Minhas memórias, antes que as esqueça.”

Minhas memórias, antes que as esqueça.” -Comissario Carlos Senra           

O passageiro, pessoa de contrastes –

O passageiro é sempre passageiro.  Por mais que viaje e por mais horas de vôo que acumule, o passageiro nunca será fixo, será sempre passageiro.  Anualmente, milhares deles vão à Disney levando seus filhos; sacoleiras entopem os vôos para N. York; aristocratas falidos vão à Los Angeles acreditando que a cidade ainda detém o antigo glamour; remediados apinham as listas de espera dos vôos para a Europa, sem falar nos descendentes, que vão ao Oriente torrar o saco dos ancestrais, que não têm como negar-lhes morada na busca por novas oportunidades. Juntos formam uma massa interessante, porém pastosa e sem rosto, à qual as empresas aéreas denominam “usuários”.

Os usuários querem entrar no avião todos ao mesmo tempo. Esbarram o ombro no batente da porta e olham feio para o outro que entrou ao mesmo tempo e esbarrou o outro ombro no outro batente. Brigam pela janelinha, mesmo quando o vôo é noturno e não dá pra ver nada. Quando a conseguem, passam a noite inteira levantando para ir ao banheiro, incomodando o outro usuário que também está com o ombro doído. Fazem barulho, bagunça, desfolham jornais, roubam talheres, copos, xícaras, travesseiros, mantas, fones de ouvido; assemelham-se a uma nuvem de gafanhotos praticando um saque a que chamam “souvenir”. Levam revistas de palavras cruzadas que jamais serão resolvidas e acham-se super malandros sentindo roçar na barriga o incômodo saco plástico que esconde os “travellers-cheques”.  Transformam os banheiros num lodaçal, num Everglades de mijo. Sentem-se uns aventureiros, uns Indiana Jones ao contrário, já que estão viajando de um país de terceiro mundo para lugares um pouquinho mais civilizados. Querem abraçar o Mickey e apertar a mão do Pateta; querem arrancar uma lasquinha de tinta da Estátua da Liberdade; querem pisar nas estrelas da Calçada da Fama.  Torcem para que neve em pleno verão e alugarão carros dos quais falarão pelos próximos dez anos. Tiram centenas de fotos horríveis, mostrando sempre os mesmos sorrisos sem graça e sempre com as pessoas portando sacolas de compras. Os que já foram mais de uma vez fazem questão de explicitar isso logo no primeiro momento da conversa: “da última vez que estivemos em Paris ..”.  O “última vez” é dito em itálico e negrito, deixando claro que ele já esteve lá outras vezes. Já o de primeira viagem compara o avião ao ônibus no qual fez a excursão a Foz do Iguaçu. E se acha criativo fazendo a inevitável comparação dos solavancos do avião aos buracos da estrada.

Pedem para conhecer a cabine de comando e lá chegando podem ser divididos em dois grupos: o dos experts e o dos babões. O expert, por ser expert, já entra na cabine de dedo em riste, apontando com concreta certeza “ali é o radar, não é?”. O babão entra quieto, compenetrado, olha tudo com muita atenção e por último o painel do teto.  Por estar olhando para cima fica com a boca semi-aberta. E dispara, engolindo a saliva: “poxa, quanto botão, como é que vocês decoram tudo isso?”.

O passageiro-padrão sempre quer a comida que não tem mais, e acha um absurdo o avião não estar equipado para atender a todos os seus desejos gastronômicos, sejam quais forem.  Certa vez um me pediu pizza. De calabresa, com bastante cebola. Desculpei-me por não poder atendê-lo, confidenciando-lhe no ouvido que a máquina que espremia os tomates para o molho havia quebrado. Embarcando em Seul ele quer jornal de Porto Velho . De hoje. E não adianta explicar que o Brasil está doze horas atrás do fuso da Coréia, fato incontornável, que faz o jornal ser sempre de ontem, nunca de hoje. Mas aí ele não quer mais, afinal, é um homem à frente do seu tempo. E tudo isso sem falar naqueles que voltam com dificuldades para entender o português. Compreende-se, afinal passaram longos sete dias em Miami .

E com todo esse tumulto e confusão foi preciso que as empresas encontrassem um profissional capaz de botar ordem naquela Babel de asas. Alguém capaz de controlar a massa , uma espécie de PM sem cassetete e que fosse, ainda, o responsável pela segurança. Era preciso alguém otimista, corajoso e trouxa o suficiente para topar a parada.

