vimos o famoso rasante da VASP em Ilhéus, pronto no dia seguinte eu já estava na praia aguardando a decolagem do VP4240, passados alguns dias aconteceu o que queríamos, o PP-SMS levantou no meio da pista, recolheu os trens e nivelou, passando (juro!) a altura de um coqueiro sobre a avenida que cruza a cabeceira 29 e por 3 dias seguidos foi uma festa com PP-SFI, PP-SMA, PP-SMP, PP-SMS, PP-SMT, PP-SMR voando com classe e estilo por várias vezes sobre a cabeceira, o fato não passou despercebido pelas pessoas e dia de sábado e domingo era comum a praia lotar de carros e pessoas aguardando o show da VASP. Curiosamente o PP-SMP ficaria retido na Bahia ao fim da VASP, o PP-SFI foi o único sobrevivente e o SMA, SMS, SMT, SMR fizeram parte do grupo de aviões interditados pelo DAC. Mas com a parada dos 6 guerreiros a frota entrou em parafuso, as coisas se complicaram, os A300 já haviam parado e a companhia que tantas alegrias havia dado iria parar de voar…

27 de Janeiro de 2005, o PP-SFJ decola de Salvador para Guarulhos, ao escutar a torre pronunciar VASP 4265 LIVRE DECOLAGEM… foi a última vez que foi visto uma aeronave de passageiros da companhia decolar do Nordeste, no pátio já existiam outras aeronaves como PP-SMP, SNB, SPF, SMB, o SMB se retirou e em Fevereiro vimos pela última vez um 727-200 da VASPEX decolar… pronto, foi o apagar das luzes de uma companhia que marcou época e corações…

Texto:Alexandre Alves

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