E assim, surgiu o comissário.

O Comissário, pessoa de contrastes –

O comissário é antes de tudo um forte. Um forte candidato a se fuder. Otimista por natureza é o único que acredita poder sair vivo de um acidente numa cangalha que anda a mais de 900 km por hora e que leva toneladas de combustível bem embaixo do seu assento. É um eclético: atura gente arrogante na primeira classe, atura gente chata na classe executiva, e na classe econômica atura gente que ainda não definiu se vai ser chata ou arrogante. Tem curso de sobrevivência na selva, no mar, no gelo e no deserto, mas nunca lhe ensinaram sobreviver com o ridículo salário que lhe pagam. Sabe fazer parto e controlar chilique. Sabe dar extrema-unção aos católicos, fazer servir a refeição kosher do rabino e conhece trechos do Alcorão para atender os muçulmanos. Tem curso de primeiros e de últimos socorros, conhece psicologia aplicada, e se nada disso der certo, sabe como tirar todo mundo de dentro do avião em 90 segundos, sendo o último a sair.  Dá nó em pingo d´água e quando o serviço de bordo não é suficiente para todo mundo, opera o milagre da multiplicação. É capaz de dar o mesmo copo de suco para duas pessoas ao mesmo tempo, sem que elas percebam. É um mágico, um ilusionista, cujas mãos possuem uma agilidade de fazer inveja a qualquer profissional do baralho. E é formado em ocultismo, sabendo ocultar frangos, queijos e garrafas pet na mala.

No início do vôo o comissário se apresenta ao comandante, que está de saco cheio, com cara mal dormida e o nó da gravata torto. Juntos vão para o avião, aquele belo exemplar de um mais pesado do que o ar, com mais de vinte anos de uso. O livro de panes é mais grosso que a Enciclopédia Russa, várias delas em “acr”, o que significa que não tem peça de reposição. A manutenção é de terceiro mundo e as pessoas envolvidas na operação também. O comissário checa tudo e recepciona os passageiros com um sorriso largo e uma mentira estreita sobre o atraso. Fecha a porta de travamento visivelmente duvidoso, senta em seu banco, ajusta o seu cinto e dá um sorriso para a velhinha sentada bem na sua frente. Apaga a luz, mantendo a cabine escura como a dúvida. Concentra-se para a decolagem e acha que vai chegar inteiro ao destino. Vai ser otimista assim na puta que pariu!

Além dele, há a comissária, a versão feminina da coisa.

A Comissária, pessoa de contrastes –

A comissária começa na carreira com um carro zero, dado pelo pai.  Ele não queria que ela interrompesse a faculdade e adiasse o casamento, mas no fundo está feliz por ver a menina, aquela criadora de caso, ir encher o saco dos outros. Os outros também estão felizes por conhecer a menina, e todos se mostram muito mais interessantes que o noivo, que começou a dançar no momento em que ela colocou os pés no avião. Na relação tentativa-erro, ela acha que toda tentativa é um acerto, já que os novos colegas estão sempre dispostos a ensinar. Ela não se dá conta daquele monte de gente vivida dançando em torno dela igual índio dançando em volta da fogueira.

A comissária tem o mesmo treinamento e sabe fazer as mesmas coisas que o comissário faz. Mas, por ser mulher, é menos otimista e, portanto, mais realista. A bordo, ela é soberana, insuperável e insubstituível, e com um simples sorriso é capaz de servir não dois, mas três copos de suco ao mesmo tempo, sendo que o terceiro usuário, cheio de esperanças pelo sorriso, vai virar o copo na boca sem perceber que ele está vazio. É ela que trabalha na linha de frente, dando o primeiro combate à massa e por isso é, ao mesmo tempo, flecha e arco. Em pouquíssimo tempo estará dançando em volta de todo mundo como índio dança em volta da fogueira. Ela decola ao lado do comissário e mesmo na escuridão é capaz de perceber, perguntando enquanto mantém o sorriso para não chamar atenção: “fechou essa porta direito? Parece que está meio aberta”. Ambos, comissário e comissária, formam um time poderoso e, às vezes, assediam a massa , fazendo cara séria e voz compenetrada para oferecer as carnes disponíveis na refeição: “a senhora é vaca ou galinha?”

Mas é ela, a comissária, quem sempre prevalece. É ela que alimenta os mais inconfessáveis sonhos de todos, principalmente do usuário. Pode não ser bonita, nem gostosa. Mas dentro daquele uniforme transforma-se numa espécie de fada alcançável, um mito capaz de enlouquecer os menos avisados.

E, dentre os mais desavisados, está o co-piloto.

O Co-Piloto, pessoa de contrastes –

Existem dois tipos básicos de co-piloto: o “xodó” e o “oriundo”. O “xodó” é o xodó da mãe, senhora que transpira vaidade por todos os poros e que está sempre avisando que o filho “chegou lá, mas ainda vai mais longe”.  Ele é um rapaz altivo, que pensa ter cultura e inteligência acima da média. E se acha bonitão! É o centro das atenções nas festas de família. Claro, não é toda família que tem um pimpolho capaz de que decolar aqueles enormes aviões. Não mesmo! Só aquelas com grana suficiente pra bancar o aero-clube, onde o coitado vai ralar durante seis longos meses para tirar o brevet. O outro tipo é o “oriundo”. Ele é oriundo da FAB, onde cursou a academia e na hora de servir à pátria descobriu que a aviação comercial é mais compensadora. Aí, ele dá baixa e vai ser civil, tirando a vaga de um pimpolho, cuja mãe vai ficar uma fera.

Normalmente, o co-piloto xodó é mais arrogante e liberal, enquanto o oriundo é mais humilde e “caxias”. Seja como for, ambos descobrirão rapidamente que só têm direito a escolha comportamental aquele que está por cima. E é por isso que o passatempo de ambos é falar mal do comandante. Adoram contar sobre o dia em que o comandante pisou na bola e – não fosse ele, herói de plantão – as coisas iam ficar pretas. Mas, claro, só contarão para as pessoas de confiança, porque amanhã vai ter outro vôo, com um comandante amigo daquele outro, e os quinze minutos de glória poderão se transformar em meses de pesadelo.

Por ser achar bonitão, inteligente e culto, o co-piloto acha também que pode conquistar a comissária. Acha que a concorrência do comissário que senta junto dela é desleal, e que a concorrência exercida pelo comandante é sacana, já que ele usa o posto pra dar em cima da moça. Mas sabe que um dia será comandante e então tudo será diferente. Cada um será colocado no seu devido lugarzinho e nascerá uma nova era de justiça e paz social no relacionamento. Enquanto isso não acontece, ele acha que todo mundo é babaca.

Principalmente o comandante.

O Comandante, pessoa de contrastes –

Todo comandante já foi co-piloto e por isso mesmo acha que todo co-piloto é babaca. Quando foi promovido passou a sofrer a chamada “solidão de comando”, fato difícil de contornar porque ele, apesar de estar cercado por vários tripulantes, cada um deles especialista numa coisa, quer ser especialista em tudo. Afinal, é ele quem tem que comandar e a solidão de comando faz com que se sinta um Charles Lindemberg cercado de gente por todos os lados.

O comandante é o representante direto do patrão que, no entanto, não lhe dá autonomia de representação. O patrão prefere nomear uma chefia, a quem dá autonomia, que deveria representá-lo e a quem o comandante deveria representar. Mas na opinião do comandante, toda chefia é incompetente. E não querendo representar incompetentes, ele acaba representando apenas a si mesmo, o que aumenta a solidão de comando. Isto faz azedar o relacionamento com os demais tripulantes, principalmente com o seu colega mais próximo, o co-piloto. Já tendo sido co-piloto, o comandante sabe que este o acha um babaca e, por isso, o comandante o acha um babaca.

Um dia, de saco cheio por ter que voar um avião velho num país de terceiro mundo, e tendo que conviver com a solidão de comando, o comandante conhece uma comissária. Ela parece especialista em compreender tudo, um mito capaz de fazê-lo virar o copo vazio na boca e com cancha suficiente para amenizar a solidão de comando.

Tudo estaria resolvido, se não fosse aquele co-piloto babaca que também está dando em cima da moça. E pior, tem aquele comissário, com seu maldito otimismo, que senta junto dela na decolagem e tenta conquistá-la, mentindo que a porta está fechada…

# Carlos Senra – “Essa parte, agora publicada, é uma espécie de introdução ao corpo de um livro que venho rabiscando desde o tempo em que voávamos. O livro contém uma série de contos que pretendem ser cômicos. Faço, porém, uma advertência: são textos que nada têm de sérios, puro “nonsense” e que devem ser lidos levando-se em conta a imensa capacidade que temos de rir de nós mesmos.”

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